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Falha na barragem começou em 2009

Valor Econômico, Empresas, p. B2
30 de Ago de 2016

Falha na barragem começou em 2009

Marcos de Moura e Souza, Thais Carrança e Paula Selmi

Quase um ano depois do rompimento da barragem da Samarco, na cidade de Mariana (MG), especialistas identificaram várias falhas na estrutura ocorridas desde 2009 como causas da tragédia. Sem operar desde o acidente, a empresa ainda inspira medo entre moradores que vivem próximos a suas outras barragens (veja a reportagem As chuvas e o medo de nova tragédia ).
Contratado por Vale e BHP Billiton, sócios proprietários da Samarco, o escritório de advocacia de atuação internacional Cleary Gottlieb Steen & Hamilton reuniu quatro especialistas independentes em geotecnia para fazer a investigação das causas. A Cleary divulgou ontem os resultados.
O estudo aponta um primeiro incidente em 2009, um ano depois de barragem de Fundão ter começado a operar. O problema foi na drenagem, logo depois da conclusão de um dos diques, o Dique de Partida. Um sistema de drenagem de alta capacidade na base desse dique permitiria que a água fosse drenada, o que reduziria a saturação (o excesso de água) nas paredes da barragem de Fundão.
"Devido a defeitos de construção no dreno de fundo, a barragem foi tão danificada que o conceito original não poderia ser mais implementado", escreveram os especialistas no resumo executivo de sua investigação.
O documento relata uma revisão do projeto em 2010, por meio da instalação de um "tapete drenate". Foi uma "mudança fundamental no conceito do projeto", segundo o estudo. E essa mudança passou a permitir uma saturação maior na estrutura. Para os investigadores, o aumento na extensão da saturação "introduziu o potencial de liquefação da areia". Em outras palavras: o potencial de transformar em fluído parte da estrutura da barragem que era feita de um compacto de areia.
Liderados por Norbert Morgenstern, acadêmico que fez carreira no Canadá com experiência em projetos de barragem, os especialistas também apontaram outro problema entre 2011 e 2012. Foi quando obras acabaram deixando que a lama que estava contida em Fundão chegasse em "áreas onde não foram originalmente previstas sua disposição". A Barragem de Fundão havia sido planejada de forma que a lama não se aproximasse muito do topo. A aproximação poderia comprometer sua drenagem.
No fim de 2012, mais um problema. Uma galeria de concreto sob a lateral esquerda da barragem, "foi considerada estruturalmente deficiente e incapaz de suportar a carga". A barragem não poderia ser alteada - ou seja, suas paredes não poderiam ser elevadas de modo a conter mais rejeito de minério de ferro - sobre essa parte de Fundão até que essa galeria fosse preenchida com concreto e inutilizada. A Samarco mudou o desenho do barramento de Fundão desse lado esquerdo. Mas isso se revelou um problema. "Isso colocou o maciço diretamente em cima de lamas depositadas anteriormente."
Ontem, em entrevista por meio de videoconferência, Morgenstern disse que alguns indícios de problemas não poderiam ser detectados a olho nu, mas por equipamentos específicos. Esses equipamentos, no entanto, não seriam de uso corriqueiro em barragens.
Os especialistas escreveram que enquanto a Samarco continuava a realizar trabalhos de alteamento da barragem, começou a brotar água em vários pontos da lateral esquerda. Isso em 2013. Em agosto de 2014, o tapete de drenagem já havia alcançado sua capacidade máxima de funcionamento.
O peso crescente colocado na estrutura da barragem por causa de seu alteamento acabou deformando a estrutura das paredes, levando a areia presente na própria estrutura a se liquifazer. Morgenstern usou uma metáfora: a de um tubo de pasta de dente sendo espremido.
Três pequenos abalos sísmicos ocorridos pouco antes do rompimento, em 5 de novembro, "provavelmente aceleraram o processo de rompimento, que já estava bastante avançado", disseram os especialistas. O estudo não apontou culpados, nem o que poderia ter sido feito para evitar a tragédia que deixou 19 mortos e um rastro ainda incalculado de danos ambientais.

As chuvas e o medo de nova tragédia

Marcos de Moura e Souza

Os dias ainda são de sol, céu azul e tempo seco. Mas o assunto para quem mora na pequena Barra Longa (MG) é a chuva. A cidade é uma das que foram parcialmente destruídas pela avalanche de lama e rejeito de minério de ferro ocorrida no fim do ano passado quando a barragem de Fundão, da Samarco, se rompeu. Agora, com a aproximação do período chuvoso, moradores falam do medo de uma segunda tragédia.
Barra Longa tem cerca de 6 mil habitantes e fica abaixo da área de mineração da Samarco, em Mariana. A distância entre as duas cidades é de aproximadamente 6o km. O material que desceu da barragem chegou à cidade pelos Rios Gualaxo do Norte e Carmo e invadiu e destruiu uma praça, um parque de exposições de animais, ruas e casas. Ninguém morreu. O onda seguiu até Rio Doce e chegou ao litoral do Espírito Santo.
"Com essa chuva que vem agora, a gente fica com medo de outra barragem da Samarco cair, de outra lama daquela chegar aqui", diz a dona de casa Rosana de Paula da Silva, de 57 anos. Sua casa não foi atingida, mas seu filho que vive numa casa no mesmo terreno, perdeu tudo.
Ela conta que um funcionário da Samarco já orientou moradores em como proceder caso o pior ocorra. "Falou para a gente deixar um documento na bolsa e se ouvir alguma coisa, para a gente ir para um lugar alto." A Samarco instalou sirenes na cidade depois da tragédia de 5 de novembro.
"Quando começar a chover, estaremos aqui debaixo de uma bomba relógio porque tem outras barragens lá na Samarco", diz Altair da Silva, vereador pelo PTB. "Eles falam que está seguro. Mas já houve uma tragédia, né? O medo agora é a chuva."
As chuvas devem começar de forma mais intensa a partir da segunda quinzena de outubro e se intensificar até dezembro.
A expectativa em Barra Longa é sentida também em Gesteira, distrito da cidade que também foi atingido; em Paracatu, em Mariana, cujo distrito de Bento Rodrigues desapareceu, e outras localidades. Mariana mesmo ficou longe da rota da lama.
O Ibama e o Ministério Público têm manifestado preocupação com os riscos de as chuvas revolverem o material que ainda está no que restou da barragem de Fundão e provocarem novos carreamentos. Falam também no risco de desmoronamento da massa de lama e rejeito que em alguns pontos foram depositados às margens de rios. Em Barra Longa há um desses depósitos. As autoridades têm ainda outra preocupação: o risco de as chuvas levarem mais lama e rejeito para a barragem da hidrelétrica de Candonga, relativamente próximo a Barra Longa, e simplesmente derrubarem as paredes da usina.
Em Barra Longa - quase dez meses depois da tragédia - a Samarco ainda mantém equipes de trabalho e um movimentação de máquinas e caminhões para reparar os danos. Algumas famílias foram colocadas em casas alugadas. "Não tem como ficar tranqüilo. Vamos viver o resto da vida preocupados enquanto as outras barragens estiverem lá", diz Márcia Mary, de 41 anos, que vive com a família numa casa alugada pela Samarco enquanto a sua é reconstruída.
A Samarco afirmou, por meio de sua assessoria, que suas duas barragens, de Germano e Santarém, assim como o dique S3 "possuem, atualmente, índices de segurança acima do que preconiza a legislação brasileira". E que essas estruturas "encontram-se estáveis" e são monitoradas diariamente. A empresa também disse que já retirou 155 mil metros cúbicos de sedimentos em Barra Longa.
A Samarco admite que não vai conseguir concluir, antes do período das chuvas, todas as medidas de recuperação de segurança. Ficam para depois, por exemplo, a reconformação das calhas dos rios e controle da erosão, a dragagem de Candonga e a construção dos diques no rio Gualaxo. A empresa diz que mesmo assim, vai conseguir diminuir o carreamento de rejeitos da área de suas barragens.
Para muitos moradores de Barra Longa e de outras áreas atingidas, a preocupação é se as garantias da Samarco passarão mesmo pelo teste que começa em outubro.

Valor Econômico, 30/08/2016, Empresas, p. B2

http://www.valor.com.br/empresas/4691877/falha-na-barragem-comecou-em-2…

http://www.valor.com.br/empresas/4691879/chuvas-e-o-medo-de-nova-traged…

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