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Estradas ilegais proliferam na Amazonia

OESP, Geral, p.A27
04 de out de 2004

Estradas ilegais proliferam em plena Amazônia
Elas não constam nos mapas, mas somam mais de 20 mil quilômetros, segundo ONG Imazon
Eduardo Nunomura
Experimente abrir um atlas rodoviário na página do Pará. Com paciência, encontre Novo Progresso, um dos primeiros municípios ao norte de Mato Grosso na Rodovia Cuiabá-Santarém, a BR-163. Pois é desse ponto que parte uma estrada de 120 quilômetros. Ela não está no mapa. Nem outras duas menores que se ramificam a partir dessa cidade. Mas as três existem. Ao longo da BR-163, esse tipo de caminho não pára de surgir por ação de madeireiros. As estradas ilegais já somam quase 21 mil quilômetros.
O mapa ao lado mostra a dimensão atual das chamadas estradas endógenas no centro-oeste do Pará. A BR-163 poderia ser comparada à aorta, a maior artéria do corpo humano. Essas rodovias não-oficiais seriam as artérias menores. Na última década, elas têm sido criadas pelos madeireiros como forma de invadir a floresta, explorá-la ilegalmente e conseguir escoar o produto rapidamente. A partir de imagens de satélite, a ONG Imazon detectou que esse fenômeno já atingiu um nível alarmante.
Em 1991, as estradas endógenas somavam 5.042 quilômetros. Quatro anos depois, eram 8.679 quilômetros. Em 2001, passaram a 20.796 quilômetros. Esse crescimento acelerado tem explicações, segundo o pesquisador do Imazon Adalberto Veríssimo. Nos anos 80 e até meados dos 90, elas foram abertas por madeireiros ávidos pelo mogno, o "ouro verde". Além da exploração predatória, outros vilões passaram a atuar: a grilagem de terras e a expectativa de asfaltamento da BR-163.
E uma coisa ruim leva a outra ainda pior. A abertura de estradas ilegais tem estimulado a exploração predatória de madeira, os conflitos agrários, a invasão de áreas florestais ou indígenas e as queimadas.
Benfeitorias - "Os madeireiros abrem a estrada para tirar as árvores e depois a cobrança vem para a prefeitura mantê-la", o prefeito de Novo Progresso, Juscelino Alves Rodrigues (PSDB). Mais de 80% da economia desse município de 31 mil habitantes depende da exploração florestal. No entorno da cidade, são mais de 120 madeireiras. "Todo brasileiro que chega aqui se sente dono desse espaço chamado Brasil." E, como "donos", cobram melhorias. Rodrigues constrói agora uma escola rural às margens de uma rota ilegal e a 25 quilômetros da sede municipal.
As terras indígenas e de conservação acabam bloqueando o avanço das estradas endógenas. Segundo o Imazon, nas áreas devolutas elas avançam a uma velocidade duas a três vezes maior, se comparadas com as áreas protegidas.
Entre a BR-163 e o Rio Xingu fica a maior estrada endógena do centro-oeste do Pará, com 215 quilômetros. Próximo a Novo Progresso, parte a "Rodovia do Ouro", que tem 180 quilômetros e foi aberta pelos garimpeiros nos anos 80.
Depois, com a escassez do metal precioso, passou a ser utilizada, e alargada, pelos madeireiros. Santarém, São Félix do Xingu e Novo Progresso são as cidades onde o fenômeno foi mais intenso.
A partir desse estudo, o Imazon iniciou um trabalho que vai identificar o número e a extensão de estradas endógenas para toda a Amazônia. O objetivo é verificar como tem ocorrido a ocupação desordenada, localizando pontos mais críticos. Para a ONG, o governo já poderia estar fiscalizando a abertura das rodovias ilegais e punindo os infratores. Ao mesmo tempo, deveria fazer a regularização fundiária, evitando que a especulação aumentasse desenfreadamente.

OESP, 04/10/2004, p. A27

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