O Globo, Economia Verde, p. 24
Autor: VIEIRA, Agostinho
13 de Jun de 2013
Faça a coisa certa
Agostinho Vieira
oglobo.globo.com/blogs/economiaverde
Há dias ando intrigado com esta frase dita pela presidente Dilma Rousseff sobre a política energética brasileira: "Nós temos que enfrentar o fato de que se nós continuarmos a fazer hidrelétricas a fio d'água haverá uma tendência inexorável de aumento das térmicas na nossa matriz". E completou: "Uma térmica é muito mais poluente do que uma hidrelétrica com reservatório".
O que será que ela quis dizer com isso? Será que esse "nós", usado duas vezes na mesma frase, é um "nós" majestático? Ela estaria apenas pensando alto? Existe a possibilidade também de que esse "nós" se refira a todos os brasileiros e funcione como um chamamento à reflexão. Mas será realmente possível juntar numa mesma sentença as palavras Dilma, reflexão e chamamento? Cheguei a pensar também na hipótese absurda de que esse já seja um primeiro discurso de oposição. A Dilma Rousseff, cidadã que sempre trabalhou com o setor de energia, é a favor da construção de usinas hidrelétricas com reservatórios. Já a Dilma Rousseff presidente e ex-ministra da Casa Civil aprovou a construção das usinas a fio d'água e, consequentemente, a volta das poluentes térmicas a carvão e a gás
Enquanto essa crise de identidade não se resolve, a nossa matriz energética vai ficando cada vez mais suja. O inventário de emissões de gases de efeito estufa, referente ao ano de 2010, divulgado no início do mês, mostra que o setor de energia já é o segundo no Brasil que mais contribui para o aquecimento global. São 400 milhões de toneladas de CO2 equivalente, 32% do total, perdendo apenas para a agropecuária, que tem 35%. O desmatamento agora aparece em terceiro, com 22%.
É verdade que grande parte dessas emissões do setor de energia é proveniente da queima de combustíveis fósseis nos caminhões, carros e ônibus que circulam pelo país. Mas esse também é um problema da Dilma presidente, que resolveu incentivar a produção de automóveis, reduzindo o IPI, e que não investe como deveria no transporte de massa nas grandes cidades. O fato é que as emissões do setor cresceram 41% entre 1995 e 2005 e outros 21% entre 2005 e 2010.
Nos últimos dez anos, só foram licitadas usinas a fio d'água no Brasil. Elas ocupam áreas menores, reduzem o impacto ambiental mas geram menos energia. Dependendo da vazão do rio, em determinadas épocas do ano, podem gerar muito pouco. E aqui surge outro problema. Quando foram lançadas, como uma criativa solução de engenharia, todos sabiam que o volume de energia seria menor. Menor, porém suficiente para as necessidades do país. Tanto que, há anos não são mais licitadas usinas térmicas, o que voltará a acontecer no segundo semestre.
Agora, setores do mercado, do governo e a própria presidente parece que se deram conta de que estavam errados. As térmicas a carvão, gás ou óleo garantem a chamada energia firme. O risco de que venha a faltar luz é mínimo. Por outro lado, elas são mais caras e muito mais poluentes. Só este ano, estima-se que o país vai gastar alguma coisa entre R$ 10 bilhões e R$ 12 bilhões com essas fontes de energia. O que, mais cedo ou mais tarde, será repassado para o consumidor. E essa conta, nem de longe, considera os custos ambientais da decisão.
O tema é delicado e não pode ser tratado com frases soltas em discursos políticos. Qualquer escolha que se faça hoje afetará a vida do Brasil e dos brasileiros pelos próximos 50 anos, no mínimo. Até agora, o país usou apenas 30% do seu potencial hidrelétrico. Quase todo o resto está na Amazônia, onde se encontram muitas das maiores riquezas naturais do planeta. Alguns setores acham que esse paraíso deveria permanecer intocado, outros defendem a exploração a qualquer custo.
Como sempre, a solução deve estar no meio do caminho. Não precisa ser um Fla x Flu. Falta uma discussão racional e estratégica sobre o tema. Em algumas áreas deve ser possível e necessário voltar com os grandes reservatórios, em outras não. Já está mais do que provado que eólicas e hidrelétricas são energias complementares e isso precisa ser aproveitado. Não será um debate fácil, mas ele precisa acontecer.
No mesmo dia em que falou sobre hidrelétricas e reservatórios, a presidente Dilma garantiu: "Estamos mostrando que é possível fazer o que muitos pensavam que era impossível. Nós mostramos que é possível crescer e preservar, que é possível crescer e distribuir renda". O fato de fazer parte do discurso já é um ótimo sinal. É o caminho certo a seguir. Agora só falta transformar as palavras em verdades.
R$ 12 bilhões É quanto deve ser gasto este ano no país com energia térmica a carvão, gás ou óleo. Os leilões para essas fontes mais caras e muito mais poluentes não eram realizados há alguns anos e voltarão a acontecer no segundo semestre.
O Globo, 13/06/2013, Economia Verde, p. 24
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