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Estudante indígena de medicina da UnB cria obras sobre própria cultura em forma de 'desabafo'

G1 - https://g1.globo.com
Autor: Nicole Angel
26 de fev de 2020

Aislan Santos, da etnia Pankararu, expõe 24 obras no Hospital Universitário de Brasília (HUB). Com entrada franca, mostra vai até 30 de março.

Um estudante indígena de medicina da Universidade de Brasília (UnB) realiza uma exposição onde retrata a própria cultura, por meio de 24 obras. A mostra "Abá Pukuá: Homem Céu" está no Hospital Universitário de Brasília (HUB), com visitação até 30 de março. A entrada é franca.

Aislan Santos, da etnia Pankararu, está no 10o semestre do curso de medicina. Para ele, "a arte é um desabafo, que liberta e deixa a vida mais leve".

Sobre o nome da mostra, Aislan contou ao G1 que uniu duas etnias para dar significado àquilo que gostaria de representar; "Abá significa homem na língua tupi, e Pukuá é céu para o povo Kaiapó", explica.

"O Homem Céu representa a força para encarar desafios e sempre encontrar uma maneira de conectar-se com os ancestrais pela arte."

As obras e o povo Pankararu

Conexão espiritual, sede de justiça, busca pela verdadeira identidade, resistência, fusão de povos e superação. Cada uma das 24 obras pintadas em papel pardo tem um significado para o estudante. Mas em todas, ele diz que expressa "um pouco da própria cultura".

"É a forma como eu me conecto com o meu povo, lá do interior do Pernambuco, que é o povo Pankararu."

A Terra Indígena Pankararu, homologada em 1987, está localizada entre os atuais municípios de Petrolândia, Itaparica e Tacaratu, no sertão pernambucano, próximo ao rio São Francisco. A área foi uma das primeiras no país a receber as ações missionárias implementadas desde o início da colonização portuguesa.

"Foi um dos primeiros povos que sofreram com esse processo de colonização. Houve a miscigenação e a expulsão do litoral para o interior", explica Aislan.

A expulsão acabou resultando em uma busca por melhores condições de sobrevivência em outros locais, como as cidades. "E nisso eu fui no bolo também", conta Aislan, ao lembrar sobre como veio parar na capital do país.

Para ele, "estar dentro do curso de medicina em uma universidade federal é um ato de resistência".

"O objetivo é mostrar que os indígenas podem ocupar um espaço na sociedade e, principalmente, na universidade."

Arte como processo de cura

Mas a adaptação de Aislan no curso de medicina não foi algo conquistado fácil, revela. Por ser de origem indígena, o jovem conta que sentiu necessidade de gritar, de falar.

"É uma coisa meio de 'sede de justiça', de querer ser ouvido."

Ao G1, o estudante contou que a obra mais desafiadora foi "Explosão" (foto abaixo). Segundo ele, o trabalho representa o momento mais crítico que ele passou dentro da universidade.

"Tem o símbolo da universidade, tem o fogo - que significa uma espécie de fúria -, e o resto todo preto, como se estivesse queimando", aponta.

Aislan, que já se forma no ano que vem, explica que o amadurecimento veio com o tempo. Para ele, a observação e a paciência ajudaram a entender e a se adaptar ao espaço.

"No degrau que eu consegui chegar, eu já consigo ter mais voz. Já não me calo diante de algum tipo de violência", diz o futuro médico.

"Hoje eu me considero empoderado pra enfrentar questões que eu vejo que estão me afligindo. Mais do que isso, sinto a liberdade."

Programe-se

Abá Pukuá: Homem Céu

Data: até 30 de março
Horário: das 9h às 19h
Local: Térreo da Unidade 1 do Hospital Universitário de Brasília
Endereço: Setor de Grandes Áreas Norte (SGAN) 604/605, L2 Norte
De graça

*Sob a supervisão de Maria Helena Martinho

https://g1.globo.com/df/distrito-federal/o-que-fazer-no-distrito-federa…

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