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Falta água ou falta vontade?

OESP, Espaço Aberto, p. A2
Autor: NOVAES, Washington
25 de mar de 2005

Falta água ou falta vontade?

Washington Novaes

O Dia Mundial da Água, esta semana, não deu motivo para grandes comemorações no Brasil. Ao contrário, na semana anterior, o próprio presidente da República reiterara que iniciará em breve o megaprojeto de transposição das águas do Rio São Francisco, embora não esteja aprovado pelo Ibama e o comitê de gestão da respectiva bacia hidrográfica a tenha desaconselhado por 44 votos a 2 (e os comitês são os órgãos que, pela legislação, devem decidir, porque congregam democraticamente todos os usuários; no Conselho Nacional de Recursos Hídricos, que derrogou aquela decisão, o governo federal, sozinho, tem maioria de votos).
Uma pesquisa do WWF/Ibope, a propósito da data, mostrou que 88% dos brasileiros acham que o País enfrentará, a médio e longo prazos, problemas de abastecimento, principalmente por causa do desperdício. Na verdade, já está enfrentando, por essa e outras razões - é só ver o que acontece periodicamente em São Paulo e em outros lugares, o que está acontecendo na Região Metropolitana de Porto Alegre. Na Grande São Paulo, diz o Plano da Bacia do Alto Tietê, a disponibilidade própria de água por habitante - 201 metros cúbicos anuais - é menor que em qualquer Estado nordestino e grande parte da água consumida é importada. Pernambuco, onde a situação é mais crítica, dispõe de 1.320 metros cúbicos por habitante/ano (o que sugere ser correta a tese dos vários hidrólogos que dizem ser o problema do semi-árido de gestão, não de escassez de água - e por isso a transposição não é o melhor caminho).
De fato, poucas pessoas têm idéia de quanta água consomem. As que mais fatores levam em conta costumam apontar a média de 200 litros diários por pessoa, sugerida por vários órgãos para o consumo doméstico. Mas esse número considera apenas o líquido consumido no banho, na cozinha, na descarga sanitária e pouco mais. Não computa, por exemplo, a água necessária para produzir alimentos. E 200 gramas diários de carne bovina por pessoa terão exigido 3 mil litros para serem produzidos; 400 gramas de arroz, feijão, legumes terão consumido pelo menos 400 litros; outros usos, fora da residência, significarão mais algumas centenas de litros. Não é exagero situar em 4 mil litros a cota diária por pessoa.
Com tanta necessidade, a Unesco continua a apontar que mais de 1 bilhão de pessoas no mundo continuam sem acesso a água de boa qualidade; quase 2,5 bilhões, sem saneamento básico; 6 mil crianças a cada dia, mais de 2 milhões por ano, morrem de doenças veiculadas pela água. E a situação ainda vai complicar-se mais. Segundo a Organização para a Alimentação e a Agricultura (FAO), da ONU, até 2030 será preciso aumentar em 60% a atual produção de alimentos no mundo para atender às carências atuais e a mais 2 bilhões de pessoas que serão acrescidas à população do mundo. Para isso, o consumo atual de água na agricultura (que já responde por mais de 70% do consumo total) terá de ser acrescido em pelo menos 14%.
Diante de tal quadro, já anda em discussão a proposta de criar um Banco Mundial da Água, que receberia um centavo de dólar por litro consumido nos países ricos e formaria um fundo de US$ 48 bilhões anuais para atender às regiões mais necessitadas (o preço médio da água consumida nesses países é de 1,8 centavo de dólar por litro).
Sejam quais forem os caminhos, no Brasil vamos ter de cuidar muito mais da questão. Não podemos continuar com o desperdício médio de 40% da água tratada, por falta de manutenção das redes distribuidoras (e porque os sistemas de financiamento só dão recursos para obras mais caras, de novas barragens, novas adutoras, novas estações, e não para a conservação, muitas vezes mais barata). O desperdício na irrigação por pivôs centrais também precisa ser contido. O reúso da água exige programas de incentivo. É preciso em todos os lugares criar tarifas mais diferenciadas por faixa de consumo, que estimulem a economia, assim como medidores em todos os apartamentos (e não um só por edifício, que desestimula quem gasta menos), e programas de troca de equipamentos desperdiçadores, como descargas sanitárias.
Na Região Metropolitana de São Paulo, os especialistas em clima que trabalharam no Atlas Ambiental do Município, editado pela Secretaria do Verde e do Meio Ambiente, mostram que a temperatura chega a variar alguns graus entre as regiões que ainda têm a vegetação de mata atlântica e as áreas da cidade mais impermeabilizadas, mais edificadas, com maior atividade industrial, mais trânsito, maior emissão de poluentes, ausência de vegetação. Nestas se formam as "ilhas de calor" que atraem chuvas intensas, concentradas em pouco tempo. O grande volume de água não tem onde infiltrar-se no solo impermeabilizado, corre para fundos de vales, para rios assoreados, que mal suportam seu próprio fluxo, quanto mais o volume adicional de água. E assim se formam as inundações de áreas urbanas. E assim se têm de gastar fortunas com piscinões.
Pela mesma razão, chove muito menos nas regiões menos quentes da cidade, onde estão os reservatórios e as áreas de nascentes - onde as chuvas seriam mais necessárias. A própria distribuição temporal das chuvas em São Paulo está modificada por esses fatores: chove mais de terça a sexta-feira, menos no fim de semana e na segunda.
Não há mistério quanto à origem dos problemas nessa área dos recursos hídricos. Falta vontade de decidir. A lei sobre cobrança pelo uso da água no Estado de São Paulo não está na Assembléia Legislativa desde 1996?

Washington Novaes é jornalista.

OESP, 25/03/2005, Espaço Aberto, p. A2

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