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'Existe um ímpeto no governo Temer para desmontar redes de proteção social no país'

Sputnik- https://br.sputniknews.com
04 de dez de 2016

Em meados do ano em curso, o artista multimídia Jorge Luiz Campos viu o seu projeto "Até à Próxima Primavera" ameaçado por causa da instabilidade política. Agora, com o fim do ano se aproximando, ele conseguiu terminar o projeto, que trata sobre a vida da etnia indígena Yuhupdeh.

Os Yuhudpeh vivem na Amazônia, perto da fronteira com a Colômbia, em uma região que fica bastante longe da civilização, quer a brasileira, quer a colombiana. O interesse de Jorge Luiz Campos é principalmente socioantropológico; em entrevista à Sputnik Brasil, ele fala em diversos assuntos, explicando também o aspecto político.

Confira a íntegra da entrevista:

Sputnik: Como você estima, agora, as perspectivas do projeto?

Jorge Luiz Campos: Eu revisei todo o projeto cuidadosamente, reajustei as cotas de apoio e estou articulando melhor a campanha com eventos de apoio e divulgação mais consistente. Espero que funcione porque crowdfunding é sempre o último recurso, diferente do que muita gente acredita, não é fácil levantar fundos na internet. Ao mesmo tempo, ver os amigos manifestando apoio é também muito gratificante e nos enche de forças.

S: Qual é o significado do título do projeto?

JLC: Primavera tem sempre uma atmosfera de esperança, algo que virá a florescer. Eu deixei a reserva indígena no fim da primavera de 2015, exatamente no equinócio. Eu sou um sujeito bastante cético e racional, mas às vezes na vida experimentamos sensações muito fortes. Eu experimentei na pele uma conexão muito diferente com a floresta, é difícil colocar em palavras, tudo é forte e frágil simultaneamente e, depois da experiência, ficou mais fácil entender uma dimensão mágica e mística do mundo, uma dimensão do que é divino. Até à Próxima Primavera expressa o meu desejo de preservar essa dimensão do sagrado na natureza.

S: A Funai, que ficou com liberdade de ação restrita após a chegada ao poder do governo interino, tem permanecido sem cabeça vários anos, com problemas internos sem resolver. O processo teve movimento ou não?

JLC: O governo interino mudou a direção da FUNAI e a comunidade indigenista ficou insatisfeita com a pessoa indicada. Não diria que ficou com liberdade restrita de ação, mas a FUNAI está sucateada, sem orçamento, sem funcionários. Já estava no governo Dilma [Rousseff, ex-presidente do Brasil, deposta do seu cargo após o processo de impeachment] e com o governo [do novo presidente Michel] Temer, não vejo possibilidade de melhorar, pois se for necessário reduzir direitos das minorias para favorecer o empresariado e os ruralistas, o governo Temer fará sem hesitar. Está fazendo.

S: O que exatamente mudou com o governo de Temer?

JLC: Muito além da política econômica e das novas articulações da política externa, existe também um ímpeto no governo Temer para desmontar as redes de proteção social no país, estamos a todo tempo observando retrocessos como a revisão da previdência, cortes e mudanças de políticas públicas para cultura, educação e saúde. Sem falar na PEC 241 que visa impor limites nos investimentos do governo por 20 anos.

S: Você chamou a virada do poder de golpe. Como você explicaria o golpe para os brasileiros?

JLC: Não há crime de responsabilidade nas pedaladas e isso ficou claro com o julgamento da Dilma no STF, pois ela nem perdeu direitos políticos, por outro lado, os articuladores do golpe são o tempo todo pegos com provas concretas em grandes esquemas de corrupção. O Cunha só foi realmente punido porque já estava desgastado politicamente, foi usado e descartado pelos articuladores do golpe, o que fica muito claro quando escutamos a conversa entre Jucá e Machado, discutindo a articulação para "estancar a sangria" mudando o governo.

S: Havia várias vozes sobre a situação do ministério da cultura, primeiro extinto e depois renovado. Inclusive na área da cultura há pró e contra. Segundo você, do que precisa realmente a gestão cultural no Brasil?

JLC: Eu não gostava da última gestão do MinC da Dilma, era praticamente composta por ex-companheiros meus, muita gente do Fora do Eixo, rede articulada pelo Pablo Capilé. Eles deixaram de ser companheiros justamente por divergências políticas e aproximação com o PT em 2013. Mesmo não gostando do modelo de gestão anterior, o de agora também não é bom. Com a orientação do novo governo, eu não tenho dúvidas de que a nova política cultural irá favorecer o entretenimento brando e desarticular projetos mais interessantes como os pontos de cultura. Acredito que veremos uma política cultural impositiva, com conceitos obsoletos do que é a cultura em si.

S: A PEC do teto dos gastos, aprovada agora no Congresso, afeta projetos como o seu?

JLC: Não afeta diretamente os meus projetos porque só eu não recebo recursos oriundos de fundos governamentais. Minha maior preocupação em relação com a PEC do teto é em relação à saúde e educação.

S: Segundo você, o que deve ser feito para os povos indígenas do Brasil?

JLC: Eles estão sendo literalmente atropelados pela nossa cultura e esse processo é muito longo e penoso, eles sofrem muitos tipos de violência e humilhações. Não é um processo novo, já vimos acontecer em todo o continente. Acredito que a única maneira de suavizar esse processo de integração social é com políticas sociais de apoio mais efetivas, afetivas, inclusivas e políticas culturais que valorizem a cultura indígena. É algo que só o governo pode fazer.

S: Sobre a situação dos povos indígenas - qual é a noção que você tem do estado ideal das coisas? É atingível?

JLC: O ideal seria que todas as etnias fossem integradas socialmente sem violências sociais, culturais ou físicas; em uma sociedade onde fossem respeitados e tivessem as mesmas oportunidades que todos. Não é impossível de atingir, na verdade até parece fácil ou óbvio, mas depende muito mais de esforços contínuos da nossa parte.

S: Como encontrar o equilíbrio entre cultura indígena e inclusão social? Se indígena é cidadão brasileiro, tem de pagar imposto etc, ou deve ter situação fiscal especial, para conservar uma cultura completamente diferente? Neste caso, há só um Brasil ou vários?

JLC: Acho que devemos dar a eles o direito de escolher o que querem preservar ou mudar nas suas próprias vidas. É violência impor qualquer decisão sobre a cultura, religião ou escolhas econômicas.

S: E como deve proceder o progresso técnico e científico em lugares onde vivem povos indígenas?

JLC: É uma pergunta muito difícil, mas creio que vai por esse caminho de dar a eles o poder de fazer suas próprias escolhas, sem imposições da nossa parte. Não me parece justo, também, querer que eles vivam como viviam 5 mil anos atrás, nem pensar que deixam de ser índios quando se integram a nossa sociedade. Tudo no mundo muda, eles também têm o direito de mudar e se desenvolver tecnologicamente, cientificamente, absorver o que quiserem da nossa cultura e compor nossa sociedade em pé de igualdade.

https://br.sputniknews.com/cultura/201612047054272-existe-um-impeto-no-…

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