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A esquerda contra a ex-guerrilheira

OESP, Vida, p. A24
Autor: CORRÊA, Marcos Sá
29 de Set de 2005

A esquerda contra a ex-guerrilheira

Marcos Sá Corrêa

Não há dúvida sobre os rumos da esquerda no governo Lula que resista a um cafezinho, em Curitiba, com o advogado Rafael Ferreira Filippin. Ele tem 30 anos, cabelo preso por elástico em rabo de cavalo e barba crescida, herança da viagem que fez para a Bolívia, três anos atrás, para descobrir o que iria fazer com a vida e o diploma. Ao sair, deixou para trás uma crise doméstica e um emprego onde advogava para exportadores de soja no Paraná. Na volta, 33 dias depois, tinha virado "latino-americano", como se atuasse numa pré-estréia do filme Diários de Motocicleta, de Walter Salles.
Na prática, ele largou o emprego e foi trabalhar de graça para a Liga Ambiental, uma ONG paranaense que vive com "um metabolismo basal" de R$ 320 por mês, segundo seu coordenador institucional, o biólogo Tom Grando. A ONG tem 16 sócios. Cada um lhe dá R$ 20 mensais. E isso basta, porque, pelas contas de Grando, as despesas não passam de R$ 180 para pagar o contador, mais R$ 25 do acesso à internet e R$ 40, em média, de telefone e correio.
A ONG existe há quase 15 anos. Mas, em 2002, trocou de mãos e de alvo, transformando-se numa trincheira contra os projetos que querem fazer do Rio Tibagi um canal de barragens a serviço de hidrelétricas. Por trás da virada estavam o próprio Grando, que na vida acadêmica é ictiólogo, e o ornitólogo Marcos Bornschein. Em meados da década de 90, eles foram contratados para fazer os estudos de impacto ambiental de uma represa no Tibagi. E com ela aprenderam que esses relatórios são feitos para esconder problemas, em vez de preveni-los.
Para entrar na rinha contra governos e empresas, a Liga precisava de um advogado capaz de acuar os projetos na Justiça. E foi buscar Filippin, que ia então a meio caminho entre a política estudantil e, como ele diz, "o agronegócio". Em outras palavras, as suas, estava naquela etapa "em que a gente começa a ganhar bem e comprar coisas que antes só via na televisão".
Ele deixou a firma pelos planos de ser um dia professor numa cidade qualquer à beira do Tibagi, "onde possa pendurar uma rede entre duas árvores". E saiu disparando processos contra os projetos de aproveitamento do rio, que passava quase sem ser notado por Cambé, onde nasceu, e hoje atravessa o centro de seu currículo. São, afinal, 616 quilômetros de um curso que costura no Paraná a mata atlântica da beira do planalto litorâneo aos campos gerais do interior, passando por florestas de araucárias e manchas de cerrado. De cada paisagem original inventariada no Paraná Biodiversidade, um programa do governo estadual com o Banco Mundial para salvar o que ainda não sumiu do mapa, o Tibagi tem uma amostra encaixada entre seus barrancos. É nesse filé que as hidrelétricas andam de olho.
Filippin sentou-se numa cadeira no Conselho de Recursos Hídricos do Paraná, decorou os regimentos e passou a fisgar projetos nas águas turvas onde eles costumam nadar com mais desenvoltura. Arrancou de órgãos públicos, como a Superintendência de Desenvolvimento de Recursos Hídricos, a confissão de que há barragens que passaram às consultas públicas sem passar pela outorga do uso da água, o que é ilegal. Desmanchou pilhas de relatórios que se escoravam uns nos outros, como se todos os rios dessem no mesmo. E emplacou ações contra a falsificação de documentos públicos. Tudo para chegar a um roteiro de ações públicas que force as hidrelétricas a cumprirem a lei.
Mas não deixa de ser um sinal dos tempos encontrar um esquerdista de carteirinha do lado oposto ao que a política energética da ex-guerrilheira Dilma Roussef, chefe da Casa Civil, abençoa com mão de ferro.

Marcos Sá Corrêa é jornalista e editor do site O Eco (www.oeco.com.br)

OESP, 29/09/2005, Vida, p. A24

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