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Eventos extremos mudam cenário da Amazônia

O Globo, Ciência, p. 30
11 de Mai de 2011

Eventos extremos mudam cenário da Amazônia
Grandes estiagens e chuvas intensas serão mais frequentes, provocando impactos na produção pesqueira e nas hidrelétricas

Renato Grandelle

Uma das mais famosas paisagens da Amazônia, o Rio Negro tem andado irreconhecível. Em julho de 2009, atingiu seu maior nível histórico - 29,7 metros, desalojando milhares de pessoas. Pouco mais de um ano depois, uma seca intensa fez seu curso d'água desabar para 13,6 metros, batendo um novo recorde. Seu sobe-e-desce é retrato fiel do quanto as mudanças climáticas têm alterado aquele bioma. As transformações foram alvo de um estudo, divulgado ontem, que leva a assinatura do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e do Met Office, o órgão de meteorologia do governo britânico. Ambos constataram sinais de que, até 2080, o índice de pluviosidade local pode ser reduzido em até 41%, provocando impactos econômicos, inclusive na produção de energia elétrica, e ameaçando a sobrevivência de outros ecossistemas do país.
Nos últimos cinco anos, a Amazônia passou por três eventos extremos: uma enchente (2009) e duas grandes estiagens (2005 e 2010). São fenômenos que desafiam a ocupação humana e qualquer possibilidade de adaptação. Até porque, segundo o novo relatório, a seca será cada vez mais frequente.
- Uma estiagem como a de 2005 ocorre, em média, uma vez a cada duas décadas. Mas, em 2025, ela poderá acontecer ano sim, outro não - alerta José Marengo, climatologista do Inpe e um dos autores do relatório. - O mundo não está preparado para esta sucessão de eventos extremos. Se alguém nos disser com antecedência que o índice de chuvas cairá 10% nas próximos cem anos, conseguimos nos adaptar. Mas é difícil acostumar-se com uma sequência de enchentes e secas.
Índice de chuvas cairá até 41%
Nos últimos 50 anos, a temperatura média no Brasil aumentou 0,7 grau Celsius. Este índice pode se multiplicar até 2080. Seja qual for o aumento, deixará os céus amazônicos menos úmidos. Se a elevação das temperaturas globais for de 2 graus Celsius - cenário otimista -, a precipitação pluviométrica da floresta cairá 11%. Se, no entanto, subir 6,2 graus Celsius, o bioma perderá 41% de chuvas.
Por enquanto, ressalta Marengo, a tendência de seca da Amazônia é restrita a algumas áreas, especialmente nos estados do Pará e Amazonas. Mas o efeito, mesmo localizado, pode provocar estragos consideráveis no país inteiro.
- Se chover menos em uma área de hidrelétrica, a produção de energia terá resultado menor do que o ideal - ressalta. - O potencial de geração de energia da Amazônia, assim, não seria alto como gostaríamos. É recomendável ter um plano de contingência e investir, também, em outras fontes limpas, como a eólica e a solar.
Se repetidas em série, as estiagens transformarão as florestas secundárias do leste da Amazônia, a partir de 2040, em savanas. Para atingir este cenário, o desmatamento precisa derrubar 40% da floresta, o que tornaria o bioma irrecuperável.
A Amazônia pode não ser conhecida por solos rachados e rios convertidos em filetes, mas já existem sinais de que o bioma está mais seco. No ano passado, a produção pesqueira caiu de dez para apenas uma tonelada mensal.
- As companhias de turismo se queixavam porque seus navios ficavam parados - lembra Marengo. - As embarcações que transportam grãos também não conseguiam passar, paralisando a economia. A floresta, quanto está mais seca, fica vulnerável a incêndios, e os aeroportos volta e meia têm de fechar por causa da fumaça. Também devido a ela, aumentam os problemas respiratórios e a procura por hospitais. São, enfim, inúmeros impactos.
Os revezes não conhecem fronteiras. Uma seca no maior bioma brasileiro afetará os vizinhos. As precipitações do sul da floresta são as responsáveis por alagar as planícies pantaneiras, nutrindo toda sua vida na estação de chuvas. A umidade amazônica também viaja para o Centro-Sul do país, Cerrado e Caatinga.
Nem todas as mudanças climáticas, ressalte-se, são influenciadas pelo homem. Algumas vistas na Amazônia são resultado de ciclos naturais, que duram até 30 anos.
- Passamos por períodos de El Niño muito rigoroso, e este fenômeno faz chover menos na Amazônia. Teoricamente, deveríamos entrar em uma época mais chuvosa agora - anuncia Marengo.
O problema é que, devido à ação humana, existe uma tendência de aquecimento global, o que seca a floresta. Qual será, então, o futuro da Amazônia? Os pesquisadores ainda procuram a resposta.

Os efeitos da seca

NA BIODIVERSIDADE: Muitas espécies foram afetadas pela baixa recorde dos rios. Algumas, classificadas como ameaçadas de extinção, atingiram ponto crítico.

NOS OUTROS BIOMAS: A umidade originada na Bacia Amazônica é transportada pelos ventos para outras partes do continente e é considerada importante na formação de chuvas em regiões distantes da própria Amazônia.

NA RESISTÊNCIA DA FLORESTA:
A seca provoca mortalidade de árvores e aumenta a sua vulnerabilidade a fatores como vento, tempestades ou incêndios. Estima-se que uma série de chuvas intensas em 2005 matou entre 300 mil e 500 mil árvores somente na região de Manaus.

NO EFEITO ESTUFA: Uma floresta mais seca retém menos carbono - e, assim, há um aumento da temperatura ambiente.

NA ECONOMIA: A atividade pesqueira e o abastecimento de água na região ficaram seriamente comprometidos em consequencia dos níveis extremamente baixos das bacias hidrográficas.

NA PRODUÇÃO DE ENERGIA:
No leste da Amazônia, o desmatamento pode reduzir as chuvas. Menos precipitações e maior irregularidade comprometeriam o funcionamento de hidrelétricas.

O Globo, 11/05/2011, Ciência, p. 30

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