O Globo, Economia, p. 28
Autor: KRÄUTLER, Erwin
11 de Abr de 2010
Estão prometendo o paraíso. Não entro nessa
Corpo a Corpo
Erwin Kräutler
O bispo da prelazia do Xingu, dom Erwin Kräutler, austríaco naturalizado brasileiro, ganhou fama por denunciar madeireiros, mas desde os anos 70 luta também contra a construção da Usina de Belo Monte.
Depois de denunciar a obra à ONU e a celebridades, ele finalmente levará sua reclamação nesta semana ao papa Bento XVI.
O Globo: Porque o senhor é contrário à usina?
Erwin Kräutler: Desde que começaram os estudos sou contra, pois Belo Monte não será aquilo que eles estão falando. Belo Monte não será apenas uma barragem. O Xingu não tem condições de fazer girar as turbinas o ano inteiro. Isso é cientificamente comprovado.
Uma vez feita a primeira barragem, vem a segunda, a terceira e a quarta. Eles estão prometendo o paraíso na terra para esse povo.
Não entro nessa.
Mas o governo garante que todos serão indenizados e os impactos serão mitigados.
Kraäutler: Eu sou muito incrédulo. O próprio presidente Lula me afirmou pessoalmente que o Brasil tem uma dívida com os atingidos por barragens. A segunda coisa que disse é que não ia empurrar essa usina goela abaixo de quem quer que seja. A terceira coisa é que não vai repetir a insanidade de outros projetos. A quarta coisa é que o projeto só será realizado se for vantagem para todos. Mas agora diz que tem que sair custe o que custar.
O senhor tentou o diálogo proposto pelo governo?
Kraäutler: O presidente do Ibama me pediu uma audiência. Agendamos para o dia 3 de fevereiro em Brasilia. Mas no dia 1o, foi publicada a licença prévia (para o leilão) e fiquei pasmo. Minha primeira reação foi dizer que não queria mais papo. Depois, mudei de ideia.
Mas as promessas estão escritas em um documento público. Se não cumprirem, podese ir à Justiça.
Kraäutler: Mas aí não adianta mais, pois é irreversível. Uma vez feito, não tem volta.
O senhor vai levar sua reclamação ao papa Bento XVI?
Kraäutler: Estarei em Roma, num encontro de praxe dos bispos com o papa. Vou ter 15 minutos de audiência particular. Vou dizer que estamos lutando a favor do povo da Amazônia.
Vou falar, mas não posso esperar que o papa faça logo um discurso falando sobre Belo Monte. Não vai chegar a tanto.
O senhor teme conflagração na região?]
Kraäutler: A cidade não tem infraestrutura. Pode vir gente boa para cá, mas também virão aventureiros. (G.P.)
O Globo, 11/04/2010, Economia, p. 28
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