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Evitar desastres

OESP, Notas e Informações, p. A3
04 de Fev de 2010

Evitar desastres

No período mais crítico desta estação de chuvas - que continuam provocando estragos em várias cidades -, foi grande o risco que pesou sobre os moradores das proximidades das represas da Sabesp que compõem o Sistema Cantareira, do qual depende o abastecimento de água de boa parte da população da Grande São Paulo. Duas dessas represas chegaram a transbordar, desabrigando centenas de famílias e causando grandes prejuízos. É preciso pensar desde já no que deve ser feito para corrigir o grave erro cometido - a permissão ou a tolerância à ocupação dessas áreas de risco - com a adoção das medidas que se impõem para evitar que desastres graves voltem a acontecer.

Sabe-se agora que o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, no início de outubro, elaborou documento advertindo que as fortes chuvas que viriam aumentariam perigosamente os níveis dos reservatórios. O documento, enrolado na burocracia da Agência Nacional de Águas, acabou não chegando à Sabesp, que poderia ter sangrado as represas. Essa providência certamente evitaria riscos de arrombamento das barragens, mas não a inundação dos loteamentos - o que acabou acontecendo.

Aconteceu o pior, como se previa. Nos 12 municípios mais afetados - Atibaia, Bom Jesus dos Perdões, Capivari, Itatiba, Bragança Paulista, Caieiras, Franco da Rocha, Joanópolis, Nazaré Paulista, Mairiporã, Piracaia e Vargem - vivem 800 mil pessoas, das quais 6 mil estão diretamente ameaçadas pelos alagamentos provocados pelo extravasamento das barragens. A situação é pior em Atibaia, onde desde dezembro 900 famílias - aproximadamente 4 mil pessoas tiveram de abandonar suas casas situadas em áreas de risco. Essas pessoas tiveram de deixar suas casas às pressas sem saber para onde ir, 15 bairros foram alagados, fábricas e escolas fechadas, houve tentativas de saque, alojamentos superlotados e ameaça de novas inundações, se outras represas também extravasassem.

O sangramento das barragens, como foi o caso das de Atibainha e Cachoeira, revelou-se inócuo, dado o volume de chuvas. "É como se a represa não existisse", diz o superintendente de Produção de Água da Sabesp, Hélio Castro. "A gente não sabe qual será o impacto (do transbordamento), porque não dá para prever quanto de água vai passar pelo vertedouro. Só podemos monitorar. O restante é com a Defesa Civil."

A verdade é que o jogo já estava feito, os dados do desastre lançados, quando as chuvas excepcionalmente fortes deste verão começaram. E a culpa não é delas, como sugerem algumas autoridades. Este é o primeiro ponto a ficar claro, se se quer de fato entender o que está acontecendo. A culpa é dos governos e das Câmaras Municipais das cidades que, nas últimas décadas, fecharam os olhos à instalação irregular de milhares de moradores em áreas de risco, ou então, o que é ainda pior, autorizaram loteamentos ali. Em Atibaia, foram dois grandes loteamentos de classe média.

A existência de um grande número de pessoas de classe média ou alta entre os afetados pelas inundações invalida o argumento, sempre usado em casos de ocupação de áreas de risco, de que é difícil evitar que populações de baixa renda, que não têm para onde ir, nelas se instalem. Salta aos olhos que autorizar loteamentos em áreas de represas é uma temeridade ou uma irresponsabilidade pura e simples, porque não se despreza a possibilidade de chuvas fortes levarem a situações como as vividas neste verão por aqueles municípios.

É desanimador, para não dizer revoltante, constatar que algumas autoridades das quais depende a adoção de medidas para corrigir os erros cometidos estão dispostas a perseverar neles. É o caso do vice-prefeito de Atibaia, Ricardo dos Santos Antônio, para quem "não existe caos. Só 3% ou 4% da cidade está sofrendo com as enchentes. E essa população ribeirinha vai voltar quando a água baixar". Só 3% ou 4% da população da cidade dele representa 4 mil pessoas que foram obrigadas a deixar suas casas. Tão grave quanto considerar isto pouco, é defender a volta daquelas pessoas para as áreas de risco.

Pessoas que pensam assim não podem participar das corajosas decisões que precisam ser tomadas com urgência para resolver o problema.

OESP, 04/02/2010, Notas e Informações, p. A3

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