OESP, Geral, p. A9
Autor: JENKINS, Simons
12 de Jan de 2004
Esqueça os bichos. É nossa sobrevivência que conta
Prever "fim do mundo" não adianta; o que vale são ações como a de Rondon na Amazônia
Simons Jenkins
The Times
Quando era um jovem repórter, uma vez fui enviado para cobrir uma conferência sobre "a próxima era do gelo". Foi sensacional. Os cientistas estavam prevendo que o atual "período interglacial holocênico" estava chegando ao fim. Dentro de 10 mil anos, mudanças na órbita e na rotação axial da Terra iriam desviar a Corrente do Golfo.
Isso mergulharia a massa de terra contínua do norte no gelo e levaria a um "massacre das espécies". Foi uma excelente manchete. A ciência muda mas não as manchetes. O medo de morrer congelado transformou-se no medo de fritar.
Ontem, uma histeria de cientistas previu que 1 milhão de espécies, um quarto de todos os animais e plantas, "poderá estar ameaçado de extinção" em 2050.
"Computadores avançados" sugeriram que algo chamado "ação", presumivelmente envolvendo cientistas, talvez possa salvar "até metade" dessas espécies, embora mesmo os sobreviventes "talvez" corram perigos decorrentes de "ameaças não especificadas".
Como resultado, o cruza-bico escocês talvez tenha que migrar para a Islândia. "Cerca de 54%" das borboletas australianas estão também "correndo perigo". De 15% a 37% exatamente de todas as espécies globais "poderão ser aniquiladas". Não é de estranhar que os 19 cientistas responsáveis por esse lixo estivessem em estado "de choque".
Sempre que vejo as palavras "cerca de", "talvez" ou "sob ameaça", sinto cheiro de ciência ladina. Todas as tentativas para alterar o clima essencialmente caótico da Terra são fúteis e arrogantes. Kyoto foi um tratado religioso e não científico.
O clima do mundo se altera a cada século. Só que as previsões mudam a cada ano. Só uma coisa é certa: não há falta de subsídios nem de ingressos para conferências para prever o fim do mundo. Quando o cientista dinamarquês, Bjorn Lomborg, atacou os mercadores do juízo final seus colegas de profissão o declaram culpado de "desonestidade científica".
Espécies biológicas surgiram e desapareceram desde o começo dos tempos. Se a Terra maldosamente se recusar a se inclinar estamos liquidados de qualquer forma. Nesse ínterim, o aquecimento certamente deve ser bom para alguns de nós. Não vejo nenhuma ameaça de extinção para o red kite (milano real), que agora está fervilhando através do País de Gales. Certamente vou sentir falta da prótea "em perigo" da África do Sul e mesmo do "estorninho sem pintas".
Mas conferências não vão salvá-los. As mudanças na biodiversidade são um subproduto da forma como as pessoas usam a terra. Os seres humanos deveriam primeiro se preocupar com sua própria espécie e deixar a biologia se adaptar de acordo.
Devido a isso, meu texto refere-se a um dos livros mais pungentes e mesmo assim animadores que já li em muito tempo. Em 1961, o jovem explorador John Hemming juntou-se a uma expedição da Sociedade Geográfica Real para os afluentes do Amazonas. Penetrando numa área da selva do Iriri, onde acreditava-se que não existiam nativos, ele e seus colegas fizeram contato com uma tribo desconhecida chamada Kreen-Akrore. Membros da tribo mataram o líder da expedição, Richard Mason, com setas envenenadas e clavas.
Hemming chegou ao posto de diretor da Sociedade Geográfica Real e passou sua vida seguindo o destino dos índios amazonenses. Ele começou seu magistral Red Gold em 1971, descrevendo os primeiros encontros com esses povos da Idade da Pedra. Agora veio a seqüência, Die If You Must (Morrer se for Preciso), que traz a história até os dias de hoje. Como um registro da luta da humanidade contra a humanidade pela ocupação do planeta é titânico, travada sob a copa das árvores da grande floresta amazônica. Sua conclusão é de esperança.
A exploração da Amazônia foi diferente daquelas da América do Norte, África ou Australásia. Nessas regiões, o massacre, doenças e escravidão reduziram as populações nativos a servos ou pilhas de ossos. Isso também ocorreu no Brasil. Mas a vastidão impenetrável da Bacia Amazônica preservou um resíduo intocado dos habitantes originais até a era moderna. Mesmo hoje acredita-se que cerca de 40 tribos permaneçam "intocadas" na Amazônia, a terra incógnita mais extensa e mais fascinante do que qualquer outro lugar da Terra.
A população indígena caiu de hipotéticos 2,5 milhões nos anos 1500 para apenas 100 mil na década de 1970. O advento do homem branco trouxe sarampo, varíola, gripe e malária, matando tribos inteiras. A busca por borracha, ouro e mogno destruíram a economia social. Escravizou milhares dos índios que sobreviveram às doenças. Estradas construídas com ajuda do Banco Mundial conduziram ao confisco de terras e desflorestamento. A corrupção dos governos impediu tentativas de proteção da população nativa. A extinção da civilização amazônica até o final do século 20 parecia inevitável.
Eu tinha presumido que a história seria uma história de venalidade portuguesa/brasileira confrontada por uma meia dúzia de benfeitores estrangeiros. Não é assim. Indubitavelmente, os estrangeiros defenderam a proteção dos nativos, mais recentemente através da Survival International. O papel deles no resgate da maior tribo amazônica, os ianomâmi, do genocídio incipiente gera um clímax dramático no livro de Hemming.
Mas os verdadeiros heróis são brasileiros. São jovens soldados, médicos e antropólogos que, desde o final do século 19, compreenderam que eram depositários de uma notável civilização paralela. Esses sertanistas consideraram os índios como os donos de direito da sua terra, necessitados de proteção e não de "pacificação". Muitos eram positivistas anticatólicos que se opunham às campanhas missionárias cristãs dos jesuítas.
O ídolo deles foi Cândido Rondon, um militar que liderou a primeira expedição à terra da tribo Bororó perto da fronteira com a Bolívia e fundou o Serviço de Proteção ao Índio em 1910. Rondon tratava todas as tribos como soberanas e sempre partia se sentisse que não era bem-vindo. O lema dele para seus homens era: "Morrer, se preciso, matar, nunca". Um dínamo afligido pela malária de energia fenomenal, Rondon foi para a Amazônia o que Linvingstone foi para a África.
OESP, 12/01/2004, Geral, p. A9
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