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Fazendeiros correm risco de perder tudo

OESP, Nacional, p.A9
01 de mar de 2005

Fazendeiros correm risco de perder tudo
Terras de pecuaristas estão incluídas em projetos de reserva ecológica do governo
Leonel Rocha
Enviado especial
Os fazendeiros que se instalaram no centro-oeste do Pará e na Terra do Meio, ao longo da Rodovia Transamazônica, correm o risco de perder todo o investimento feito nos últimos 25 anos em pastagens, currais, casas, estradas e milhões de cabeças de gado. Eles compraram as terras nos anos 80 de antigos posseiros que ocuparam desordenada e informalmente as glebas do antigo programa de colonização lançado pelo governo Médici, em 1973.
Em menos de um mês, dezenas de pecuaristas viram suas fazendas incluídas nos 8 milhões de hectares interditados pelo governo federal para serem transformados em reservas ecológicas, em resposta ao assassinato da missionária Dorothy Stang, no último dia 12, supostamente a mando de Vitalmiro Moura, o Bida, um pecuarista que teve as terras que ocupava inseridas no Projeto de Desenvolvimento Social (PDS), modelo de reforma agrária que Dorothy ajudava a implantar em Anapu.
Até mesmo os colonos que participaram da licitação pública original feita pelo Incra, órgão responsável pela execução do maior projeto de colonização do mundo, planejado e nunca concluído pelo regime militar, correm o risco de perder todo o investimento.
Muitos dos que compraram e pagaram pela terra nunca tiveram a documentação regularizada. Com a anulação dos antigos documentos e dos registros feitos em cartórios, a indefinição fundiária pode transformar o Pará em um Estado de terras sub judice e com eternos conflitos que podem gerar novas mortes.
"É um constrangimento para quem veio investir no Pará e agora pode perder o esforço de toda uma vida", protesta o diretor da Federação da Agricultura do Estado, Francisco Alberto de Castro.
O pecuarista Francisco Ribeiro de Oliveira, 75 anos, deixou Minas Gerais na década de 70 com o pai e os irmãos, acreditando no slogan do governo "Integrar para não Entregar". A família participou da licitação de áreas de 3 mil hectares e começou a abrir pasto para criar gado. Há dez anos Chico Leiteiro, como ficou conhecido, amargou a primeira invasão dos sem-terra, segundo ele, liderada pela missionária Dorothy Stang. Ele chegou a ganhar uma reintegração de posse, mas depois de nova invasão e de ameaças de morte abandonou a fazenda, onde teve mil vacas.
"Cheguei aqui rico, hoje estou pobre", queixa-se Chico Leiteiro, que hoje fatura R$ 60 por dia vendendo queijo, 10% do que quando se instalou na região.
O veterinário paranaense Edson Carvalho Chandonha começou a trabalhar em Anapu em 1977. Sua fazenda de 2.500 hectares foi incluída na Reserva Verde Para Sempre e ele não tem mais esperança de reavê-la. "Larguei tudo lá. Hoje sobrevivo como veterinário."

OESP, 01/03/2005, p.A9

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