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Faltam dados para avaliar inspeção veicular

OESP, Especial, p. H2-H3
16 de Jan de 2013

Faltam dados para avaliar inspeção veicular
Únicos estudos sobre o programa foram feitos pela Controlar. Proposta de mudança também não foi baseada em pesquisa

Giovana Girardi

Em meio à polêmica política e econômica em torno da mudança do modelo de inspeção veicular proposta pela recém-empossada gestão Fernando Haddad (PT), pouco tem se debatido sobreo impacto que a alteração poderia trazer ao ambiente e à saúde em São Paulo.
A Prefeitura justifica as mudanças - as inspeções, em vez de anuais, passam a ser bienais, e serão feitas somente por veículos com mais de dois anos-argumentando que países desenvolvidos, como os da União Europeia e Estados Unidos, fazem assim. Mas não foi feito nenhum estudo que leve em conta as condições paulistanas.
Por outro lado é difícil mensurar até mesmo a eficácia do programa atual de inspeção veicular, que está completando cinco anos. Olhando somente para o monitoramento da Cetesb, a qualidade do ar no município apresentou pouca melhora nos últimos anos, mas outros fatores pesam para isso, comoocrescimentocontínuodafrotaecondiçõesmeteorológicasqueprejudicam a dispersão dos gases.
As pesquisas que existem sobre a inspeção paulistana foram elaboradas sob encomenda da Controlar, a empresa que administra o programa. Alguns especialistas chegaram a contestá-las, mas tampouco algum estudo independente foi feito para avaliar essas informações. Em geral, porém, todos defendem que há espaço para melhoria.
De acordo com os dados da Cetesb, de 2008 (quando o programa começou) para cá, os gases que apresentaram maiores reduções de concentração na atmosfera da capital foram o monóxido de carbono (CO)e o dióxido de enxofre (SO2). No primeiro caso, desde2008ogásnão ultrapassou em nenhum dia o padrão e o nível de atenção.
Já o material particulado (MP), hoje o poluente mais relacionado com redução da expectativa de vida pela Organização Mundial da Saúde por provocar doenças respiratórias e até mesmo casos de câncer, ficou relativamente estável para o MP 10.
Masdesde2009vemapresentando um aumento na sua versão mais fina, o MP 2,5 (com 2,5 micra-milésimo de milímetro), considerado ainda mais danoso.
Eficácia. A avaliação mais recente da Controlar, divulgada em meados do ano passado, aponta que o maior ganho do programa foi de fato no CO.
Comparando as médias das emissões medidas na primeira inspeção com as médias das reduções observadas nos veículos inicialmente reprovados e depois reinspecionados, o consultor Gabriel Murgel Branco calculou que, coma inspeção em 2011, foi possível conseguir uma redução de 49% nas emissões do gás em veículos leves -- os dados de 2012 ainda não estão finalizados.
Essa tendência de queda, porém, não é de hoje, vem desde o final dos anos 1990, pondera Kamyla Borges da Cunha, do Instituto de Energia e Ambiente. "Observando os dados da rede de monitoramento da Cetesb da máxima concentração do CO , vemos que ela vem caindo. Chego a 7 partes por milhão (ppm), alcançando em torno de 5 ppm hoje, contra 35 ppm do padrão. Houve uma redução, mas já estava baixo, não é o problema atual para a saúde humana", explica.
O cenário era bem diferente do final da década de 1980, quando o padrão frequentemente era superado. Foi um dos fatores que motivaram a criação do Programa de Controle da Poluição do Ar por Veículos Automotores (Proconve), que estabeleceu uma série de medidas para reduzir a emissão dos poluentes, como a melhoria dos automóveis e dos combustíveis e também a inspeção veicular.
"De fato boa parte dos ganhos veio com o Proconve. A partir de 97, os carros passar a ter catalisador e injeção eletrônica. Mas o que conta é que mesmo os carros emitindo menos hoje, eles existem na frota em uma proporção maior do que os carros velhos que emitem mais. Só de carro flex a frota é de 1milhão, multiplicado pelo tiquinho que eles emitem. É isso que conta e é isso que é o ganho da inspeção", afirma Branco.
A vedete da Controlar, no entanto, é o ganho que eles afirmam ter obtido com o material particulado emitido pelos veículos a diesel. Os números estão estampados nas unidades de inspeção.
Usando a mesma metodologia dos carros de passeio, Branco calculou que a redução obtida com a vistoria a caminhões, ônibus e afins em 2011 foi de 28%.
É com base nesse número que o patologista Paulo Saldiva, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, calculou quantas mortes por problemas respiratórios podem ter sido evitadas. Segundo suas contas, 584. Saldiva explica que esse número não significa uma observação real do ganho (em termos de menos internações, por exemplo), mas oferece um potencial de redução de mortes. Quanto ao fato de que no monitoramento da Cetesb não é possível ver a queda da concentração de MP, Saldiva pondera que a inspeção tira somente uns 5%do material da atmosfera.
"Não é o remédio para a poluição da cidade. Acho que se é para mudar o modelo de inspeção, o melhor seria, em vez de isentar alguns, ampliar para a toda a Região Metropolitana, ao menos para a frota a diesel", diz.
Questionamento. A pedido do Estado, um dos principais especialistas europeus em regulação ambiental, o alemão Axel Friedrich, chefe da Divisão de Transportes e Ruído da Agência Ambiental alemã e um dos pais do sistema de inspeção em seu país, avaliou o estudo que mostra as reduções de emissões.
Ao ler o trabalho, ele disse não ter compreendido as correlações adotadas. "Tentam justificar de uma maneira que eu não acho cientificamente correta."
Ele explica que como esse tipo deteste é curto e feito com o carro quente, somente os grandes emissores podem ser detectados. "Nos carros modernos, 80% das emissões estão na fase de aquecimento. Então estamos tratando de 20%. Com sorte é possível reduzir 20% das emissões", afirma.
"O problema é que os carros são submetidos à inspeção em marcha lenta, sem carga, só que essa não é a condição em que são utilizados", complementa Sílvio Figueiredo, do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), da USP. "Não quer dizer que a inspeção não traga nenhum ganho. Ela traz. Mas é mais um indicador, não é a realidade."

Poluição do ar mata mais que colesterol

Altas concentrações de poluente na atmosfera provocados pelas emissões de veículos a diesel já são um risco à saúde maior do que níveis elevados de colesterol. O alerta foi feito no ano passado por uma pesquisa divulgada na revista científica Lancet. De acordo com o levantamento, 3,2 milhões de pessoas morreram em decorrência de poluição em 2010, especialmente na Ásia. Em 1990 eram cerca de 800 mil.

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Além de usar como base o modelo adotado por outros países, o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT), tem defendido que é possível liberar os carros novos, de até dois anos, da inspeção veicular porque seria responsabilidade das montadoras resolver eventuais falhas durante o período de garantia. Como hoje muitos fabricantes têm oferecido até duas revisões, os problemas poderiam ser sanados lá.
Para o consultor Gabriel Murgel Branco, que analisa os resultados dos veículos submetidos à inspeção, as emissões dos carros novos, no entanto, não são desprezíveis, e a mudança pode ser prejudicial ao ambiente.
Ao medir as reduções obtidas pela vistoria, ele considerou a idade dos veículos, e observou que aqueles com até cinco anos apresentavam um ganho semelhante aos mais velhos.
"Tem virado moda mexer no carro para mudar a carburação eletrônica e assim baixar o consumo e ganhar potência ou então transformar o carro em flex ou a gás natural. Com isso, o carro pode passar a poluir de 15 a 20 vezes mais", afirma.
"Nessas condições, o catalisador sai de cena, vira um carro de 1980. O pessoal fala que são só 3% que fazem isso, mas multiplicado pelas 20 vezes que emitem mais, equivale a aumento de 60% da frota inteira. Então tem de inspecionar todo mundo por causa desses", defende.
No caso dos veículos a diesel, ele afirma que dos 28% de redução no material particulado observado em 2011, de 4% a 5% foi obtido com os mais novos. "Dispensar é perder na certa."
Para Silvio Figueiredo, do Instituto de Pesquisas Tecnológicas, se é para mudar o modelo, o melhor seria tentar focar os veículos que ainda não participam da inspeção - mais de 30%, segundo estimativas da Controlar.
"Tirar os carros novos pode trazer algum prejuízo, mas muito maior deve ser daqueles que fogem da inspeção, que em geral são mais velhos e sem controle, e aqueles que circulam por aqui, mas têm placa de fora e não se submetem à inspeção. Tecnicamente é o que faria mais sentido", diz Figueiredo.
Quanto à proposta de fazer a inspeção a cada dois anos, o pesquisador da USP Paulo Saldiva pondera que São Paulo não pode ser comparada com capitais europeias. "Em Berlim, onde o carro tem tecnologia alemã e o combustível é melhor, há transporte coletivo para todo mundo, então talvez não tenha problema fazer a inspeção a cada dois anos. Mas não é o que temos aqui", afirma ele. "Enquanto não tivermos políticas e remédios estruturais para o problema, não dá para abrir mão." / G.G.

OESP, 16/01/2013, Especial, p. H2-H3

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