O Globo, Opinião, p. 6
26 de Jan de 2008
Fazer mea culpa
A Amazônia não é apenas vítima de queimadas e desmatamento criminosos. A reunião de emergência convocada pelo presidente Lula por causa da constatação de que a destruição da floresta ganhou novo impulso demonstra que a região também padece da desarticulação entre autoridades.
Que ficou visível no confronto entre a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, e seu colega da Agricultura, Reinhold Stephanes, com a representante dos ambientalistas no primeiro escalão em Brasília procurando atingir um dos alvos prediletos da categoria, o agronegócio - defendido, por sua vez, por quem se beneficia dentro do governo sempre que sojicultores, pecuaristas e frigoríficos batem recordes de produção e nas exportações.
Pode-se marcar no calendário o dia em que a última árvore amazônica será abatida, se Brasília continuar a ser palco desse improdutivo jogo de empurra entre ministros na busca de culpados: se motosserras de madeireiras ou plantações de soja e pastos para gado.
Nessa como em outras questões - na energética, por exemplo -, caberia ao governo fazer um saudável mea culpa e transformá-lo em ponto de partida para rever o que não funcionou nas medidas tomadas. Bem como saber por que nada foi feito em 2005, quando a Casa Civil detectou que o Plano de Ação para a Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal, de 2004, já apresentava falhas um ano depois, como noticiou ontem "O Estado de S. Paulo".
A briga entre ministros, seja por razões ideológicas ou corporativas, não se justifica pelo fato de que tudo parece indicar haver múltiplos responsáveis pela devastação. Até mesmo assentados do Incra, acusados por um funcionário do Ibama em reportagem publicada pelo GLOBO em maio do ano passado.
Madeireiras, plantações de soja, rebanhos, a agricultura de subsistência, todos parecem ser engrenagens de uma máquina de destruição que tem conseguido agir longe do alcance de sucessivos governos, mesmo o atual, tão marcadamente ligado a grupos de ambientalistas. Ele até agora também fracassou, é preciso reconhecer.
O assunto tem relevância estratégica. Com o tema ambiental em destaque na agenda de todos os países, exportações brasileiras de grãos, carne e álcool poderão sofrer boicotes caso venham a ser tachadas de responsáveis pelo estrangulamento da última grande reserva florestal do planeta. Outro motivo para haver maturidade no governo diante do tema.
O Globo, 26/01/2008, Opinião, p. 6
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