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Extracao irregular de areia aterra nascentes

CB, Cidades, p.30
18 de Nov de 2004

Extração irregular de areia aterra nascentes
Apesar de o Ibama ter embargado o areal desde 2001, a atividade ilegal continua em área próxima ao Córrego Lajinha, em Águas Lindas
Darse Júnior
Da equipe do Correio
A área é do tamanho de três campos de futebol. As crateras abertas pelos tratores e caminhões que retiram areia da região ultrapassam cinco metros de profundidade. A atividade irregular mata nascentes e prejudica o abastecimento de água. Embargado pelo Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) há três anos, um areal em Águas Lindas (GO) continua em funcionamento. Fica às margens do Córrego Lajinha, dentro da Bacia do Descoberto, responsável por mais de 60% da água que abastece o Distrito Federal.
As marcas no chão não deixam dúvidas: a determinação dos órgãos ambientais não tem sido cumprida. Além das maquinas que atuam na região, os carroceiros contribuem para a degradação. Retiram a areia clandestinamente para comercializar na cidade. No momento em que a equipe do Correio chegou ao areal, um deles estava próximo às crateras. Afirmou que se encontrava ali para amansar o cavalo, desconversou e rapidamente foi embora.
A extração desenfreada de minério já causou as primeiras conseqüências. De acordo com o agricultor Sebastião Bezerra de Souza, 29 anos, que mora com a mulher e três filhos na região há 13 anos, o nível da água diminuiu consideravelmente. Em alguns lugares o córrego tinha quatro metros de profundidade, hoje não dá nem para molhar o pé, conta.
O agricultor furou um poço artesiano de 0,5 metro há oito anos no seu terreno. A profundidade era suficiente para retirar água. Hoje, o poço tem 12 metros e, de acordo com Sebastião, está praticamente seco. Dava para pegar água com um balde. Eu conseguia encher a caixa dágua em poucas horas, hoje demora três dias. O assoreamento do Córrego Lajinha prejudica a Bacia do Descoberto. A areia levada pela correnteza é depositada no fundo do reservatório e, a longo prazo, a capacidade do tanque fica reduzida.
O ex-vereador e ex-candidato a prefeito de Águas Lindas (GO) Wilmar Peixoto (PMDB) criou o areal em 1998 e, desde então, passou a explorar o serviço. Eram até 15 caminhões de areia por dia quando o negócio estava em pleno funcionamento. Em 2001 veio o embargo do Ibama. Tudo não passou de uma perseguição política. A extração irregular de areia em Águas Lindas acontece em diversos pontos, mas foram embargar o meu empreendimento que estava corretamente licenciado, acusa Wilmar. Ele garante ter cumprido a determinação do órgão ambiental e que até brigou com carroceiros que tentavam desobedecer a ordem.
Trabalho precário
Os fiscais da Secretaria de Meio Ambiente de Águas Lindas, no entanto, afirmam que a degradação continua. É complicado inibir a ação. Eles aproveitam os horários em que não atuamos e voltam para a área, afirma Eldis Garcia de Melo, fiscal responsável pela região do areal. O técnico conta que os tratores e os carroceiros chegam logo cedo, por volta das 6h, e voltam a agir à noite, depois das 18h. A Secretaria de Meio Ambiente tem apenas cinco fiscais e um carro para fiscalizar toda a cidade.
Além dos problemas ambientais, a região do areal sofre com o problema da titularidade da terra. Apesar de Wilmar Peixoto ter a escritura de 30 hectares, a gleba foi parcelada irregularmente e a questão está na Justiça. Aproximadamente 20 famílias vivem em condições precárias no terreno. Entre os ocupantes está Davi Aparecido Pereira, 30. Há dois anos ele vendeu um sobrado no Recanto das Emas e pagou R$ 50 mil pelas duas chácaras onde mora hoje com a família. Não sei como ficará minha situação se eu for despejado daqui.

Prejuízo ao abastecimento de água
O prejuízo da degradação ambiental em Águas Lindas vai muito além dos limites do município goiano. A areia retirada de maneira irregular cai nos afluentes que abastecem a Bacia do Descoberto, responsável por mais de 60% do abastecimento de águas do Distrito Federal. Com o tempo, a sujeira trazida pelas águas e depositada no fundo do reservatório diminui a capacidade do reservatório.
De acordo com José Elói Campos, professor do Instituto de Geociências da Universidade de Brasília (UnB), o maior problema da extração de minerais em Águas Lindas é a falta de estudo de impacto ambiental. As pessoas escolhem as áreas aleatoriamente e não levam em consideração o ecossistema, nem apresentam um Plano de Recuperação da Área Degradada, lamenta.
Melchior
Uma das medidas tomadas pelo governo para evitar que a capital federal venha a ficar sem água nos próximos anos é a construção da Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) Melchior. O projeto deve ser finalizado no início do próximo ano. Atualmente, a estação recebe o esgoto de 300 mil pessoas.
Com a conclusão, a população de Taguatinga e Samambaia também será beneficiada. A meta é tratar o esgoto de um milhão de habitantes e de todos os moradores do DF. A obra custou R$ 63 milhões e a inauguração evitará que cinco milhões de metros cúbicos de dejetos sejam despejados no Lago Paranoá.

CB, 18/11/2004, p. 30

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