O Globo, Sociedade, p. 23
24 de Ago de 2018
Evolução da epidemia
Ação humana espalhou o vírus da febre amarela
ANA LUCIA AZEVEDO
ala@oglobo.com.br
O vírus da pior epidemia de febre amarela das Américas nos últimos cem anos surgiu em macacos de algumas das florestas mais remotas do Brasil, masa doenças e espalhou pela ação humana. A linhagem do vírus se originou em 2002 na Amazônia, em macacos de florestas de Roraima. Em 2016, a doença emergi uno Sudeste, ondejá matou mais de 600 pessoas e de onde não saiu-os mosquitos transmissores esmorecem no inverno, mas voltamàat ivan o verão. O vírus ainda circula na Mata Atlântica.
A hipótese mais provável é de que a doença tenha sido levada por pessoas não vacinadas e mosquitos transportados involuntariamente pelo homem. Macacos e homens morreram - a epidemia causou o maior massacre de primatas da história da Mata Atlântica -, mas foi o ser humano que propagou o vírus, mostra estudo publicado ontem na revista "Science".
A descoberta comprovou que se trata da forma silvestre, e o trabalho é resultado de autêntica tour de force mundial de genômica e epidemiologia. Reuniu 65 cientistas, em sua maioria do Brasil, em parceria com Reino Unido, França, Estados Unidos e África do Sul. Com análises moleculares, dados epidemiológicos e espaciais, conseguiram reconstituir a evolução da epidemia. Identificaram, ainda, dez novas mutações exclusivas dos casos do Sudeste, cujo papel ainda está em investigação.
Oficialmente, há 2.043 casos e 676 mortes confirmados desde dezembro de 2016. Cerca de 35 milhões de pessoas que vivem em áreas de transmissão de febre amarela permanecem não vacinadas no Brasil, destaca a pesquisa.
Não foi o maca coque sai uda Amazônia, diz Luiz Alcântara, um dos líderes do estudo, pesquisador do Laboratório Nacional de Referência em Flavivírus da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) na Bahia. O vírus chegou ao Sudeste trazido por mosquitos que podem ter "pegado carona" em carros, caminhões ou até aviões.
Outra possibilidade, que não elimina a primeira, é que tenha chegado com algum viajante não vacinado, pois cerca de 80% dos casos da doença são assintomáticos. Porém, a taxa de letalidade dos 20% restantes chega a 50% e, nessa epidemia, ficou em cerca de 33%, o que faz da febre amarela uma das mais letais doenças do planeta.
Durante 14 anos o vírus permaneceu silencioso. Ninguém sabe ao certo o que aconteceu no Centro-Norte, observa Alcântara, cujo grupo planeja investigar o ocorrido. Em 2016 porém, encontrou "transporte" para o Sudeste e chegou a Minas Gerais no início daquele ano. Lá teve condições ideais para se espalhar, isto é, macacos vulneráveis e população humana com baixa cobertura vacinal, a despeito de o estado já ser área com recomendação de vacinação.
Como O GLOBO revelou, em 4 de abril de 2016 já havia casos suspeitos notificados em maca cosem Montes Claros. O vírus se espalhou por Minas. E em dezembro de 2016 eclodiram casos em humanos.
A epidemia, acredita Alcântara, é resultado da baixa cobertura vacinal e do desmatamento, que leva o ser humano cada vez mais para dentro das matas. O resultado da análise genômica mostra que o vírus avançou pelo Sudeste à velocidade de pelo menos 4,25 quilômetros por dia, podendo chegara 7 quilômetros/ dia.
Nem macaco nem mosquito sozinho conseguiriam esse ritmo. Só o ser humano e os veículos que ele possui poderiam fazer a epidemia se espalhar nessa velocidade, muito alta para uma doença, salienta Alcântara.
- Não há dúvida de que se trata da forma silvestre. O vírus ancestral é de macacos e os casos em humanos, 85% dos quais homens e ligados ao trabalho rural, caracterizam a forma silvestre -diz. Não há sinal de que o Aedes
aegypti, transmissor da versão urbana da febre amarela, esteja transmitindo a doença. Mas o risco é real porque o vírus ainda circula no Sudeste, destaca Alcântara. E aso luçãoéa vacina. Os casos até agora estão associados aos transmissores da forma silvestre, os mosquitos florestais dos gêneros
Haemagogus e Sabethes.
A pesquisa mostrou ainda que a vacina é segura e descartou que tenha causado efeitos adversos letais. Todas as pessoas vacinadas que morreram pereceram porque já haviam sido infectadas antes de tomar o imunizante.
-A vacinada febre amarela é umadas melhores do mundo. Ela salva. Oquem ataé não se vacinar. A doença pode voltar no próximo verão e a cobertura do Rio de Janeiro continua baixa. As pessoas que não se vacinaram precisam entender que correm risco real. Não vão morrer da vacina. Mas podem morrer porque não se vacinaram - afirma o cientista Renato Santana, do Laboratório de Virologia Molecular da UFRJ.
O Globo, 24/08/2018, Sociedade, p. 23
https://oglobo.globo.com/sociedade/saude/epidemia-de-febre-amarela-silv…
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