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EUA anunciam corte de 30% de emissões

O Globo, Sociedade, p. 27
03 de Jun de 2014

EUA anunciam corte de 30% de emissões
É a mais agressiva iniciativa do país para conter as mudanças climáticas

FLÁVIA BARBOSA
Correspondente
flavia.barbosa@oglobo.com.br

O governo dos EUA anunciou nesta segunda-feira sua mais agressiva iniciativa para conter o aquecimento global, ao impor o corte de 30% das emissões de dióxido de carbono, até 2030, pelas geradoras de energia em atividade. A redução tem como base os níveis de 2005 e será equivalente a dois terços do CO2 despejado no ar por todos os carros e caminhões que circulam no país atualmente. O principal alvo da Agência de Proteção Ambiental (EPA, na sigla em inglês) é a geração de eletricidade com a queima de carvão, que responde sozinha por 40% da matriz e 38% das emissões de carbono nos EUA. As plantas movidas a gás natural representam 19% deste tipo de poluição.
A proposta foi publicada nesta segunda e será aberto um período de 120 dias de consulta pública. Em 2015, a EPA concluirá toda a regulamentação. A Casa Branca, ciente de que a medida é politicamente controversa, devido ao forte lobby da indústria energética, deixou na mão dos estados a melhor forma de alcançar a redução das emissões, em planos a serem apresentados até 2016. O corte mais drástico, de 26% das emissões de carbono, deverá ser feito até 2020.
O fechamento de unidades a carvão é uma possibilidade e não precisará ser imediato, poderá levar vários anos, até uma transição para a geração a gás, por exemplo. Reguladores regionais poderão complementar esforços com descontos aos consumidores para uso de eletricidade fora dos horários de pico
Os novos limites de emissões podem ser alcançados ainda por outros caminhos, como ganhos de eficiência energética nas unidades produtoras e consumidoras, investimento em energia renovável (como solar e vento, dentro e fora das geradoras) e modernização das plantas existentes. Estas são as principais apostas da EPA.
A flexibilidade dos estados na definição da estratégia de redução de emissões de carbono foi enfatizada pela diretora da EPA, Gina McCarthy, para suavizar a disputa política. Republicanos e democratas de estados muito afetados prometem agir no Congresso para impedir o órgão de pôr a medida em prática.
- (A flexibilidade) é a maneira pela qual podemos ser ambiciosos, mas com uma meta alcançável, mantendo a energia barata e confiável. O que mantém este plano de pé, e é essencial ao seu sucesso, é que o objetivo de cada estado é desenhado para suas próprias circunstâncias - afirmou a diretora da EPA.
A questão é mais delicada, e pode acabar em batalha judicial, nos 19 estados que têm mais de 50% da geração energética vindos do carvão. O percentual chega a 90% na Virgínia Ocidental e em Kentucky. Os governos estaduais temem a perda de empregos e competitividade.
Gina McCarthy, porém, afirmou que as mudanças, ao contrário, são um incentivo ao desenvolvimento tecnológico, com benefícios econômicos e de geração de postos de trabalho. Ela lembrou que, no passado, medidas ambientais foram contestadas, por exemplo para reduzir a chuva ácida, e as previsões catastróficas nunca se confirmaram.
- Por mais de quatro décadas, a EPA já conseguiu cortar a poluição do ar em 70% e a economia mais do que triplicou no período _ afirmou Gina. _ Ação climática não retira competitividade dos EUA, a favorece, incentiva inovação. Vamos liberar as forças de mercado, para que investimentos privados encontrem as oportunidades e produzam uma revolução limpa. A coisa mais custosa que podemos fazer é não fazer nada.
A diretora da EPA descartou impactos como os encontrados pela Câmara de Comércio dos EUA, cujo estudo apontou US$ 50 bilhões de custo para implementação da regulação e aumento considerável das tarifas de energia. Nos cálculos da agência ambiental, os custos ficarão entre US$ 7,3 bilhões e US$ 8,8 bilhões até 2030, mas a nova regra renderá tarifas 8% mais baratas, devido aos ganhos de eficiência e de modernização da rede e à redução do consumo.
O governo também está insistindo nos efeitos para a saúde e o controle de prejuízos a propriedades (2012 foi o segundo ano mais caro em termos de conserto dos estragos de eventos climáticos extremos nos EUA). A EPA calculou que emissões de outros gases poluentes, que causam doenças respiratórias e cardíacas, cairão 25% com a regulação, evitando entre 2,7 mil e 6,6 mil mortes prematuras e até 150 mil ataques de asma anualmente. Gastos médicos cairiam entre US$ 55 bilhões e US$ 93 bilhões em 2030.
A medida se junta às regulações para novas unidades geradoras, anunciadas ano passado com o Plano de Ação Climática, e aos limites de poluição e exigência de eficiência de combustíveis para veículos, que o presidente Barack Obama implementou em seu primeiro mandato. Ele não teve sucesso na tramitação de uma legislação climática e está usando a autoridade executiva para avançar sua agenda ambiental, que Obama pretende ser um de seus legados.
Especialistas e ambientalistas receberam com entusiasmo a ação americana. Acreditam que a medida, se implementada a rigor, vai alterar o sistema energético americano. Preveem que centenas das mais de 600 unidades geradoras a carvão dos EUA, que têm idade média de 42 anos, fecharão na próxima década e meia, incapazes de serem menos poluentes.
- O presidente está mandando um sinal bastante claro às geradoras e às empresas que vendem eletricidade, de que o governo espera que elas mudem de carvão para vento, solar e façam uso eficiente da energia. As empresas têm uma escolha: podem se apegar ao passado e combater os novos limites de carvão ou olhar para o futuro e abraçar a energia renovável, que seus próprios clientes estão demandando _ afirmou David Pomerantz, do Greenpeace.
Especialistas também consideram que o passo foi positivo para as negociações globais sobre mudanças climáticas e coloca os EUA no caminho de cumprir as metas prometidas em 2009 por Obama às Nações Unidas.
- Um anúncio deste porte, neste momento, estabelece um nível muito mais elevado para o controle de emissões de carbono nos EUA. Os novos padrões mandam uma mensagem poderosa a todo o mundo _ comemorou Andrew Steer, do World Resources Institute, centro de pesquisas sediado na capital.

O Globo, 03/06/2014, Sociedade, p. 27

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