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Estrangeiros na Amazônia: entre espiões e fantasmas

Jornal Pessoal-S. Paulo-SP
Autor: Lúcio Flávio Pinto
21 de Mai de 2004

Reportagem escrita por Frank Siqueira e publicada em O Liberal no final do mês passado, sob o título "Soberania sobre a Amazônia é posta em xeque", provocou no meio acadêmico impacto semelhante ao da entrevista que David MacGrath deu à revista Veja alguns meses antes. Como da outra vez, houve intensa troca de mensagens a respeito da matéria pela internet, mas raros se aventuraram a se manifestar publicamente. Um único pesquisador enviou uma carta à redação do jornal, que se recusou a publicá-la e encerrou, ao menos temporariamente, o tratamento do tema. Bem ao seu estilo: saindo tão subitamente quanto entrou.

O impacto foi causado pelo primeiro parágrafo da reportagem (o que os jornalistas chamam de lide), que dizia:

"Poucas pessoas em Belém devem ter vivo na memória o nome de Thomas Lovejoy. Discreto, ele nunca apareceu muito para o grande público. Que também por isso, entre outras razões, não teve oportunidade de tomar conhecimento do que ele andava fazendo por aqui. O certo é que Thomas Lovejoy, depois de passar uma temporada em Belém, em trabalhos de pesquisa vinculados ao Museu Paraense Emílio Goeldi, voltou para o seu país de origem, os Estados Unidos, e lá acabaria assumindo uma função invejada e particularmente honrosa, passando a integrar o seleto grupo de conselheiros científicos do então presidente Bill Clinton. Pessoas que, naquela época, conviveram aqui em Belém com Lovejoy se mostram até hoje reticentes a endossar uma suspeita que sempre acompanhou sua pessoa: a de que ele seria um agente da CIA, a agência americana de inteligência e espionagem. Num ponto, porém, quase todos estão de acordo: a sua permanência durante um bom tempo no Brasil, vinculado a uma instituição científica de renome internacional, e a sua ascensão, logo depois, a um cargo tão elevado na estrutura de poder dos Estados Unidos, mostram a importância atribuída ao Brasil - e em especial à Amazônia - pelo governo americano".

O parágrafo seguinte complementava a observação:

"A passagem de Thomas Lovejoy volta a despertar interesse e a suscitar discussões, pelo menos em ambientes fechados, neste momento em que volta ao centro dos debates a cobiça internacional pela Amazônia, uma questão antiga mas sempre atual. Não por acaso, desconfianças semelhantes, embora nunca comprovadas, envolvem ainda hoje outros pesquisadores norte-americanos que estão em atividade no Brasil. Pode haver - e provavelmente há - algo de exagerado nessas versões, mas elas circulam em áreas restritas dos meios acadêmicos".

Embora, como de regra, os espantos, perplexidades e indignações tenham sido recolhidos ao foro íntimo, a matéria de O Liberal deveria ter levado os interessados a consumar o debate que tentaram organizar, a partir das polêmicas declarações de MacGrath, mas que acabaram cancelando.

Thomas Lovejoy é outro personagem polêmico. Primeiro, por ser um estrangeiro (e, sobretudo, um americano) com largo trânsito no Brasil. Segundo, por ter conseguido passar do universo acadêmico para um satélite do poder - no caso, uma consultoria a Bill Clinton na Casa Branca - sem perder a vinculação científica. Uma vez Clinton fora da presidência, Lovejoy, que antes havia dirigido o mundialmente famoso Instituto Smithsonian, voltou às suas pesquisas com a mesma desenvoltura.

Seria ele um Indiana Jones ou, mais especificamente, um agente da CIA, como sussurram algumas pessoas, transformadas em fontes anônimas - mas com crédito reconhecido - pela matéria de Frank Siqueira?

Ele próprio diz que o assunto "voltou à tona nos últimos dias, com poder ainda maior de sedução, depois das denúncias, formuladas por delegados da Polícia Federal, sobre a suposta ingerência dos serviços secretos e policiais dos Estados Unidos no Brasil". Embora "ainda não totalmente esclarecidos, inclusive no tocante às suas graves implicações institucionais", os fatos contidos nas denúncias que o jornalista ecoou "foram e vêm sendo relacionadas com outra questão que preocupa bastante a comunidade científica brasileira: a atuação de técnicos americanos em quase todos os grandes centros nacionais de pesquisa científica, num regime de compartilhamento de informações que nem sempre é cumprido nos dois sentidos".

A preocupação é procedente e a apuração dos fatos deve ser feita com a urgência e o rigor que a gravidade da especulação autoriza. Mas recomenda a inteligência e o bom senso que não se inventem fantasmas ao meio-dia e não se sigam delírios geopolíticos para que a atividade clandestina, a pirataria, a espionagem, a atividade prejudicial ao país e a ilegalidade em geral, sendo combatidas eficientemente, não sirvam de espantalhos a prejudicar a cooperação científica, sem a qual a Amazônia, beneficiária da solidariedade do saber universal, não conseguirá ajustar sua agenda ao tempo histórico. Do mesmo país que nos espolia através de seu grande capital podem sair ferramentas contra essa situação de suas instituições científicas sérias, ou de gente de valor que nelas existe.

Jornalistas já ouviram fontes que sustentam denúncias como as que Frank Siqueira abrigou na sua matéria. Até já receberam papéis em abono dessas teses. Sendo jornalistas sérios, independentes e comprometidos com seu ofício, se não passaram em frente o material acumulado é porque ele não é suficientemente consistente para dar respaldo a reportagens. Sendo um desses jornalistas (conheço vários outros que se declaram em situação semelhante à minha), não me senti autorizado a escrever o que o colega de O Liberal publicou. Acho a matéria de Frank tão inconsistente quanto a de Larry Rohter sobre o alcoolismo de Lula.

Lula bebe. É verdade que bebe muito, às vezes. Está comprovado que em algumas ocasiões se comportou inadequadamente (cito uma delas nesta edição). Mas ninguém, até hoje, documentou algum ato de governo por ele produzido sob o efeito de embriaguês. Uma matéria de denúncia séria teria que reconstituir pelo menos um momento fechado atestando a relação de causa-e-efeito do álcool.

Da mesma maneira, Lovejoy é estrangeiro, tem tido atuação intensa na Amazônia, nem sempre em rigorosa paridade entre a instituição estrangeira à qual pertence e a nacional a que se associou, tem nexos extra-academia e mexe alguns barbantes do teatro de marionetes do poder. Mas daí a ser agente da CIA vai a distância da prova ou, pelo menos, da evidência que legalmente (e logicamente) a supre. Se há essa prova, eu não consegui ter acesso a ela. Nem eu, nem outro jornalista que esteja interessado no assunto. Nem Frank Siqueira, que, ainda assim, decidiu passar ao público meras especulações protegidas pelo anonimato da fonte.

Neste momento meu computador está cheio de mensagens apontando Larry Rohter como agente da CIA. A denúncia, a partir do libelo de uma professora universitária de Brasília na internet, se sustenta em vários pontos. Analisados e checados, eles são pontos de partida para a apuração, uma pauta, nunca um ponto de chegada, uma conclusão. O chamado jornalismo de investigação consiste em submeter as informações a testes de consistência (documental e testemunhal) e só passá-los em frente quando se pode responder por eles. Nas páginas de jornal ou em juízo.

Um princípio elementar de direito, segundo o qual todos são inocentes até prova em contrário, garantindo-lhes o devido processo legal e o contraditório (sem o qual não terão a legítima ampla defesa), se aplica completamente ao jornalismo. Mas Larry Rohter não o aplicou. Está sendo vítima, portanto, de seu próprio veneno. Lovejoy está na mesma condição - e sequer fez uso do veneno. Acusá-lo de usar sua condição de cientista, tão respeitável até agora que tem publicado artigos importantes ao lado de estrangeiros pelos quais nutro profundo respeito (como Ghillean Prance, do Kew Garden, de Londres, a quem tanto devemos em conhecimentos e divulgação), é algo tão sério que exigiria mais responsabilidade, aquela dose de responsabilidade que se deve ter quando está em jogo a honra, a reputação e a dignidade alheia.

Espero que no dia que um desses estrangeiros (ou mesmo nacionais) for desmascarado como espião ou coisa que o valha (o que é plenamente possível, dada a vastidão dos interesses e das atuações escusas na Amazônia), eu possa ser o primeiro a fazer a denúncia do fato. Ou, se "furado" pela concorrência, possa aplaudir a façanha do rival. O que ainda não é o caso. Infelizmente.

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