O Globo, O País, p. 11
08 de Jun de 2010
Estrela do PAC, transposição tem ritmo lento
Mais de mil pessoas já foram demitidas e há só quatro caminhões no trecho da obra em Cabrobó, Pernambuco
Letícia Lins
Um dos destaques do décimo balanço do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), divulgado semana passada, o projeto de transposição do Rio São Francisco, visitado pelo presidente Lula e a pré-candidata Dilma Rousseff no fim do ano passado, está quase parado no trecho que fica em Cabrobó. Mais de mil pessoas já foram demitidas no canteiro de obras, restando apenas 400 operários na área, no município do sertão a 586 quilômetros de Recife.
O prefeito de Cabrobó, Eudes Caldas (PTB), disse que semana passada percorreu os canteiros que ficam no município e observou grande redução no movimento de caminhões. Antes, eram cem todos os dias, e restam apenas quatro.
- A gente não sabe o que está acontecendo, mas oficiosamente estaria havendo uma divergência nos valores de medição. Na verdade, não fomos informados de nada, mas a pressão já está muito grande aqui na prefeitura.
A procura por emprego aumentou 50% depois da desaceleração da obra - disse Caldas.
Autônomo, prestador de serviços para uma transportadora da Paraíba, o baiano Wilson dos Santos está preocupado com a paralisação:
- Acho isso uma falta de respeito. A gente veio de longe trabalhar, e fazem conosco uma coisa dessas. Mandaram recolher as caçambas e ninguém disse o dia da volta. Estou vendo 13 de outras prestadoras de serviço, todas paradas. Estou apenas aguardando o vencimento da quinzena para retornar a Salvador.
O prefeito disse que há 20 dias cerca de 600 trabalhadores foram desligados. Há uma semana, foram mais 400. Ele disse que a obra já chegou a movimentar três mil operários:
- O movimento no comércio, nos postos de combustível e nos restaurantes já caiu cerca de 40%. Se tivéssemos sido avisados, poderíamos ter trabalhado para minorar o sofrimento do pessoal.
Segundo Câmara, só 50% do pessoal ainda mobilizados
Dono de uma pedreira utilizada para as obras, o presidente da Câmara de Vereadores de Cabrobó, Moacir Rocha (PT), informou que só 50% do pessoal ainda estão mobilizados: - Não soubemos qual foi o problema, mas há trechos ainda não concluídos em que tudo parou mesmo. É muito dinheiro jogado fora. Nunca vi uma paralisação tão grande.
Na semana passada, o deputado José Carlos Aleluia (DEMBA) esteve em Cabrobó e só viu desolação.
- No trajeto que fiz até Cabrobó, não se falava em outra coisa. A obra pode não ter parado definitivamente, mas parou.
O governo não pode negar, porque todo mundo está vendo.
Não estou inventando nada, até porque meu desejo é que a transposição do Rio São Francisco ande - disse Aleluia, destacando, porém, que não teve notícia de pagamentos em atraso.
O presidente da Comissão Parlamentar de Acompanhamento da Transposição do São Francisco, Raimundo Pimentel (PSB), pediu reunião com autoridades do governo federal:
- A justificativa do consórcio responsável pelo lote 1 do Eixo Norte é que o trabalho daqui para frente demanda número menor de operários e mão de obra mais qualificada.
Mas vamos conferir no Ministério da Integração Nacional.
O deputado informou que foi constatado ritmo muito lento em algumas áreas: - O cuidado seria agora com três aquedutos, que exigem maior especialização dos operários. Vimos, no entanto, que o ritmo está muito lento em trechos como o destinado à construção da Barragem de Tucutu (um dos reservatórios do projeto São Francisco) e em um canal de aproximação.
Há, também, grande lentidão nas áreas sob responsabilidade do Exército. Segundo o prefeito, só 49% dos trabalhos do Eixo Norte foram concluídos. Esse eixo, visitado por Lula em outubro passado, tem 400 quilômetros e deverá ligar Cabrobó ao Rio Grande do Norte e ao Ceará.
Eixo Leste, porém, está funcionando
Já o Eixo Leste, que terá 220 quilômetros, está a pleno vapor, de acordo com a prefeita de Floresta, Rorró Maniçoba (PSB). Terá 220 quilômetros, ligando o município pernambucano à cidade de Monteiro, na Paraíba: - Em Floresta, nada parou.
Estive no local com três vereadores e tudo estava funcionando.
A movimentação na economia na cidade é tão grande que tivemos dificuldade em encontrar uma casa para alugar, onde pretendemos instalar um programa de atendimento a pessoas com dependência química.
O presidente do PSB de Floresta, Dário Novaes, disse que percorreu os canteiros na última quarta-feira e não constatou anormalidade em Floresta, onde Lula também esteve em outubro de 2009. Os eixos Leste e Norte funcionam como as artérias do projeto de transposição do Rio São Francisco, que deverá levar as águas do Velho Chico a cerca de um milhão de pessoas no semi-árido.
Para o governo, obras estão dentro do prazo
Segundo ministério, transposição estaria concentrando esforços atualmente no lote 6
Recife. O Ministério da Integração Nacional afirmou que as obras de transposição do Rio São Francisco permanecem em ritmo normal, e que nelas trabalham atualmente cerca de nove mil trabalhadores, que já permitiram avanços de 49% no Eixo Leste e de 37% no Eixo Norte, os dois principais canais que garantirão a integração do rio com as bacias hidrográficas do Nordeste Setentrional. Segundo o ministério, até agora o empreendimento já consumiu R$1,5 bilhão. Outros R$4,5 bilhões estariam garantidos no PAC.
- O ritmo das obras está dentro do cronograma - disse o ministro João Santana, que há 13 dias esteve no local para uma vistoria em companhia do ministro Benjamim Zymler, do Tribunal de Contas da União.
Segundo a assessoria de Santana, a desmobilização em um canteiro de obra marca o início da movimentação em outro trecho. No caso, estaria havendo concentração de esforço no lote 6. De acordo com as autoridades nordestinas, a paralisação atinge o lote 1 do Eixo Norte.
O ministério enviou ao GLOBO um parecer escrito pelo ministro do TCU: "Causou-me impressão o ritmo acelerado que se vem imprimindo na execução das obras, o que denota o empenho com que se tem havido o ministro da Integração Nacional na condução, supervisão e fiscalização do empreendimento". De acordo ainda com Zymler, não faltou transparência nem "postura solícita e colaborativa" à auditoria do TCU. A visita do ministro do TCU foi realizada no último dia 19.
O Globo, 08/06/2010, O País, p. 11
As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.