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Falta água, sobra desperdício

O Globo, Amanhã, p. 8-15
11 de Mar de 2014

Falta água, sobra desperdício
Dia Mundial da Água faz 21 anos, mas consumo pouco consciente e poluição continuam ameaçando as reservas disponíveis e disputas por mananciais se intensificam

Maria Clara Serra
maria.serra@oglobo.com.br
Renato Grandelle
renato.grandelle@oglobo.com.br

RIO - Um homem acorda e vai ao banheiro. Escova os dentes, faz a barba e toma um banho. Na cozinha, prepara o café da manhã e, depois, lava a louça. Precisa regar as plantas e lavar o carro. Desde que saiu da cama e durante o resto do dia, ele vai gastar água. A situação é a mesma no mundo inteiro, e, a julgar pelo registrado em várias pesquisas, poucas pessoas sabem o quanto usam e desperdiçam deste recurso, cuja preservação será uma das maiores questões deste século. A ONU, então, recorreu ao calendário para conscientizar a população planeta afora e mostrar a importância do debate. Desde 1993, 22 de março é o Dia Mundial da Água.
A cada ano, o evento adota um tema. Entre os já abordados estão a ligação do recurso com as mudanças climáticas, a urbanização e o saneamento básico. Nesta edição, é a vez de discutir a relação da água com o fornecimento de energia.
Segundo um relatório divulgado no ano passado pelo Banco Mundial, a conexão entre água e energia nunca foi tão grande. A água é necessária para todos os processos de geração de energia - das hidrelétricas ao funcionamento de usinas térmicas. Mas, do outro lado, extração, tratamento e transporte da água dependem de energia.
- Mesmo os tomadores de decisão, em sua maioria, não percebem a ligação entre os dois recursos - ressalta Zafar Adeel, diretor do Instituto da Universidade das Nações Unidas para a Água, Meio Ambiente e Saúde.
De acordo com a Agência Internacional de Energia (IEA, na sigla em inglês), o consumo energético aumentará 35% até 2035. Com isso, o gasto de água vai crescer 85%, aumentando a pressão sobre o já disputado recurso. A escassez de água já está inviabilizando diversos projetos. No ano passado, por exemplo, a falta do recurso obrigou a Índia a desligar usinas térmicas e ameaçou a capacidade hidrelétrica de países como China e Brasil.
- Não podemos mudar a distribuição da água, não há tecnologia ou recursos para isso - lamenta Adeel, um dos organizadores da campanha do Dia Mundial da Água. - O que podemos fazer é melhorar o propósito com que a água é usada. Ela é um commodity importante demais para ser desperdiçado.
Vice-presidente do grupo do Banco Mundial para as Mudanças Climáticas, Rachel Kyte acrescenta:
- Entre as operações recomendadas pela IEA estão a substituição de instalações elétricas antigas por usinas mais eficientes e o aumento da eficiência na produção de biocombustíveis. Sem estas medidas, as metas de acesso global à energia e a expansão de fontes renováveis seriam impossíveis.
Diretora de pesquisas da Unesco-HidroEx - fundação brasileira de ensino e pesquisa com sede em Minas Gerais e apoiada pela Unesco -, Tânia Brito projeta um cenário pessimista para o futuro da Terra. Segundo ela, a melhoria das condições de vida nos centros urbanos, conjugado ao crescimento da população do planeta, vai aumentar a demanda por alimentos, exigindo que o setor agrícola invista em novas tecnologias para incrementar sua produtividade. Para isso, mais água será necessária.
Em todo o mundo, a agricultura é responsável por 87% do consumo total de água. Para os ambientalistas, este não é um percentual razoável. É possível reduzi-lo sem prejudicar a economia.
- Já existem técnicas de irrigação, plantio e variedades de sementes que usam menos água - destaca Glauco Kimura, coordenador do Programa Água para a Vida do WWF-Brasil. - Também conhecemos técnicas de reutilização da água para outros fins, como sua aplicação nas máquinas de resfriamento ou, por exemplo, na limpeza de uma granja. São ações que não exigem água limpa.
Mas não é apenas na melhor utilização da água que o setor agrícola está aplicando recursos. A iminente falta de água está fazendo com que as grandes empresas invistam em defensivos agrícolas menos prejudiciais ao meio ambiente.
- A agricultura é uma grande consumidora, mas ela devolve para o ambiente grande parte do que consome, por meio da penetração pelo solo - afirma Ewerton Garcia, sócio da BRWS Sustainable Ideas, empresa de desenvolvimento e implementação de processos de eficiência hídrica e energética. - Como o custo pela perda da produção e deslocamento da água é grande, a empresa está desenvolvendo agrotóxicos que não prejudiquem tanto as suas fontes de água potável. Cuidar bem dos mananciais de água não é mais apenas uma questão ecológica. A falta do recurso de qualidade inviabiliza os custos de produção.
Apesar de consumir apenas 4% da água usada no mundo, a indústria é a maior poluidora do recurso. Segundo Garcia, hoje, após passar 30 anos contaminando rios e lençóis freáticos, nos últimos cinco anos o setor industrial também começou a caminhar rumo à conservação da água. Não é consciência, é necessidade.
- Muitas indústrias hoje estão vendo seus negócios inviabilizados, por terem contaminado tanto os rios - conta Garcia. - Diversas empresas ao redor do mundo já tiveram que se mudar. Somente no Brasil, cerca de sete empresas por mês nos procuram em busca de melhores soluções para uso e aproveitamento da água.
A situação é alarmante. De acordo com estudo da Fundação Getúlio Vargas (FGV), só no estado de São Paulo, 100 litros de efluentes industriais - hormônios, hidrocarbonatos, antibióticos, entre outros - são jogados por segundo em rios da Grande ABC.
Depois da indústria e do campo, a outra preocupação da lista é o hábito de consumo da água ao redor do mundo. Aquele homem que, no início da reportagem, fez a barba, tomou café e limpou o carro se espantaria com a quantidade do líquido que consumiu e, mais ainda, como o que poderia ter economizado. Que o digam os americanos. Um cidadão dos Estados Unidos gasta, em média, de 350 a 400 litros de água por dia. O europeu e o brasileiro, entre 180 e 200 litros.
Para Azeel, faltam campanhas que estimulem as pessoas a pensarem mais no meio ambiente antes de abrir a torneira. Segundo o diretor do instituto da ONU, a população ignora o custo do tratamento da água e as despesas necessárias para o funcionamento das usinas.
- Não fazemos a abordagem correta sobre como deveria ser o consumo da água - admite. - As pessoas não entendem a situação atual deste recurso, sua qualidade e quantidade, sua importância nos alimentos e em outros itens que temos de comprar. Se não informamos, não podemos exigir uma mudança no comportamento da população.

Na África Subsaariana, a situação é totalmente oposta. Cada habitante consome apenas 20 litros diários. A Organização Mundial de Saúde (OMS) considera que o consumo abaixo de 50 litros é prejudicial ao bem-estar e à higiene de uma pessoa - é o que a instituição chama de estresse hídrico.
Na última década até discutimos se a falta de água produziu refugiados climáticos em áreas mais pobres, mas a verdade é que a migração das pessoas é motivada por vários fatores. Não podemos atribuir esta iniciativa a somente um fator - opina Adeel.
Apesar de ser difícil ligar as mudanças climáticas ao movimento humano em busca de melhores condições de vida, uma pesquisa recente do "Food Policy Research Institute" de Washington, apontou, por exemplo, que o estresse gerado pelo aumento das temperaturas impulsionou a migração em áreas rurais do Paquistão nos últimos 20 anos.
O aumento da atividade econômica tem tudo a ver com esta questão. Desde a Revolução Industrial, mais gases-estufa foram jogados na atmosfera, contribuindo para o aquecimento global. Segundo a Organização Meteorológica Mundial, a temperatura média da superfície da Terra aumentou 0,76 graus Celsius entre 1850 e 2005.
Com o aumento da ocorrência de eventos climáticos extremos, longos períodos de estiagem e grande volume de chuvas em curto espaço de tempo afetam ainda mais os sensíveis reservatórios de água ao redor do mundo.
- O grande descaso no passado, atrelado às condições climáticas extremamente instáveis, acentua ainda mais uma questão que já é grave ressalta Garcia. - Na estiagem, a carga de poluentes nos rios fica mais concentrada. As cheias também prejudicam muito, pois transportam a contaminação dos rios poluídos para os que não estavam, através do transbordamento ou do rompimento de barreiras. Então problemas que estavam isolados acabam se espalhando.
Das 7 bilhões de pessoas no mundo, 2,8 bilhões já vivem em áreas com alta pressão sobre a água. Segundo um estudo de Royal Society de 2012, a área sob estresse hídrico pode, nas próximas décadas, abranger praticamente toda a China e os EUA, além de boa parte da Europa.
A Unesco alerta que, na Ásia, as fontes de água do subsolo estão desaparecendo, um resultado de seu uso desregulado nos últimos dois séculos. Mesmo na Europa, onde hoje a distribuição da água é menos conflituosa do que em qualquer outra parte do mundo, o estoque hídrico também corre perigo. Em 60% das cidades do continente com mais de 100 mil habitantes, as águas subterrâneas estão sendo consumidas a uma taxa superior à sua capacidade.
Apesar de a maior parte dos conflitos envolvendo a água hoje se darem em âmbito local, as relações entre países devem começar a estremecer quando o recurso se tornar de fato uma raridade. Estimativas da organização Unwater apontam que, em 2025, dois terços da população mundial estarão vivendo em áreas com acesso limitado à água.

Disputas pela água no mundo

Rio e São Paulo: As duas maiores regiões metropolitanas do país, onde vivem 46 milhões de pessoas, devem disputar as águas do Rio Paraíba do Sul, que abastece 80% do Grande Rio. Para evitar o conflito, o governo paulista estuda explorar outras áreas do estado, como o Vale do Ribeira, na divisa com o Paraná.
Amazônia: Os ecossistemas locais de água doce são vulneráveis ao desmatamento e não há uma administração voltada para os rios, cujas nascentes ficam nos países vizinhos, Bolívia e Peru.
EUA e Canadá: Os dois países assinaram, em 1972, um acordo para transposição de águas na Região dos Grandes Lagos. Ambas as nações comprometeram-se a monitorar a qualidade da água, garantindo que ela permaneça potável para as cidades vizinhas e seja usada no comércio.
Europa: O continente tem acordos para a gestão compartilhada de água dos maiores rios, como o Danúbio e o Reno. A pequena taxa de crescimento populacional reduz ainda mais o risco de escassez.
Norte da África: As nações banhadas pelo Rio Nilo reivindicam cada vez mais seus recursos, aumentando a tensão política na região. O Egito depende de suas águas para manter o setor hidroelétrico. O Sudão construiu quatro usinas para irrigar seu território. A Etiópia, por sua vez, beneficia-se por ser fonte de 86% dos afluentes do rio.
Ásia: Índia, Nepal e Paquistão empenham-se na luta pelas reservas de água do Himalaia, visando o aumento de suas fontes de eletricidade. Ao todo, os países têm planos de construção de mais de 400 usinas hidroelétricas, que forneceriam três vezes mais energia elétrica do que a usada pelo Reino Unido.
Índia: O segundo país mais populoso do mundo (com 1,2 bilhão de habitantes) ocupa a 120ª posição entre as 122 nações avaliadas pela ONU em relação à qualidade da água disponível para o consumo. Cerca de 70% da água estão poluídas com efluentes de esgoto.
Austrália: Os desertos e as regiões semiáridas ocupam 70% do território do país. A populosa e turística Costa Leste depende da Bacia dos rios Murray e Dawling, cada vez mais secos e poluídos, por conta de sua exploração econômica. As mudanças climáticas também contribuem para a acidificação de suas águas.

No Brasil, recurso é jogado pelo ralo
Uma nação que contém 12% de toda a água superficial do planeta não deveria se preocupar com abastecimento dos reservatórios, irrigação do campo e a atividade industrial. Mas todas estas questões afligem o Brasil, proprietário de tamanho recurso natural. E a negligência com que sempre abordou o assunto pode sacrificar a pretensão do país de alçar-se ao posto de potência mundial. Pródigo no desperdício e ignorante na distribuição, o Brasil não sabe como administrar um bem que, em um futuro próximo, será raro e cada vez mais determinante para o destino da economia global.
A quantidade de água disponível na bacia da Amazônia é cinco vezes maior do que na divisão hidrográfica do Paraná, que sustenta o Centro-Sul do país. Um detalhe: na região amazônica do país vive apenas 5% da população brasileira. Na área banhada pelo Paraná estão 47% dos habitantes do país.
O brasileiro ignora a trajetória da água. Não lembra que ela vem da nascente dos rios, passa pelos reservatórios, dali para a caixa d'á- gua e, finalmente, chega à torneira de sua casa condena Glauco Kimura, coordenador do Programa Água para a Vida da WWF-Brasil. - Ninguém pensa como depende de uma fonte localizada a 100 quilômetros da cidade.
Em uma pesquisa encomendada pela WWF ao Ibope em 2012, realizada com 2.002 entrevistados de todos os estados do país, 75% dos brasileiros admitem que o consumo de água em sua residência é médio ou alto. A grande maioria dos participantes do levantamento (84%) sabem que o Brasil terá problemas com o fornecimento de água no futuro.
A água é um ouro que tratamos como latrina - condena Malu Ribeiro, coordenadora da Rede de Águas da SOS Mata Atlântica. - O mundo está de olho neste recurso escasso, mas ainda preservamos a cultura da abundância. O que adianta ter a maior reserva do planeta, se não a tratamos como patrimônio?
Para Malu, o brasileiro não se preocupa com a água porque considera que este não é o seu problema. Na pesquisa do Ibope, 53% dos brasileiros acreditam que o governo não dá a devida importância para este recurso natural.
De fato, os ambientalistas consideram que o tema perdeu importância na agenda do poder público. Cerca de 200 bacias hidrográficas contam com comitês responsáveis por sua administração. É como se fosse um condomínio, gerido por três partes: o governo, empresas privadas e representantes da sociedade civil. No entanto, apenas dez dessas organizações funcionam adequadamente.
As principais regiões metropolitanas do país estão na Mata Atlântica - o bioma mais frágil e degradado do Brasil. O crescimento urbano desordenado é uma apunhalada no meio ambiente. Os mananciais são cobertos, os rios poluídos e o esgoto corre solto. Segundo o Atlas do Saneamento do IBGE, apenas 45,8% dos domicílios brasileiros tinha acesso à rede de esgoto em 2010.
A população está aumentando, há cada vez menos água disponível e, ainda assim, continuamos deteriorando nossos recursos hídricos - denuncia Luiz Antonio Martinelli, professor do Centro de Energia Nuclear na Agricultura do Centro Superior de Agricultura da Universidade de São Paulo (Esalq). - É um problema de saúde pública, já que expõe a população a um leque de doenças. Dom Pedro II já havia percebido isso e falava em tratar esgoto. Até hoje, no entanto, nada acontece. Nunca há investimentos para as obras de saneamento básico.
Para Martinelli, não é possível considerar um país moderno se ele não for capaz de tratar seu esgoto. Mas passam séculos e governante e nenhum parece ter pressa em tocar no assunto. O Atlas de Saneamento, por exemplo, mostrou que, em 2000, apenas 52,2% dos municípios contavam com a coleta de esgoto sanitário. Na década seguinte, este índice cresceu timidamente, à sombra das pretensões brasileiras. Em 2011, 55,1% das cidades viam seus dejetos coletados.
O tratamento dos resíduos é ainda mais raro - está presente em apenas 29% dos municípios. E ainda há o problema do desperdício. Segundo Tania Brito, diretora de pesquisa da Unesco-HidroEx, fundação de educação e pesquisa aplicada, entre 40% e 60% da água tratada no Brasil se perde entre a captação e os domicílios.

O Globo, 11/03/2014, Amanhã, p. 8-15

http://oglobo.globo.com/ciencia/revista-amanha/dia-mundial-da-agua-faz-…

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