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Exercito manda mais tropas para garantir ordem na Terra do Meio

OESP, Nacional, p.A4
25 de fev de 2005

Exército manda mais tropas para garantir ordem na Terra do Meio
Reforço de 300 soldados, mais 45 agentes da Polícia Federal, é para impedir ação de madeireiros, principalmente em Novo Progresso
Preocupados com a forte tensão em toda a área norte da Terra do Meio, no interior do Pará, as Forças Armadas, a Polícia Federal e a Agência Brasileira de Informações anunciaram ontem o envio de reforços para a região - especialmente para Novo Progresso, cidade por eles definida como "uma bomba-relógio social, prestes a explodir". O Exército já concentrou na cidade mais de 300 homens. A PF enviou ontem mais 45 agentes e delegados, não só para Novo Progresso, mas para acompanhar a situação em Altamira, Pacajás e Anapu - onde, no dia 12, foi morta a missionária Dorothy Stang.
"Sabíamos que a tensão era grande, mas não imaginávamos que pudesse chegar a a tanto", avaliou o superintendente da PF no Pará, José Ferreira Sales, referindo-se à região entre os Rios Iriri e Xingu. Um posto policial de Altamira, onde estão lotados 15 agentes e delegados, será transformado em delegacia. Também serão enviadas equipes para Castelos de Sonhos, cidade no extremo sul do Estado, onde são graves as disputas por terras. "A criação da delegacia (em Altamira) é um compromisso do ministro da Justiça", disse o superintendente Sales. Hoje o posto policial de Altamira é subordinado à delegacia de Santarém.
Por trás dessas medidas está o receio de distúrbios que estariam sendo forçados pelos madeireiros, especialmente em Novo Progresso - cidade que apresenta, hoje, o maior ritmo de devastação de toda a Amazônia, na qual as madeireiras passaram de 4 para mais de 40 nos últimos sete anos.
LAÇOS POLÍTICOS
Esses empresários têm fortes laços com políticos paraenses e pistoleiros habituados a expulsar ou matar os que resistem às ordens de sair das terras. Irritados com o recente pacote ambiental anunciado pelo governo, que determinou a interdição de cerca de 8,3 milhões de hectares na Terra do Meio - a decisão atinge em cheio a área por eles explorada - prepararam uma ofensiva para impedir a adoção dessa medida, ameaçando fechar a Rodovia BR-163 (a Cuiabá-Santarém), e partir para o confronto.
Na raiz desse problema está uma decisão tomada pelo Ministério da Justiça em agosto de 2003, de reduzir em 317 mil hectares a Reserva Indígena de Baú, dos índios caiapós. A área, que equivale a 240 mil campos de futebol - ou a mais da metade do território do Distrito Federal - não foi incluída em nenhum outro projeto, ficou sem destinação ambiental e tornou-se rapidamente foco da cobiça dos exploradores florestais. A portaria, explicou o ministério, decorreu de um acordo entre líderes indígenas, fazendeiros, posseiros e a prefeitura de Novo Progresso.
ESTRATÉGIA
Diante do clima explosivo, o Exército preparou uma estratégia para garantir a ordem, caso as ameaças se concretizem. O general do Exército Jairo César Nass, comandante das tropas enviadas para a região, acha a situação em Novo Progresso a mais preocupante entre os dez municípios da Terra do Meio. "Como cidadão acho que chegou a hora de dar um basta ao desmatamento. Como militar, estou aqui para cumprir as ordens do presidente da República", disse Nass.
O general Cláudio Barbosa de Figueiredo, comandante militar da Amazônia, alertou que não há prazo para retirar as tropas, mas ressalvou: "Não podemos permanecer o ano todo com essa operação, porque é muito caro e não há necessidade". Ele estima em R$ 1 milhão por mês o custo da permanência do Exército, no apoio à Operação Pacajás, entre gastos com helicópteros, logística, alimentação e hospedagem da tropa. Uma verba extra já prometida não foi ainda repassada ao Ministério da Defesa.
"Estamos queimando nossas gorduras", contou. O Exército estuda o aumento do efetivo na região, hoje com cerca de 3 mil homens da 23.ª Brigada de Infantaria de Selva, de cinco companhias, entre elas as de Belém e Manaus.

Thomaz Bastos não quer federalização do inquérito
JUSTIÇA: A tese da federalização do inquérito do assassinato da irmã Dorothy Stang ganhou um inimigo de peso. O ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, disse ontem que a Justiça estadual está sendo eficiente na condução do caso e não vê razão para transferir as investigações para a esfera federal. "Agora não é esse o caso", disse. Apesar disso, o procurador-geral da República, Cláudio Fonteles, não desistiu de mover ação no Superior Tribunal de Justiça (STJ), pedindo a federalização, por achar a Polícia e a Justiça do Pará comprometidas com estrutura criminosa montada por grileiros.

Família de acusado de ser o mandante vive pesadelo
Vital Gonçalves de Moura, de 55 anos, e sua mulher, Generosa, de 54, estão "vivendo um pesadelo", nas suas palavras, desde o assassinato da freira Dorothy Stang em Anapu (PA), dia 12. Eles são pais de Vitalmiro Bastos de Moura, o Bida, acusado de ser o mandante do crime executado por Rayfran Sales e Clodoaldo Batista.
"Estamos desesperados sem notícia do nosso filho. Não acreditamos nas acusações que a polícia faz", desabafa Vital, pequeno pecuarista. "Nunca fui em delegacia. Agora, fico vendo as notícias pela TV. Meu filho não é grileiro e jamais iria mandar matar uma pessoa que nem estava na área dele."
Vital não consegue mais tocar a fazenda e passa os dias em casa, com depressão e dormindo à custa de remédios. "Meu filho teve bom exemplo do pai e não acredito que tenha feito isto. A polícia não pode acusar alguém assim, sem provas", diz Generosa. Ela conta que os quatro filhos de Bida não conseguem dormir direito, acordam à noite com pesadelos e são apontados na escola como filhos de um criminoso. "Isto é muito chocante. Somos honestos e trabalhadores."
Eles hospedam a nora, Girlane, e os netos. "Já nos aconselharam a sair da cidade para esquecer, mas não podemos, as crianças teriam que sair da escola", diz Girlane.
Na casa também está Elizabete Coutinho da Cunha, mulher de Amair Feijoli da Cunha, o Tato, que está preso, acusado de ser intermediário do crime. Ontem ela o visitou na prisão e diz que ele está chocado com as acusações. "Seria muita burrice o Bida e o Tato mandarem matar a freira sem planos de fuga, contratando gente da região e me deixando com as crianças em Anapu", argumenta.
Em menos de dois meses, 24 mortes em Parauapebas
Fausto Macedo
Vinte e quatro mortes a bala ou a golpes de faca em menos de dois meses impressionam até a polícia de Parauapebas, ao sul do Pará. A média é de um assassinato a cada dois dias, pelas contas do delegado Marco Antonio Duarte, que dirige a Polícia Civil na cidade.
"A bruxa anda solta", constata Duarte, que carrega a responsabilidade de investigar e prender os criminosos de Parauapebas.
Em janeiro, foram 14 homicídios. Em fevereiro, outros 10. "A cidade virou um faroeste", compara o delegado, há cinco anos na carreira. "Todo mundo anda desrespeitando a lei, é pistolagem a toda hora." Para cuidar de tantos casos, a delegacia de Parauapebas conta com um efetivo de apenas 8 policiais.
Duarte lembra que as cenas de violência na cidade situada a 900 quilômetros de Belém se multiplicam "mesmo com a presença do Exército". As tropas militares chegaram à região depois do assassinato da missionária americana Dorothy Stang, em Anapu.
A mais recente vítima é o fazendeiro Antenor Marques Pinto, o Nozinho, de 59 anos. Dono da Fazenda Juazeiro - 1,2 mil hectares e mais de 5 mil cabeças de gado -, Nozinho levou 4 tiros, provavelmente de uma arma calibre 38. Foi na noite de segunda-feira. O crime aconteceu na estrada Cedere I, que dá acesso à propriedade do fazendeiro. Ele levou os tiros ao volante da caminhonete que conduzia.
Há mais de 10 anos em Parauapebas, Nozinho foi o segundo maior produtor de leite da região. A polícia suspeita de um funcionário dele, identificado como Ernanes de Souza. Ele nega participação na execução. Na noite do crime, ele acompanhava Nozinho. O suspeito disse que ao saltar do carro para abrir a porteira da fazenda, um desconhecido se aproximou e fez os disparos.
O delegado Duarte avalia que o depoimento de Souza é cheio de contradições. A perícia indica que os tiros teriam partido de dentro para fora do carro. O delegado pediu a prisão temporária de Ernanes, mas a Justiça não o atendeu. "Vou abrir inquérito e depois pedir a prisão preventiva.”

OESP, 25/02/2005, Nacional, p.A4

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