O Globo, O Pais, p.17
15 de Fev de 2004
Falhas de infra-estrutura e descuido com meio ambiente ameaçam Bonito
BONITO(MS). Considerada um dos paraísos ambientais que mais atrai turistas de todo o mundo, a cidade de Bonito, no Mato Grosso do Sul, vive hoje um dilema. Embora a exploração do turismo pelo setor privado seja considerado um modelo vitorioso cerca de 90% de áreas para passeios estão em propriedades particulares e os investimentos maciços fizeram com que fossem preservadas nascentes, grutas e lagos , o município se depara há tempos com falhas decorrentes da falta de infra-estrutura que podem ameaçar a região no futuro.
Durante três dias, O GLOBO percorreu a cidade de ponta a ponta. Encontrou por lá sinais de abuso dos empresários que começam a se instalar na cidade. Além dos problemas comuns à maioria dos municípios brasileiros (como falta de leitos hospitalares, de salas de aulas e de saneamento básico), soma-se, às vésperas da inauguração de um aeroporto internacional, ações pontuais que prejudicam o principal tesouro da cidade: o meio ambiente.
Aterro sanitário a poucos metros do lençol freático
Prefeitura criou passes para controlar visitas à reservaBONITO, MS. Numa visita à região dos córregos que abastecem o principal rio da cidade, o Formoso, constatou-se que a negligência de autoridades aumenta o risco ao ecossistema. No Córrego Bonito, por exemplo, pneus velhos são lançados diuturnamente. Mas não pára por aí. Próximo à região central da cidade, o aterro sanitário municipal foi criado poucos metros acima de um lençol freático. A precariedade nos serviços de coleta de lixo e de limpeza urbana sobrecarregam a capacidade do aterro, também pondo o meio ambiente em risco.
Não adianta o setor privado investir pesado se a prefeitura não entra em campo para fazer sua parte critica o ex-coordenador do Programa Pantanal e membro do Partido Verde de Bonito, Carlos Bertão.
Segundo ele, o município tem arrecadação suficiente para mudar a situação. Só de ICMS, arrecadou em 2002 cerca de R$ 2,4 milhões. Teve ainda R$ 315 mil obtidos pelo ICMS ecológico direcionado pelo governo do estado a municípios que preservam o ecoturismo.
O prefeito Geraldo Marques (PDT) rebate as críticas. Diz que a preocupação com o meio ambiente é prioridade. Como exemplo, lembrou, adotou a criação de vouchers para que os turistas possam visitar uma das áreas nobres da cidade. Sem o papel, ninguém entra em área de reserva ambiental.
Estamos atentos ao número de pessoas que visitam nossas riquezas diz.
Em 2003, 70 mil pessoas estiveram em Bonito. Com a inauguração do aeroporto, prevista para abril deste ano com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, estima-se que o número supere 500 mil pessoas na próxima temporada.
Dentro da mata, fornos clandestinos
Ainda que os donos de propriedades procurem minimizar o impacto da presença de turistas, os crimes ambientais não deixam de ser comuns na cidade. Acompanhado da direção do Ibama na cidade, o GLOBO verificou que donos de carvoarias e olarias estão construindo fornos clandestinos dentro da mata.
Surpreendido pela presença de um desses fornos em uma área de reserva ambiental, o diretor do Ibama e coordenador do Parque Nacional da Serra da Bodoquena, Adílio Miranda, disse que é preciso reforçar a fiscalização.
O número de funcionários é pequeno, mas estamos levando adiante projetos que preservam o patrimônio ambiental de Bonito disse.
O programa Formoso Vivo, parceria de poder público, Ministério Público e setor privado, fiscaliza a atuação dos 75 principais donos de propriedades na preservação do meio ambiente. Os donos de fazenda são obrigados ter licença ambiental e a manter 50 metros de mata ciliar nas margens de rio.
O Globo, 15/02/2004, p.17
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