O Globo, Ciência, p. 3
25 de Set de 2007
EUA ignoram ONU
Bush não participa de encontro sobre clima e convoca uma reunião paralela
O presidente dos Estados Unidos - país que é um dos maiores emissores de gases-estufa do mundo - decidiu não participar da reunião sobre mudanças climáticas promovida pela Organização das Nações Unidas (ONU) ontem, véspera do início da Assembléia Geral da instituição. George W. Bush promoverá em Washington, na quinta-feira, um encontro paralelo para discutir o tema. A decisão foi criticada pelo secretário-geral da ONU, o sul-coreano Ban Ki-moon, em discurso para representantes de 150 países, reunidos em Nova York.
- A ONU é o fórum apropriado para essas discussões - disse Ban.
A Assembléia Geral da ONU começa hoje, com o discurso de abertura a cargo do presidente Luís Inácio Lula da Silva. Ontem, véspera do encontro, os líderes mundiais decidiram se reunir para debater a questão climática. Bush optou por não debater o clima ontem, mas somente em seu próprio evento, em Washington, com a presença de apenas 15 países; entre eles, Brasil e China. A proposta de Bush é que cada nação estabeleça seus próprios limites de emissões.
A reunião de ontem foi organizada pelo próprio Ban Ki-moon. Ele visa a preparar o terreno para as negociações em torno do sucessor do Acordo de Kioto, que entrou em vigor em 1997 e expira em 2012. 0 acordo limita as emissões de gases causadores do efeito estufa. Os Estados Unidos não assinaram Kioto. 0 país foi representado na reunião pela secretária de Estado, Condoleezza Rice.
Para Ban Ki-moon, o planeta não pode mais esperar. Segundo ele, o momento é de agir contra as mudanças climáticas.
- 0 tempo das dúvidas já passou - disse Ban Ki-moon. - Já temos evidências científicas claras da gravidade do problema. Sabemos o suficiente para agir.
Lula falará sobre redução do desmatamento
Ban Ki-moon disse que o mundo já possui conhecimento e recursos tecnológicos suficientes para combater as mudanças climáticas e que a falta de uma ação coletiva sobre o tema terá efeitos devastadores.
- Não fazer nada terá um custo maior para todos nós - disse o secretário-geral da ONU. - A única coisa que não temos é tempo a perder.
A reunião de ontem contou com a presença do governador da Califórnia, o republicano Arnold Schwarzenegger. Sob a sua liderança, a Califórnia criou sua própria política de redução de gases do efeito estufa, indo em direção oposta a Washington.
- A Califórnia está conduzindo os debates sobre o aquecimento global nos Estados Unidos - garantiu ele, em discurso na reunião.
Segundo Schwarzenegger, que usava uma gravata verde, é chegado q momento de todos os países - tanto os industrializados quanto os em desenvolvimento - se reunirem para enfrentar os efeitos das mudanças climáticas:
- Não podemos mais culpar uns aos outros pelo aquecimento global. As conseqüências já estão por toda a parte e não importa mais de quem é a responsabilidade. 0 que importa é o futuro de todos. E a palavra é uma só: ação.
Em Brasília, um pouco antes de embarcar para Nova York, o presidente Lula disse que o país tem bons dados para apresentar durante a Assembléia Geral da ONU. Ele deve dizer em seu discurso que a taxa de desmatamento na Amazônia caiu 25% entre agosto de 2005 e julho de 2006. As queimadas e o desmatamento fazem com que o Brasil seja um dos cinco países que mais contribui para o aquecimento global.
Uma pesquisa da BBC, divulgada ontem, revelou que 2/3 da população mundial acha que deve haver ações urgentes contra o aquecimento global. A pesquisa foi feita em 21 países. Nos Estados Unidos, o segundo maior poluidor do mundo, 59% das pessoas disseram que o mundo precisa agir agora contra as mudanças climáticas. Na China, o percentual foi de 70%.
As previsões do IPCC
Aumento de temperaturas: 0 IPPC estima que a maior parte do aumento das temperaturas registrado desde a metade do século passado "se deve ao aumento da concentração dos gases do efeito estufa". Os relatórios do IPCC dizem que a probabilidade de que o fenômeno seja causado pelas atividades humanas é de 90%. É bem provável que ondas de calor, bem como fortes chuvas, se tornem mais freqüentes no planeta. Pela primeira vez, segundo o IPCC, tem-se uma noção clara do que pode ser conseguido se as emissões forem reduzidas.
Elevação do nível do mar: Se a cobertura de gelo da Groenlândia derreter totalmente, isso levaria a uma elevação do nível do mar de sete metros. Os relatórios do IPCC citam seis modelos com projeções que variam entre 18 e 59 cms de elevação do nível do mar neste século. Eles são mais precisos do que os modelos utilizados em 2001, que variavam entre nove e 88 cms. Alguns dos modelos utilizados prevêem que o Ártico fique totalmente sem a cobertura de gelo até o verão de 2100,
Furações: Segundo o IPCC, é bem provável que as atividades humanas sejam responsáveis por um aumento na incidência de furacões e ciclones tropicais. Estes devem ficar ainda mais freqüentes no futuro. Pode não acontecer um aumento de ocorrências, mas elas podem ser redistribuídas e apresentarem mais intensidade.
2007, um ano de discussões sobre o clima
10 de janeiro: A Comissão Européia apresenta a "mais ambiciosa política contra as mudanças climáticas reduzir as emissões de gases-estufa em 20% até 2020 em relação aos níveis de 1990; e 30% daí em diante.
2 de fevereiro: O Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas da ONU (IPCC, na sigla em inglês) diz que a probabilidade de o aquecimento global estar sendo causado pelas atividades humanas é de 90%. Em 2001, era de 66%.
6 de abril: Especialistas avisam que os efeitos do aquecimento global vão ser sentidos mais depressa e intensamente do que se imaginava, causando fome e extinção de espécies.
4 de maio: 0 terceiro relatório do IPCC diz que a luta contra o aquecimento global é viável e que a tecnologia para isso já existe
7 de junho: 0 G-8 concorda com a necessidade de "cortes substanciais" nas emissões de gases do efeito estufa.
3 de agosto: Bush convida 11 países, além de Comunidade Européia e ONU, para conferência sobre mudanças climáticas em Washington.
12 a 17 de novembro: A 272 sessão do IPCC acontecerá em Valência, na Espanha, com a divulgação do relatório final sobre mudanças climáticas.
3 a 14 de dezembro: Em Bati, na Indonésia, representantes de 180 países, participarão da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas.
O Globo, 25/09/2007, Ciência, p. 32
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