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Autor: Daniel Pedra
16 de Mar de 2007
Pelo menos 80 crianças indígenas das etnias guarani e kaiwás aguardam vagas para internação no Centro de Recuperação de Crianças Desnutridas, conhecido como Centrinho, em Dourados. Outras 38 crianças - a capacidade máxima de atendimento - de até três anos já estão internadas, sendo que relatório da Funasa (Fundação Nacional de Saúde) aponta desnutrição como causa da morte de sete crianças indígenas guaranis e kaiwás com até dois anos de idade em Mato Grosso do Sul entre janeiro e fevereiro deste ano e 47 mortes por desnutrição desde 2005.
O Centrinho é administrado pelo hospital da Missão Evangélica Kaiwá, na entrada de reserva indígena de Dourados. No hospital, o menino Rogério Vilhalva, de um ano e dois meses, que morreu no domingo passado e foi a sétima morte no ano, foi internado no último dia 6 com um quadro de desnutrição moderada.
"Nós temos 38 crianças internadas, mas 80 devem estar precisando [de internação]", disse o médico Antônio Aurélio Teixeira de Carvalho Neto. Segundo ele, as crianças vêm da região sul do Estado, onde vivem cerca de 30 mil índios guaranis e kaiwás.
Segundo o médico, há também crianças em famílias com problemas com alcoolismo e conflitos culturais. "Os pais acham que são maldição", afirmou ele, referindo-se aos indiozinhos nascidos com fissura labiopalatal.
No Centrinho, a maioria das crianças volta a ganhar peso em até 60 dias e o médico Zelick Trajber, da Funasa (Fundação Nacional de Saúde), afirma, porém, que algumas delas podem ficar internadas até seis meses.
Embora possam receber alta, essas crianças permanecem no Centrinho porque a Funasa teme que, nas aldeias, as crianças voltem a ficar desnutridas. Em 2006, a Funasa atendeu 1.041 crianças desnutridas no Estado, sendo que 79 com desnutrição grave.
Genocídio
Ontem, o presidente da OAB/MS (Ordem dos Advogados do Brasil em Mato Grosso do Sul), Fábio Trad, classificou de genocídio as constantes mortes ocorridas entre os indígenas do Estado, principalmente as provocadas por desnutrição. O que está em curso com essa mortandade endêmica de índios é, na verdade, um genocídio, que lança na cara da sociedade a acusação, até agora irrespondível, de criminosa omissão. De certa forma há uma cumplicidade com a insensibilidade à vida do próximo, criticou.
Qual a diferença entre a morte de João Hélio e a morte por fome de uma criança indígena?, questionou, referindo-se ao assassinato do menor João Hélio Fernandes Vieites, morto ao ser arrastado por cerca de sete quilômetros por assaltantes, no Rio de Janeiro. Por quê só há mobilização em relação a João Hélio? O que está havendo? Discriminação até na morte?, indagou.
Para Fábio Trad, em qualquer país do mundo que tenha o mínimo de respeito com a sua história e com o seu povo, a situação que acomete atualmente os indígenas de Mato Grosso do Sul justificaria uma mobilização em massa da sociedade e do poder público para uma solução imediata. Indagado sobre a quem caberia a tomada das providências que se fazem necessárias, o presidente da OAB-MS destacou que o que menos importa no momento é saber se a responsabilidade é federal ou estadual no enfrentamento do problema, pois o índio, como ser humano que é, não pode ser tratado como um objeto da burocracia insensível do poder.
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