O Globo, País, p. 9
06 de Mai de 2017
Ex-presidente da Funai: fui demitido 'por ser honesto'
Antônio Costa afirma que deputado nomeou 20 pessoas 'que nunca viram um índio'; ministro reage
"Estou sendo exonerado por ser honesto e não compactuar com o malfeito e por ser defensor da causa indígena" Antônio Costa Ex-presidente da Funai
ANDRÉ DE SOUZA
andre.renato@bsb.oglobo.com.br
Após perder a presidência da Funai, Antônio Fernandes Toninho Costa disse que foi exonerado "por ser honesto" e não fazer nomeações políticas. O ministro da Justiça alegou que o subordinado não era ágil e eficiente. -BRASÍLIA- O presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai), Antônio Fernandes Toninho Costa, foi exonerado ontem do cargo, poucos dias após o ataque a índios da etnia Gamela, no interior do Maranhão. A demissão, publicada no Diário Oficial da União, levou Costa a sair atirando contra o ministro da Justiça, Osmar Serraglio, a quem a Funai é subordinada, e contra o líder do governo no Congresso, o deputado André Moura (PSC-SE). Em resposta, Serraglio, também fez pesadas críticas, acusando Costa de não ser ágil e eficiente. O Ministério da Justiça informou que Janice Queiroz, diretora de Administração e Gestão da Funai, vai assumir interinamente o órgão.
Após uma emboscada à aldeia indígena Gamela, no interior do Maranhão, ocorrida no último domingo, Costa reclamou publicamente do contingenciamento de gastos na Funai. Ontem, ele elevou o tom das críticas. À GloboNews, disse que foi exonerado por ser honesto, por ser "defensor da causa indígena diante de um ministro ruralista", e por não ter atendido a um pedido de André Moura para nomear na Funai 20 pessoas que "nunca viram índios em suas vidas".
- [Fui exonerado] Por não ter atendido ao pedido do líder do governo, André Moura, que queria colocar 20 pessoas na Funai que nunca viram índios em suas vidas. Estou sendo exonerado por ser honesto e não compactuar com o malfeito e por ser defensor da causa indígena diante de um ministro ruralista - disse .
A reação não demorou. Em nota, Serraglio disse que o governo dá extrema importância à questão indígena e, por isso, a Funai precisava de uma "atuação mais ágil e eficiente, o que não vinha acontecendo". Destacou ainda que o contingenciamento de recursos atingiu todos os órgãos de governo, e não apenas o Ministério da Justiça.
O ministro destacou pontos da política indigenista que "demandam soluções e ações urgentes". Como exemplos, citou o desbloqueio de rodovias em várias partes do país e as demarcações de terras, dando especial destaque a Roraima. No estado, há dificuldades em implantar uma linha de energia que passa por terras indígenas. Sem ela, diz Serraglio, Roraima tem que importar energia da Venezuela. Ainda segundo o ministro, índios bloqueiam, à noite, a rodovia que liga Boa Vista a Manaus, único acesso por terra a partir do Amazonas, deixando o estado "ilhado".
INDICAÇÕES PARTIDÁRIAS
À GloboNews, André Moura afirmou que as indicações foram feitas por vários partidos e que é normal a ocupação de espaços nos órgãos públicos por aliados. Ele é o atual líder do governo no Congresso. Em nota, o PSC, partido de Moura e responsável pela indicação de Costa em janeiro, disse que o escolheu por se tratar de um de seus quadros mais técnicos. A legenda destacou que o posto é um cargo de confiança do presidente Michel Temer, mas "segue à disposição para o que se fizer necessário no sentido de contribuir com o país".
Costa é formado em odontologia e especialista em saúde indígena. Antes da Funai, ele já tinha trabalhado na Organização Pan-Americana para Saúde (OPAS), no departamento de Saúde Indígena da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) e na Secretaria Especial de Saúde Indígena, órgão do Ministério da Saúde.
Na última quarta-feira, o ministro da Justiça já tinha dito que Costa poderia ser demitido, destacando, porém, que não seria dele a decisão. No Diário Oficial de ontem, a exoneração foi assinada pelo ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha.
- Não é o Ministério da Justiça que vai decidir em relação ao presidente. Claro que vai ser o Ministério da Justiça que vai identificar a qualificação, se houver troca de presidente - disse Serraglio na quarta.
No mesmo dia, o ministro afirmou que faria um "mutirão" para acelerar demarcações "dificultadas" de terras indígenas. E negou que a Funai estivesse desvalorizada pelo governo. Já no último domingo, a emboscada à aldeia Gamela deixou sete índios feridos. Segundo o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), ligado à Igreja Católica, foram 13 feridos.
O Globo, 06/05/2017, País, p. 9
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