CB, Brasil, p. 12
21 de Set de 2005
Festa celebra Raposa Serra do Sol
Paloma Oliveto
Da equipe do Correio
Apesar do incêndio criminoso que destruiu, no sábado passado, o Centro de Formação e Cultura da reserva indígena Raposa Serra do Sol, pelo menos dez mil pessoas deverão participar, a partir de hoje, da festa em homenagem à homologação da área. Foram três décadas de imbróglios até que, em abril deste ano, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou o decreto que deu aos índios a posse definitiva da área de 1,74 milhão de hectares. No local, vivem 15 mil índios em 152 aldeias distribuídas na área indígena. O clima na reserva está tranqüilo, mesmo após o susto no último final de semana.
No último sábado, 150 homens armados entraram na antiga Missão Sumuru, portando armas de fogo, facões e pedaços de pau. Eles invadiram o local e atearam fogo. Os índios acreditam que o atentado foi um aviso de grupos econômicos contrários à homologação - posseiros e arrozeiros que se recusam a sair da área. A tentativa teria o objetivo de estragar a festa. A Polícia Federal investiga o crime em caráter sigiloso, abriu inquérito e já deslocou cem homens para a área.
Os ministros Márcio Thomaz Bastos (Justiça), Marina Silva (Meio Ambiente) e Miguel Rosseto (Desenvolvimento Agrário) foram convidados e confirmaram presença. Também serão homenageados o presidente da Fundação Nacional do Índio, Mércio Pereira, e do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária, Rofl Hackbart. O presidente Lula, que iria às comemorações, não participará da festa. Alegou problemas de agenda.
Provocação
Os líderes indígenas não se intimidaram com o episódio criminoso. "Entendemos que foi uma provocação, mas não vamos nos abater", garante a advogada Joênia Wapichana, membro do Conselho Indígena de Roraima (CIR), organização não-governamental que defende os direitos dos índios no estado e uma das organizadoras da festa. Joênia diz que o clima na região está tranqüilo porque os índios acreditam que a presença da PF irá impedir novas agressões. A festa se estenderá até o dia 30.
O coordenador do CIR, Marinaldo Macuxi, diz que, logo após o incêndio, os índios ficaram com medo de que a comemoração servisse de isca para novos ataques. Mas garante que, agora, o clima de animação prevalece. Até mesmo a Sociedade de Defesa dos Índios do Norte de Roraima (Sodiur), que foi contrária à homologação por entender que os índios precisavam do contato com a cidade, está participando da festa. "Agora estão todos unidos", comemora Marinaldo. Ele reconhece, entretanto, que alguns índios se uniram a fazendeiros da região para promover o ataque de sábado.
O vice-prefeito da cidade de Pacaraima, Anísio Pedrosa, foi reconhecido por pessoas que estavam na missão religiosa, pouco antes da invasão e do incêndio. Quando os homens armados entraram no centro de cultura, havia um professor e 30 alunos. A igreja, o hospital, os quartos, os refeitórios, os banheiros, a biblioteca, a sala e os quartos dos professores foram completamente destruídos. "Pedrosa estava lá, no carro dele. Ele está a serviço do Paulo César Quartieiro", acusa Marinaldo, referindo-se ao maior produtor de arroz da região e prefeito de Paracaima. No ano passado, Quartieiro foi indiciado juntamente com líderes indígenas pelo seqüestro de três missionários. Apesar disso, até hoje ninguém foi preso. O Correio tentou entrar em contato com Anísio Pedrosa e Paulo César Quartieiro, mas não conseguiu localizá-los.
Amparados por agentes da PF, 30 ônibus sairão de Boa Vista, com destino à primeira parada da festa, a aldeia Maturuca. Haverá danças, comidas típicas e caxiri na cuia, tipo de bebida alcoólica fermentada. Além de apresentações folclóricas, os índios vão fazer competições de arca e flecha, corrida de torra e corrida a cavalo. A festa segue pela comunidade Canta Galo e termina na terra Bismark. Um grupo de artistas indígenas fará um painel de concreto com cinco metros de altura, onde estará estampado o mapa da área Raposa Serra do Sol.
CB, 21/09/2005, Brasil, p. 12
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