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A farsa dos índios isolados da Amazônia

Agência Amazônia de Notícias
24 de Jun de 2008

Jornal inglês The Guardian diz que tribo era conhecida desde 1910. Emissora preparava especial para o Discovery Channel.

BRASÍLIA - Uma tribo perdida da Amazônia foi destaque nos jornais mundo há semanas atrás. O indigenista José Carlos dos Reis Meirelles Júnior, de 61, autor da descoberta, fez crer tratar-se de uma descoberta inédita. E foram muitos a destacar o feito. A farsa foi desmontada pelo jornal inglês The Guardian. De acordo com a publicação, a tribo perdida seria conhecida desde 1910. Ou seja, a descoberta já havia sido constatada quase um século atrás.

Descobriu-se que tudo não passava de uma jogada de marketing. Os envolvidos na descoberta queriam chamar a atenção para os perigos da indústria madeireira. Meirelles e Funai, para a qual trabalha, reconheceram que a publicação das imagens foi feita de modo a que parecessem, de fato, uma tribo perdida. "Sobrevoamos a região para mostrar as suas casas, para mostrar que eles estão lá, para mostrar que eles existem", afirmou Meirelles Júnior. "Isto é muito importante porque existe quem duvide da sua existência".

Na mesma semana em que a tribo perdida chegou aos jornais, um grupo de agentes de endemias de Cruzeiro do Sul, no Acre, denunciou ter servido de iscas humanas em estudo da malária. Quatro dos agentes confirmaram a denúncia em depoimento ao defensor Jonathan Xavier. Um deles, Marcílio Ferreira da Silva, contou ficar entre 6 e 12 horas exposto a picadas do Anopheles - mosquito transmissor da malária. Ele conta que recebia em média 300 picadas por dia. O governo do Acre negou, mas um relatório da própria Secretaria de Saúde comprova a prática. O estardalhaço em torno da 'tribo perdida' tinha o claro objetivo de diminuir o impacto do caso das cobaias humanas do Juruá.

Série na Discovery

Antes da descoberta correr tinta mundo afora, a tribo perdida já era conhecida de alguns privilegiados estrangeiros. Três meses antes, uma equipe de TV inglesa entrou floresta adentro, na Amazônia peruana, fez contato com uma tribo indígena e propôs uma espécie de reality show - filmariam em detalhes a vida diária da tribo, durante um bom período, para produzir uma série.

A série já tinha até título: World's Lost Tribes (Tribos Perdidas do Mundo), e seria exibida pelo canal Discovery Channel. A idéia não deu certo. E, para complicar, durante o contato, um vírus dos brancos atingiu os índios. Quatro delas morreram. A escritora Jay Griffiths ficou indignada com a divulgação das fotos.

Em artigo escrito para o jornal inglês The Guardian, ela se diz indignada com as recentes imagens da tribo descoberta no interior do Acre - em que índios assustados apontam suas flechas para um pequeno avião que sobrevoa a tribo. No texto, ela condena a mania dos brancos de "tirar do isolamento" tribos que chamam de "perdidas" no fundo das florestas.

Estudiosa do assunto, autora de um livro sobre índios, a escritora interpreta a foto: "A mensagem não podia ser mais clara: deixem-nos sozinhos". Mas este é um aviso inútil, prossegue. A trás dessa imagem virão as ONGs que se atribuem o papel de defender as tribos e imaginam que têm muito a lhes ensinar.

"Depois, o mercado editorial promove o aventureiro. As igrejas fundam missões. As corporações enviam mineradores e destruidores da floresta. E as companhias de TV enviam suas equipes. Em um mundo honesto, todos deveriam ser acusados de tentativa de assassinato", diz ela.

Racismo

Para Jay, esse processo de invasão mostra 'que existe ainda um profundo racismo contra os povos indígenas". Ela deu outro exemplo: "Na Amazônia peruana encontrei um missionário evangélico que estava em busca de tribos não contactadas, dizendo que estava amaciando o caminho para funcionários de empresas petrolíferas", recorda.

"As ligações entre missionários e outras indústrias extrativistas são bem documentadas", ironizou. Avisou que não é contra "antropólogos e ativistas, e mesmo jornalistas, que sabem tratar o assunto com respeito".

A Cicada Films, que mandou a equipe de TV ao Peru, negou enfaticamente que sua equipe tenha invadido áreas proibidas. Alega que seus funcionários já encontraram, no local, índios doentes. Representantes dos índios, no entanto, sustentam que, autorizados a visitarem uma tribo conhecida, os funcionários da Cicada a acharam muito aculturada e foram, sem autorização, mais para o fundo da floresta.

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