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Falta de ozônio ajuda a manter Antártida fria

OESP, Vida, p. A12
24 de Dez de 2011

Falta de ozônio ajuda a manter Antártida fria
Pesquisadores brasileiros afirmam que centro do continente está isolado termicamente pela falta de ozônio e por ventos no entorno

KARINA NINNI

Enquanto o entorno da Antártida segue a tendência de aquecimento observada em quase todo o planeta, o centro continua frio, conforme imagens de satélite da Nasa desde a década de 1970. E o gelo, em vez de derreter, está se expandindo.
Aparentemente, o choque entre a temperatura fria do centro e as médias quentes do entorno é decisivo para gerar ventos e manter a região central gelada.
É o que pensam pesquisadores brasileiros, em busca de respostas para fenômenos climáticos na Antártida. Eles afirmam que a diminuição da camada de ozônio sobre o continente ajuda a manter a temperatura fria na região central e sustentam que o frio causado pela ausência do gás contribui para aumentar os ventos ao redor da Antártida e isolar termicamente a região.
Método. O grupo coletou um cilindro de gelo de 40 metros de profundidade e por um processo de datação separou anualmente as camadas de gelo, retrocedendo até a década de 1950.
"Há uma tendência negativa na deposição de poeira entre 1967 e 2007. Nossos dados sugerem que ela seja resultado de um crescente isolamento atmosférico da região central do continente antártico pelo aumento da intensidade dos ventos ao redor da Antártida. Esse aumento na intensidade dos ventos reflete, por sua vez, o resfriamento da alta atmosfera no centro antártico causado pela depleção da camada de ozônio na região", explica o biólogo Márcio Cataldo, do grupo de relação atmosfera-gelo da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj). O estudo, ainda não publicado, está sendo submetido a uma revista científica.
"Pesquisas feitas na região periférica da Antártida mostram que lá, a poeira está aumentando. O que corrobora a teoria de que os ventos e ciclones que se formam ao redor do continente impedem a entrada de massas de ar quente no local, justamente aquelas que trazem as partículas de poeira", explica Cataldo.
Frio. O ozônio absorve calor. Por isso, onde há ozônio, as temperaturas são mais quentes. Só que, sobre os polos, a depauperação da camada de ozônio é mais intensa que em outras regiões.
"Nas regiões polares formam-se nuvens muito altas, chamadas de nuvens polares estratosféricas. Elas surgem no inverno, quando há pouca luz, e aglutinam elementos como o CFC, lançado na atmosfera pelo homem, e o bromo, produzido nos mares. Eles destroem o ozônio", resume Cataldo. Quando chega a primavera e o Sol aparece, essas nuvens se dissipam e soltam os elementos de uma vez, fazendo um "estrago" na camada de ozônio.
O fenômeno também ocorre no Ártico. Neste ano, segundo a Nasa, o buraco sobre o Ártico foi o maior já registrado no Hemisfério Norte. Mas, lá, o gelo está derretendo, enquanto na Antártida central ele está se expandindo.
"No Ártico, satélites mostraram que derreteu muito mais gelo do que se imaginou pelos modelos climáticos usados", afirma a professora Ilana Wainer, do Instituto Oceanográfico da USP.

Teoria brasileira pode impactar modelos climáticos

A teoria dos brasileiros pode contribuir para melhorar os modelos usados para explicar o clima do planeta.
"Pelo que se passa no Ártico, percebemos que há uma lacuna entre o que está acontecendo e o que os modelos climáticos mostram. Eles não conseguem representar o que acontece porque o movimento das correntes de ar, a formação das massas d'água e a estratosfera estão pouco representados", acredita Ilana Wainer, professora do Instituto Oceanográfico da USP.
Segundo ela, na Antártida a modelagem é mais complexa. "Os modelos não dão conta de simular o fato de o continente antártico estar aquecendo de um lado e resfriando de outro, pois não consideram a estratosfera e as substâncias que depauperam o ozônio. A nova geração de modelos climáticos vai levar essas informações em consideração e nos ajudar a entender a Antártida."
"O nosso trabalho, se aceito pela comunidade científica, vai contribuir para localizar uma das fontes dessa diferença de temperatura e acabar fornecendo mais ferramentas para os modelos. Nossa teoria aponta para o fato de que a estratosfera está envolvida nas questões climáticas atmosféricas, coisa que os modelos não contam muito", diz Márcio Cataldo, da Uerj. / K.N.

OESP, 24/12/2011, Vida, p. A12

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