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Estratégia de conflito ambiental traz risco a acordo Mercosul-UE

FSP, FolhaInvest, p. A16
Autor: BATTISTI, Marcelo
26 de ago de 2019

Entender risco ambiental é básico no capitalismo moderno
Risco ambiental é considerado no mercado de ações, por exigências de investidores responsáveis

Marcelo Battisti
No primeiro mês de seu governo, o presidente Jair Bolsonaro fez um discurso no Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, no qual enalteceu a importância do meio ambiente para o Brasil, e adotou uma postura de parceira com outros países, com declarações como: "Somos o país que mais preserva o meio ambiente"; "nossa missão agora é avançar na compatibilização entre a preservação do meio ambiente e da biodiversidade com o necessário desenvolvimento econômico, lembrando que são interdependentes e indissociáveis"; "queremos parceiros com tecnologia para que esse casamento se traduza em progresso e desenvolvimento para todos".

Exatos sete meses após esse discurso, o Brasil aparece com destaque negativo em The Wall Street Journal, The New York Times, Le Monde, BBC, Washington Post, The Economist e Financial Times, entre outros veículos de prestígio, em artigos e editoriais sobre o desmatamento e as queimadas na Amazônia.

O receio de consequências negativas para as exportações brasileiras fez o empresário e ex-ministro da Agricultura Blairo Maggi declarar que essa situação leva o agronegócio "de volta à estaca zero" e que "podemos ter mais fechamentos de mercado".

A reação inicial do governo foi agressiva, com acusações de conspiração de ONGs e governos estrangeiros.

Nesse ambiente conturbado, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, ressaltou que a preservação da Amazônia requer que "soluções capitalistas" sejam elaboradas para que o dinamismo econômico e seus benefícios cheguem à população.

Só faltou explicar o que seriam "soluções capitalistas".

No último meio século, os chamados países capitalistas promulgaram as primeiras leis de proteção ao meio ambiente, numa evolução que também mudou o conceito de desenvolvimento. Hoje crescimento é cada vez mais associado à sustentabilidade, que agrega, junto à expansão econômica, o aprimoramento humano e social, e a preservação do meio ambiente.

Isso não tem nada a ver com comunismo ou esquerdismo. Pelo contrário, parafraseando dois renomados professores de Economia da Universidade de Chicago, Raghuram R. Rajan e Luigi Zingales, é preciso "salvar o capitalismo dos capitalistas". O capitalismo gera crescimento e eficiência, mas isso requer que os capitalistas sejam submetidos à concorrência dos mercados.

E o que a concorrência com mercados externos nos diz sobre o tema ambiental?

Para atender às preocupações ambientais de consumidores e investidores, novos projetos e negócios são levados a evitar ou reduzir seus impactos ambientais. Longe de ser um obstáculo, o meio ambiente representa oportunidades muito maiores do que a simples exploração destrutiva de recursos naturais.

A abertura de novos mercados é o maior atrativo, principalmente dos países mais desenvolvidos, cujos consumidores possuem o maior poder aquisitivo. Ao mesmo tempo, são mais exigentes no tocante à preservação ambiental.

O "outro lado da moeda" é a questão fundamental da gestão de risco ambiental, sem a qual o acesso aos mercados pode ser perdido.

A teoria conspiratória que vê pressão internacional como uma tentativa de "recolonizar" a Amazônia falha, entre outros motivos, ao não perceber que a pressão dos estrangeiros é para que os produtores e mineradores brasileiros atendam a suas demandas ambientais para poderem acessar seus mercados.

Um eventual fracasso do acordo comercial com a União Europeia é um risco a ser considerado se nosso governo adotar uma estratégia de conflito com países europeus no campo ambiental.

Isso vale inclusive para o mercado financeiro, onde cada vez mais o risco ambiental é considerado na escolha dos investimentos, onde fusões e aquisições que envolvam estrangeiros passam a requerer avaliações de risco ESG (meio ambiente, sociais e de governança).

O risco ambiental é considerado mesmo no mercado de ações, seja por exigências de investidores socialmente responsáveis ou por receios de desastres ambientais que gerem perdas bilionárias, como as causadas pelas tragédias no Golfo do México e em Brumadinho.

É condição necessária para o bom entendimento de empresas nacionais com consumidores e investidores estrangeiros que os "padrões de desempenho socioambiental" sejam compreendidos de forma transparente e consensual.

Esses padrões são um instrumento fundamental para o sucesso de transações globais envolvendo diferentes países com normas e leis particulares. Eles existem nos mercados de commodities, de mineração e, inclusive, no mercado financeiro.

Os maiores bancos do mundo estão na Associação dos Princípios do Equador, que estabeleceu princípios sociais e ambientais, uma espécie de "padrão de ouro", para que bancos aceitem financiar projetos de infraestrutura em mercados emergentes. Esses princípios estão alinhados com normas do IFC, a Corporação Financeira Internacional, braço do Banco Mundial para o setor empresarial.

Não conseguiremos ir longe no projeto de ampliar nossa inserção na economia global se não conseguirmos atrair consumidores e investidores estrangeiros para nossos produtos, serviços e mercados -e a condição básica para isso pressupõe adotarmos padrões de desempenho ambiental aceitos internacionalmente, e incorporarmos esses padrões na gestão de risco de nossos negócios e planos de desenvolvimento.

Marcelo Battisti é especialista em risco ambiental, foi integrante e presidiu o Comitê Deliberativo dos Princípios do Equador (2007-2011), que fixa critérios socioambientais para política de crédito de bancos signatários

FSP, 26/08/2019, FolhaInvest, p.A16

https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2019/08/estrategia-de-conflito-am…

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