OESP, Especial, p. H4
03 de Dez de 2009
''Falta entrosamento na ação dos órgãos do governo''
Especialistas apontam entraves ao desenvolvimento
Marilena Rocha
A falta de entrosamento entre os ministérios no trato da questão amazônica foi uma das críticas ao governo federal que permearam a abertura do fórum sobre a região Norte promovido pelo Estado. Segundo o professor José Alberto Machado, da Universidade Federal do Amazonas, falta uma agenda estratégica da nação para a Amazônia que possibilite o seu real desenvolvimento. "Cada Ministério tem uma visão diferente sobre como atuar ou o que é prioritário para a área", afirmou. "Com essa falta de entrosamento entre os órgãos responsáveis, fica muito difícil organizar ações conjuntas em favor da região".
Machado defende a criação de um ministério ou mesmo de uma agência para tratar especificamente dos interesses e necessidades da região. Para ele, a perda de importância do polo de Manaus seria decorrência, em grande parte, dessa falta de entrosamento dos órgãos públicos para com a Amazônia.
Já o diretor do Instituto Imazon, Paulo Barreto, acha o governo precisa ampliar a sua presença para garantir o desenvolvimento da região. "Através de satélites é possível hoje saber que uma área está sendo explorada, mas como não existe plano de manejo, não dá para se saber o nível de exploração". Segundo ele, é preciso reorganizar a forma de atuação do estado para fortalecer a atuação institucional na região, aproveitando os modernos recursos que a tecnologia oferece.
Barreto argumenta que um dos maiores entraves ao desenvolvimento da região é a inexistência de uma coordenação das ações governamentais. Quando um ministério resolve fazer uma estrada, por exemplo, outros órgãos deveriam participar com providências que o empreendimento, mas em geral os diferentes ramos de atuação do governo não se entendem e a população é prejudicada.
Formação profissional
O diretor do Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia (Inpa), Adalberto Luis Val, critica o fato de que a Amazônia, que se estende por mais de 60% do território nacional, tenha em docentes um número inferior ao que dispõe a Universidade de São Paulo (USP). "Temos 11 universidades federais, cinco estaduais, três institutos de pesquisa e pouco mais de 3.500 doutores na região", lamenta, referindo-se aos nove estados que formam a Amazônia Legal.
Ao todo, a região soma hoje 38 programas de doutorado, sendo sete deles no Inpa. O País forma por ano cerca de 11 mil doutores. "Precisaríamos de 3.000 a 4.000 doutores por ano. Segundo ele, a região contribui com cerca de 10% do Produto Interno Bruto (PIB) e deveria merecer maior atenção do governo federal.
"Não tenho dúvida de que a Amazônia é o laboratório para um novo paradigma de desenvolvimento, mas para isso é preciso criar condições e desenvolver tecnologias", diz o pesquisador. "A questão não é apenas de atrair ou formar novos cérebros, mas principalmente de garantir a sua fixação".
Para que pessoas qualificadas permaneçam na região, é preciso uma combinação de salários atrativos com um programa contínuo de produção de projetos e carga considerável de investimentos. O diretor do Inpa está confiante na possibilidade disso vir a ocorrer no futuro. "Bolsas de estudo ou capacitação, sozinhas não fixam recursos humanos. É preciso remuneração compatível", assinala o pesquisador, destacando como legado do Inpa a formação de mais de 1.300 doutores.
Debatedores
Eduardo Braga
Governador do Estado do Amazonas
Entende que o futuro do Estado do Amazonas está no reconhecimento do trabalho do povo. A floresta, diz, não sobreviverá se os seus verdadeiros guardiães não tiverem seu trabalho reconhecido. Trabalho que é fundamental para manter o ritmo hidrológico do planeta. A Zona Franca de Manaus, segundo o governador, pode ser encarada como o mais eficiente programa de conservação ambiental do País. Até junho, 550 empresas asseguraram 400 mil empregos e arrecadação de R$ 27 bilhões.
Maurilio Monteiro
Secretário de Desenvolvimento, Ciência e Tecnologia do Estado do Pará
Entende que a Amazônia precisa de um projeto de nação e não apenas um projeto para os Estados ou para a região. No caso do Pará, diz que há 13 territórios de integração. Cada um conta com um plano de desenvolvimento. Uma reestruturação do planejamento em novas bases abre um conjunto de oportunidades e negócios. A questão, segundo ele, é trabalhar corretamente essa transição para o novo modelo de desenvolvimento sustentável.
Paulo Barreto
Secretário executivo e pesquisador do Imazon
Aponta como maior problema o fato de a região Amazônica ter ciclos de crescimento seguidos por colapsos. Acha possível quebrar esse círculo e até crescer com novas técnicas de manejo da floresta, aumento da produtividade e cuidando da regularização fundiária de áreas públicas. Para ele, o principal vetor do desmatamento é a fome e o desemprego, e a região só vai se desenvolver se encontrar saídas para gerar renda sem destruir os recursos naturais.
José Roberto Machado
Professor da Universidade Federal do Amazonas
Lembra que a Amazônia só começou a fazer parte de fato do Brasil em 1823. "Até então não passava de um Estado colonial português". A região, diz, era sempre encarada como depósito de recursos e energia, ou caso de polícia por causa do narcotráfico e da derrubada de florestas. Defende a criação de um ministério ou agências específicas para o desenvolvimento e investimentos, sobretudo, nas áreas de educação, ciência e tecnologia.
OESP, 03/12/2009, Especial, p. H4
As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.