CB, Brasil, p. 10
17 de Nov de 2007
Exóticas e perigosas
Belas e aparentemente inofensivas, plantas de outros países causam graves danos a alguns ecossistemas brasileiros. Programa do Ibama, em parceria com o Pnud, começa a revelar a gravidade do problema
Renata Mariz
Da equipe do Correio
Por trás de plantas exóticas, que enfeitam campos e jardins Brasil afora, existe um perigo. Pouca gente sabe, mas muitas espécies trazidas de outros países se proliferam no meio ambiente e causam danos ao ecossistema. Elas são chamadas de plantas invasoras pelo pesquisadores. O problema é tão grave, embora impopular, que uma equipe do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), em parceria com o Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas (Pnud), começou a fazer um mapeamento inédito. Numa primeira etapa, foram identificadas cerca de 170 plantas invasoras na Serra Gaúcha.
"Decidimos começar por essa região devido ao fluxo migratório muito grande. Temos, na Serra Gaúcha, colônias de italianos, alemães. E isso favorece a proliferação das plantas exóticas", explica Ana Carla Santos, especialista em meio ambiente e consultora do Pnud no projeto. Nos 8 mil quilômetros quadrados visitados pela equipe, em que predominam campos naturais, Mata Atlântica e banhados (brejos), os pesquisadores destacam como espécies invasoras mais freqüentes o tojo, o lírio-do-brejo, o pinus, a maria-sem-vergonha e a uva-do-Japão. E pior: cerca de 80% da região percorrida pertence a áreas de preservação permanente, que abrigam muitas espécies nativas raras e ameaçadas.
O potencial destrutivo das plantas invasoras é enorme. Muitas liberam substâncias tóxicas no solo, ressecam o terreno devido à absorção intensa de água, fazem sombra e impedem o desenvolvimento das espécies nativas. Os animais também sofrem com as invasoras, porque algumas são venenosas. O cultivo de tais espécies é crime, previsto na Lei de Crimes Ambientais e no Sistema Nacional de Unidades de Conservação. Mas a fiscalização é quase inexistente.
"Há pessoas que trazem uma muda de planta mas nem sabem que ela pode sair do controle e acabar desalojando as espécies nativas", destaca o botânico Rogério Gribel, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). Ele explica que as plantas que se tornam invasoras, às vezes trazidas de uma região do país para outra, são muito utilizadas em reflorestamento. "Têm metabolismo superior, capacidade de se proliferar e quase sempre não têm predadores naturais no ambiente, o que as colocam em vantagem em relação às nativas."
Jean Kleber Abreu, da Faculdade de Agronomia da Universidade de Brasília, aponta os eucaliptos como um exemplo próximo da realidade de Brasília. "É uma árvore interessante para reflorestamento. Cresce rápido, dá madeira logo. Mas diminui muito a fauna do cerrado, já que são poucos os animais que têm afinidade com a espécie", explica Abreu.
A partir da colonização
A maioria das plantas invasoras no país, segundo o professor Jean Kleber Abreu, da Faculdade de Agronomia da Universidade de Brasília, veio da América e África, ainda na época da colonização. Uma que atormenta um dos cartões-postais do país, o Morro do Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro, é o capim-colonião. De origem africana, foi levado ao Sudeste do país para ser utilizado como pastagem. Mas saiu do controle.
"É um tipo de capim que pega fogo facilmente e, na beira da floresta, acaba alastrando os incêndios", explica Rogério Gribel, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). A prefeitura do Rio de Janeiro tem um programa de combate a essa planta há mais de uma década. Os resultados têm sido animadores. Boa parte do capim-colonião da cidade já foi destruído.
Áreas extensas de serra entre São Paulo e Rio Grande do Sul têm sido vítimas da palminha-vermelha, da mesma família da palma-de-santa-rita. Essa planta nunca existiu na natureza. É um híbrido artificial entre duas espécies sul-africanas, obtido em 1880 na França.
Outra ameaça ao ecossistema natural é o chá-da-índia, planta que fornece o chá verde. Ela se tornou invasora de matas na Serra da Mantiqueira, no estado de São Paulo, por ter sido plantada nas encostas frias, no século 19, para produção da bebida.
Avanço descontrolado
Pinus
Origem: Estados Unidos
Impacto: Invadiu os campos nativos e áreas úmidas da Serra Gaúcha, eliminando plantas nativas raras
Lírio-do-brejo
Origem: Ásia
Impacto: Áreas úmidas no Rio Grande do Sul foram invadidas pelo lírio-do-brejo, que elimina quase completamente as plantas nativas desses ecossistemas tão ameaçados
Maria-sem-vergonha
Origem: África
Impacto:A beleza da Maria-sem-vergonha propiciou sua introdução em muitos locais, tornando-se invasora muito séria em bordas e clareiras de matas
Tojo
Origem: Europa
Impacto: O arbusto muito espinhoso está invadindo rapidamente os campos da Serra Gaúcha, ameaçando as plantas nativas
Trevo branco
Origem: Europa
Impacto: A planta rasteira invadiu enormes extensões dos campos nativos na Serra Gaúcha
Copo de leite
Origem: África
Impacto:Já invadiu muitas áreas úmidas no Sudeste do Brasil. Agora ameaça o Rio Grande do Sul
Cinamomo
Origem: Ásia
Impacto:A planta produz frutos, consumidos por aves nativas, que levam as sementes para as bordas e clareiras das matas, iniciando invasões
CB, 17/11/2007, Brasil, p. 10
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