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Etnia waurá luta por caverna no Alto Xingu

Gazeta de Cuiabá-Cuiabá-MT
Autor: Sílvio Carvalho
18 de ago de 2002

Índios, que vivem no Alto Xingu, querem incorporar área respeitada, que não podiam visitar há 30 anos

Kamukuaká era espírito guerreiro que surgiu antes da criação do mundo e dos próprios homens. Fora chefe poderoso cuja pujança o levara a enfrentar a ira de Kãma, o sol. O astro, porém, adquire forma de gente e passa a habitar as margens do rio Batovi, do lado oposto à caverna que recebe o mesmo nome do grande guerreiro mítico. Ao perceber a beleza e força do espírito, o sol resolve exterminá-lo, ordenando, em princípio, que se sente no chão. O guerreiro, que até então respeitava Kãma, obedece as suas ordens, juntamente com seus companheiros. O sol, porém, efetua diversas flechadas em direção à cabeça de Kamukuaká, que, ao se virar, defendendo-se, tem as orelhas atingidas. Todos os demais companheiros também são feridos. Assim, após a "furação das orelhas", rito que até hoje se mantém entre os waurá, o guerreiro é carregado nas costas até a caverna, onde se recupera. No entanto, Kãma não se dá por satisfeito e parte para outra estratégia: cria milhões de pequenos periquitos verdes, ordenando-lhes que comam o guerreiro, ainda em repouso. Há uma série de episódios, que culminam com a libertação do guerreiro e de seu povo da caverna.

Assim, o mito da caverna Kamukuaká define a criação do universo e rituais dos waurá, povo indígena do Alto Xingu, cuja demarcação de sua área territorial deixou de fora o elemento mais sagrado, justamente a caverna Kamukuaká.

Demarcado em 1961, o Parque Nacional do Xingu surgiu mutilado. As nascentes de seus rios ficaram fora de seu contorno, expostas a insumos químicos e assoreamento.

Premidos pela pressão latifundiária e por pecuaristas, os waurá não visitavam o signo maior de sua cultura, há cerca de 30 anos. No entanto, resolveram partir para a luta: foram à Fundação Nacional do Índio (Funai), de Brasília, e exigiram a retomada da caverna.

Uma equipe formada por técnicos do Centro Nacional de Estudos, Proteção e Manejo de Cavernas (Cecavi), setor do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama), da Funai e do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) já realizou duas expedições à caverna, situada entre Paranatinga e Gaúcha do Norte.

A iniciativa já resultou na demarcação da área e no seu registro junto ao Cadastro Nacional de Sítios Arqueológicos, do Iphan.

Todos os grafismos e pinturas, esculpidas nas rochas, ainda são usados por vários povos do Alto Xingu, especialmente pelos 268 índios waurá. É um sítio arqueológico vivo.

Locais são cordões umbilicais

Qual a importância da preservação de local sagrado, existente em mito, para povos indígenas? Os mitos, por meio da linguagem simbólica, contam a verdade de um povo e definem tanto sua ocupação territorial quanto o tipo de organização social das sociedades nativas. A explicação é da antropóloga da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Maria Fátima Roberto Machado.

O mito de criação do mundo pareci, povo que nasce de uma ponte de pedra, explica o tipo de ocupação territorial de cada subgrupo e sua organização política, baseada em grupos irmãos. Para um pareci, a aldeia ideal (prevista em seu mito) consiste em um grupo de irmãos que se casa com um grupo de irmãs.

Vários povos indígenas de Mato Grosso têm sua origem ligada a cavernas, pedras e pontes. A antropóloga levanta a hipótese de que o fenômeno pode se tratar de "difusão cultural". Como os waurá, os pareci também não tiveram seu local de origem mítica, a Ponte de Pedra, incluída na demarcação de sua área. Abalados e em franco processo de extermínio, quando foram contatados pelo marechal Cândido da Silva Rondon, no início do século passado, dois subgrupos pareci (waimaré e kaxiniti) estavam se juntando em um único local. "A ponte de pedra ficou de fora, porque a demarcação do território se deu sobre outro subgrupo", explica Maria Fátima. São os kozarini. O resultado da situação acabou na Justiça Federal, que embargou a construção de hidrelétrica particular "bem no salto sagrado". Hoje, os descentes de waimare e kaxiniti reivindicam a inclusão da Ponte de Pedra, que fica entre Nova Maringá e Campo Novo. Já fizeram abaixo-assinado.

O presidente da Federação dos Povos Indígenas de Mato Grosso, Estêvão Taukane, afirma que este tipo de injustiça social ocorre com a maior parte das etnias índias do Estado. É o caso de seu próprio povo, os kûra-bakairi, que perdeu, na demarcação de seu território, o Salto Sawapâ, na confluência entre os rios Verde e Paranatinga.

"É como se ficássemos sem um pedaço do corpo e da alma", compara Estêvão, ao se referir à perda de lugares míticos. "Na verdade, estes locais são como cordões umbilicais de nossa espiritualidade", complementa o bakairi.

Símbolos estão "vivos" nas aldeias

Vários dos grafismos marcados na caverna Kumukuaká são encontrados em diversos utensílios dos índios waurá, como cestos. Pinturas idênticas também são reproduzidas nos próprios corpos, ao passo que os rituais estão repletos de simbologias conservadas sobre a superfície rugosa da rocha.

"Isso tudo faz com que a caverna atraia a emotividade dos povos indígenas da região", pontua o coordenador de Arqueologia do Iphan, Rogério Dias.

Kalapalo, Mehinako, Yawalapiri e Trumai. Todos eles frequentavam a caverna e contêm, em suas histórias, diversas alusões aos mesmos seres míticos.

Ibama, Funai e Iphan estão, agora, discutindo a melhor forma de preservar a caverna e seu entorno, expostos à alta pressão pecuária e ao turismo na região.

Pelo decreto-lei no 3924 (que legisla sobre sítios arqueológicos) e pela portaria do Iphan no 07/1988, a Kamukuaká está protegida. "Além do que todo sítio é, constitucionalmente, protegido", observa Rogério Dias.

A caverna, porém, está situada no distrito Salto da Alegria, que pretende se emancipar, tendo nela um de seus principais pontos turísticos.

A situação da Kamukuaká é semelhante à de vários pontos no entorno do Parque Nacional do Xingu, uma ilha de preservação ambiental em meio à soja e à pecuária.

"Quando a ocupação não está na pata dos bois, é ditada por interesses externos", avalia o coordenador de Proteção às Terras Indígenas, da Funai/DF, Wagner Tramm.

A expectativa é a de que o registro da caverna (e de seu sítio arqueológico) seja o primeiro passo na preservação do local, para que ele seja gerido pelos próprios índios.

Região de turismo desenfreado

O chefe do Cecavi, Ibama/MT, José Guilherme Aires Lima, informa que, na segunda expedição à caverna Kumukuaká, a equipe fez levantamento topográfico da área. A região está sendo atingida pelo turismo desenfreado, pesca predatória, uso desordenado e churrascos. A expectativa dele é a de que a parceria entre os três órgãos crie Unidade de Conservação na categoria Monumento Natural e Cultural. José Guilherme ainda observa que, no caso da Kumukuaká, as pinturas, ainda não datadas, estão representadas até na cestarias dos waurá. "Nem toda caverna precisa de turismo", define ele, acrescentando que uma das diretrizes da Cecavi será a "etno-espeleologia".

A relação que elas têm com os povos indígenas será um dos critérios fundamentais para a emissão de licenciamento. "Ninguém está ouvindo as etnias", alerta ele.

Apesar das dificuldades, a Funai tem pela frente o desafio de anexar a caverna Kamukuaká ao Parque Nacional do Xingu. Um dos objetivos é também proteger o entorno da caverna, que sofre pressão do turismo.

Os Kûra-Bakairi também estão reivindicando a demarcação de seu local sagrado de origem, a Sawapâ.

"Uma das cavernas desta região já está detonada por garimpeiros", alerta José Guilherme.

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