O Globo, Rio, p. 25
30 de Dez de 2010
Estudo mostra um Rio de águas poluídas
Levantamento revela que quase metade do esgoto produzido na cidade não é coletada e vai parar no meio ambiente
Cartão-postal da cidade, a Baía de Guanabara, quandovista de perto, assusta pelo lixo flutuante e pelo mau cheiro do esgoto despejado in natura.
Na Bacia de Jacarepaguá, desmatamento e ocupações irregulares contribuem para o assoreamento. No Rio Guandu, a água coletada é arduamente tratada para ganhar qualidade própria para o consumo humano. Rico em recursos hídricos, mas com sérios problemas ambientais, o Rio tem, entre os compromissos para as Olimpíadas de 2016, a despoluição da Baía, de bacias e lagoas. Um desafio e tanto, já que as condições das águas cariocas, apesar dos esforços do estado e da prefeitura nos últimos anos, ainda deixam muito a desejar, como mostra um levantamento do movimento Rio Como Vamos (RCV).
Esgoto e lixo são as principais barreiras nessa corrida de obstáculos para os Jogos. O Sistema Nacional de Informações Sobre Saneamento (SNIS) mostra que, só no município do Rio, 677,5 milhões de metros cúbicos de água foram consumidos em 2008 nos imóveis abastecidos pela Cedae. Partindo-se do princípio de que a água usada volta ao sistema como esgoto, o volume deste seria aproximadamente o mesmo. Mas o SNIS indica que apenas 378,4 milhões de metros cúbicos foram coletados, o que corresponde a 55% do total. E isso numa cidade em que a rede de esgoto é capaz de atender a 82% dos domicílios, embora muitos não estejam ligados a ela. Para a pesquisadora Ana Lúcia Britto, especialista em saneamento do Programa de Pós-Graduação em Urbanismo da UFRJ (Prourbe), para uma cidade como o Rio, o índice de coleta é baixo.
Baía de Guanabara recebe lixo de rios de 15 municípios
Do total coletado, 85% (322,5 milhões de metros cúbicos) receberam tratamento. Mas, ao se considerar o volume total de esgoto produzido, o indicador cai para 47%. Ou seja, mais da metade vai in natura para as bacias hidrográficas. A principal delas é a da Guanabara (reúne os rios que desembocam na Baía de Guanabara), que recebe ainda dejetos e lixo de rios de outros 15 municípios. Em apenas sete deles há registro no SNIS de tratamento, mas - à exceção de Niterói e Petrópolis - em índices baixíssimos. O resultado disso é sentido pela população e comprovado pelo Instituto Estadual do Ambiente (Inea), que monitora e condena a maioria das praias da Baía.
Se a cobertura de esgoto no Rio é de 82%, na Zona Oeste, que tem 48% do território da cidade e 30% da população (1,7 milhão de pessoas), não chega a 50%. E, ainda assim, não há rede separadora, e o esgoto cai no sistema que recolhe as águas das chuvas (como acontece também nas favelas de outras regiões), sendo despejado na bacia hidrográfica de Sepetiba.
Segundo o subsecretário da Rio Águas, Mauro Duarte, com obras de saneamento em sete áreas, a prefeitura aumentará em 30% a rede coletora da região. As obras em Sepetiba e Vila Kennedy foram iniciadas. E as estações de tratamento de esgoto (ETE) de Sepetiba e Guaratiba já operam. Juntas, podem tratar 135 litros por segundo.
Falta de saneamento afeta saúde da população
Outra consequência da precariedade do saneamento no Rio e nos arredores da Baía de Guanabara é sentida na saúde.
Um dos Indicadores de Desenvolvimento Sustentável do IBGE mostra que , em 2008 , 112,6/100 mil pessoas foram internadas no estado devido às chamadas doenças relacionadas ao saneamento ambiental inadequado (DRSAI) - 90% eram decorrentes de contaminação por fezes, como as diarreias. No município, o Sistema de Indicadores do RCV mostra que, em 2009, as doenças diarréicas agudas (DDA) levaram à internação 16 crianças de até 4 nos para cada mil. Regiões carentes de infraestrutura, como Maré e Jacarezinho, tiveram índices acima da média da cidade. No Rio Comprido, o indicador chegou a 117,7/mil.
- Os problemas de uma cidade não pertencem só a uma área. Saneamento é meio ambiente, qualidade de vida, é saúde. O que se gasta em meio ambiente se economiza em saúde. Para cada dólar gasto em saneamento, economizam-se cinco em saúde. Saneamento é saúde preventiva. A despoluição da Baía tem um histórico desanimador. Mas a área de segurança também tinha e o problema está sendo enfrentado - diz a presidente-executiva do Rio Como Vamos, Rosiska Darcy de Oliveira.
Pelos compromissos assumidos pelo Rio para as Olimpíadas, serão feitas obras que resultarão na coleta e no tratamento de 80% de todo o esgoto até 2016 - incluindo os dejetos despejados na Baía de Guanabara e na Bacia de Jacarepaguá.
Dados do Inea dão conta de que, em 30 anos, as lagoas de Jacarepaguá perderam 8,5% do espelho d'água, devido a aterros e ocupação irregular. Em monitoramentos recentes, as condições das águas das quatro lagoas estavam sempre péssimas.
O presidente da Cedae, Wagner Victer, diz que a meta de saneamento será atingida com os projetos em andamento ou em licitação, como os das redes do Rio Faria-Timbó e do Terreirão, no Recreio. Isso sem falar na inauguração, conclusão ou ampliação das ETEs de Sarapuí, São Gonçalo, Paquetá e Pavuna, que tratarão muito do esgoto que hoje vai para a Baía. A ETE Alegria, no Caju, passará de 2.500 litros de esgoto tratados por segundo para a capacidade máxima, cinco mil.
Para concluir o saneamento ao redor da Baía e das lagoas de Jacarepaguá, o estado recorre mais uma vez ao Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), que nos últimos 15 anos financiou parte do US$ 1 bilhão do Programa de Despoluição da Baía de Guanabara.
A secretária estadual do Ambiente, Marilene Ramos, acredita que, com a credibilidade do estado resgatada por realizações dos últimos anos, como a conclusão da ETE Alegria, o novo empréstimo, de R$ 800 milhões, será aprovado e os recursos chegarão em 2011. Em novembro, uma missão do BID veio ao Rio analisar projetos.
Além disso, a secretaria conta com os R$ 439 milhões liberados no mês passado pelo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC 2), do governo federal, para saneamento, limpeza de rios e erradicação de lixões. Muito do lixo despejado nesses vazadouros acaba arrastado pela água das chuvas para os rios.
Dos 16 municípios da Bacia da Guanabara, só Nova Iguaçu e Itaboraí têm centros de tratamento de resíduos construídos dentro das normas da recente Política Nacional de Resíduos Sólidos.
O oceanógrafo David Zee reconhece os avanços dos últimos anos, mas diz que o passivo ambiental de décadas de negligência , falta de planejamento e incompetência é alto. E, para que as metas sejam atingidas até 2016, serão necessárias agilidade nas obras e pressão popular permanente. O biólogo Mário Moscatelli concorda:
- Hoje temos dinheiro, tecnologia e principalmente vontade política, que faltou no passado. Mas serão precisos projetos sérios e eficientes para pagar essa fatura. Se pararmos de jogar esgoto e lixo, a Baía de Guanabara se recupera.
RCV monitora 13 áreas
O Rio Como Vamos (RCV) monitora os indicadores de qualidade da cidade e acompanha o desempenho da administração pública em 13 áreas fundamentais para a sociedade : saúde ; transporte; educação; segurança pública e violência; pobreza e desigualdade social; meio ambiente; lazer e esporte; habitação e saneamento básico; inclusão digital; trabalho, emprego e renda; cultura; vereadores; e orçamento. Os resultados são divulgados mensalmente pelo GLOBO e pelo site do jornal.
O RCV é apartidário e tem o apoio de Fecomércio, Firjan, Associação Comercial, Synergos, Observatório de Favelas, Iser, Cedaps, CDI, Idac, Ethos, Banco Real, Iets, Santander, Grupo Libra, Unicef e Fundação Avina, Light, Metrô Rio, UTE Norte Fluminense, CHL e KPMG.
Nos últimos meses, o RCV analisou, entre outros temas, o índice de crimes violentos na cidade, a expansão das favelas, a violência doméstica contra a mulher, os rumos da educação, a realidade da Zona Portuária e o mercado de trabalho brasileiro. Também mostrou que o projeto do Plano Diretor de Drenagem Urbana, previstodesde 1992, está 18 anos atrasado. Em julho, revelou que o carioca continua jogando lixo nas ruas da cidade. Em agosto, foi analisado o primeiro balanço semestral da prefeitura, que traçou o Plano Estratégico do município. O tempo gasto pelo carioca no transporte público, entre a casa e o trabalho, foi o tema abordado em setembro. Em outubro, o RCV convocou a sociedade a se mobilizar contra a dengue, para que o Rio passe pelo verão livre de epidemia. No mês passado, após a ocupação do Complexo do Alemão, o movimento mostrou que a região tem alguns dos piores índices sociais da cidade.
O Globo, 30/12/2010, Rio, p. 25
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