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A face feminina da Amazônia

O Globo, Prosa e Verso, p. 6
16 de Out de 2004

A face feminina da Amazônia

Pedro Martinelli declara seu amor pela região retratando as mulheres da terra
'As mulheres paulistas deveriam aprender com as amazônicas, como ser mulher realmente corajosa, moderna e sensual". Essa é a primeira provocação que o fotógrafo Pedro Martinelli lança ao ouvinte ao falar sobre seu novo livro, "Mulheres da Amazônia" (Editora Jaraqui), lançado durante a 8ª Feira Pan-Amazônica do Livro em Belém, que aconteceu há poucos dias. É só passar os olhos na obra para perceber que, mais do que provocação, há uma declaração de amor a um povo e a uma região.
De fato, Martinelli é um apaixonado pela Amazônia. Há mais de 30 anos ele vem registrando as modificações sofridas pela região, que ele afirma estar se tornando um "imenso Parque do Ibirapuera".
Necessidade de recuperar os valores tradicionais
O fotógrafo queria contar um pouco da vida das verdadeiras "amazonas guerreiras". Mulheres, como ele não cansa de repetir, que ainda têm um projeto de vida e que desempenham um papel fundamental na manutenção do equilíbrio ambiental, no sentido mais amplo da expressão, na região amazônica.
- Este livro, como todos os meus outros, é uma peça para viabilizar um discurso, um pretexto para que eu possa falar da Amazônia - diz ele.
No fundo, Martinelli volta ao tema de uma vida inteira: a necessidade de recuperar e valorizar os saberes tradicionais, de manter a riqueza da mata e de atentar para a importância fundamental do caboclo nesse contexto. Seu compromisso, segundo ele, é com os personagens retratados. O fotógrafo chega a concordar que talvez seja mesmo mais um contador de histórias do que fotógrafo:
- É o meu meio, a minha linguagem. Mas o seu papel é o de passar um discurso pela preservação, pela atenção que se deve dar a essa região que ainda sofre com o menosprezo. O meu papel é valorizar esses personagens que a sociedade encostou num canto. A gente tem que prestar atenção na base, no caboclo. Nós temos é justamente que fazer com que as pessoas que estão fechadas em gabinetes em Brasília prestem atenção nisso. A foto pela foto não tem mais sentido para mim. Essa é uma forma de dizer as coisas em que acredito.
Um misto de editor, fotógrafo e vendedor
Buscando sempre manter uma linha independente, Martinelli não capta recursos antecipadamente para que os interesses de um patrocinador não interfiram no seu trabalho. E também porque ele nunca sabe qual será o foco de seu próximo projeto ou livro.
- Começo com algumas pautas, fotografo bastante e depois preciso de tempo para ver essas imagens e poder sentir o que vou fazer - conta, confessando-se "anárquico".
O resultado é que Martinelli teve que virar um misto de editor, fotógrafo e vendedor da própria obra. Com isso, não é incomum vê-lo descarregando caixotes nas feiras literárias.
- Muita gente me confunde com o motorista ou com o carregador, sem saber que sou o autor do livro - diverte-se ele.

Globo, 16/10/2004, Prosa e Verso, p. 6

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