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À espera da norma

O Globo, Razão Social, p. 12-13
01 de Jun de 2010

À espera da norma
Regras para um mundo mais sustentável será editada este ano

Silvia Torikachvili
Especial para o Razão Social

A ISO 26000, norma internacional de responsabilidade social, estará concluída até o final do ano. O novo guia de diretrizes entrará em vigor imediatamente, mas sem característica de certificação. É uma norma voluntária e, para funcionar, contará apenas com o compromisso dos stakeholders.
O documento também não tem viés judicial e só valerá mesmo para quem quiser cumprir.

- O que vai garantir força à norma será a pressão das partes envolvidas - disse Ana Paula Grether, representante do segmento das indústrias na delegação brasileira da ISO 26000.
O grupo de trabalho responsável pela elaboração da nova ISO é liderado conjuntamente pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) e pelo Instituto Sueco de Normatização (SIS Swedish Standards Institute). Embora dezenas de países estejam representados na construção da norma internacional de responsabilidade social, o comando do grupo é composto pela parceria entre Brasil e Suécia.
Além de empresas, trabalhadores, consumidores, governo, organizações não governamentais e serviços representam as partes envolvidas.
Ana Paula Grether, responsável também pelo Balanço Social da Petrobras, acredita que a ISO 26000 representará um novo paradigma para as organizações: - Não é imposição, mas vai virar padrão - prevê.
A nova ISO começou a ser construída há oito anos. Desde 2002, quando um comitê de consumidores decidiu pela criação da norma, até ser acertada a primeira reunião, em Salvador (BA), em 2005, e depois em Lisboa, em 2006, foram oito reuniões internacionais e 13 seminários nacionais.
Cerca de 400 especialistas de 90 países, além de 40 redes internacionais trataram de temas, definições e orientações para a versão final da norma que tem, até agora, 120 páginas.
No último 4 de maio, coordenadores da Petrobras e da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABTN), os parceiros nacionais da norma, reuniram representantes de todas as partes envolvidas para discutirem os sete temas: direitos humanos, práticas de trabalho, meio ambiente, governança organizacional, práticas leais de operação, questão dos consumidores, envolvimento comunitário e orientação sobre como integrar responsabilidade social na organização.
Críticas, sugestões e resoluções da delegação brasileira foram levadas ao último seminário realizado em Copenhague entre 15 e 21 de maio.
Os desafios para a aplicação da norma, as idiossincrasias, as diferenças culturais continuam como pontos de discussão num documento que tem como objetivo nortear o comportamento socialmente responsável no mundo todo.

- Espera-se uma relação mais transparente, mais ética e com menos corrupção - disse Ana Paula - A norma vai servir como base para as empresas planejarem seu comportamento e exigir que seus parceiros tenham atuação compatível.
O que motiva a implementação da norma e o que desanima as empresas foram assuntos da discussão final entre os grupos. A divulgação, o despertar de necessidades e a descoberta de uma ferramenta multiuso que funcione em cada sociedade são os desafios localizados por Aron Belinky, presidente do GAO (Grupo de Articulação das ONGs Brasileiras).
Pelo segmento dos consumidores, Adriana Charoux, do Idec, disse que as pessoas precisam se sentir mais protagonistas da mudança. Além disso, diz, são necessárias ferramentas de multiaplicação.

- É preciso facilitar para que todas as pessoas, organizações e empresas tenham acesso e poder de aplicação.
A adequação da NBR 16000 a ISO 26000 também foi discutida. Ao contrário da nova ISO, a ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas) encaminhou a NBR 16001 como norma de especificação, passível de auditoria ou certificação. Segundo a norma 16000, os públicos envolvidos devem definir suas políticas de responsabilidade social e, a partir disso, criar formas de planejamento, implementação, comunicação, documentação, medição, análise e melhorias. Essas práticas ainda precisam ser adaptadas à ISO 26000.
Para as indústrias, a preocupação é definir os parâmetros para o diálogo.
Para o governo, a motivação é uma possibilidade de compartilhamento com diferentes setores da sociedade.
Implementar políticas públicas também faz parte das preocupações dos representantes governamentais; a dúvida é a maneira como fazer.
A complexidade e o tamanho da redação da norma abririam espaço para a atuação das consultorias, conforme percepção de alguns observadores. O fato de a norma não ser obrigatória também pode ser empecilho, mas os participantes contam com a vantagem de que a aplicação garantiria credibilidade às organizações.
Para Ana Paula Grether, há otimismo em relação à ISO 26000.

- O Brasil teve durante anos uma das economias mais desiguais do mundo e agora quer se desenvolver com inclusão social - disse.
Mais do que qualquer delegação que estará na redação final da norma, a sociedade brasileira precisa ser mobilizada, segundo Ana Paula.

- O Brasil deixou de ser país em desenvolvimento para ser emergente; mas não queremos crescimento predatório - disse ela.

O que é, afinal, a ISO 26000
Certificação: A norma tem diretrizes, mas não tem a certificação como propósito
A quem interessa: Aplicável a empresas, governo, organizações sociais de qualquer porte
Qual o impacto: Não reduz a autoridade governamental
Qual sua abrangência: Não será conflitante com tratados e convenções já existentes
Qual sua função: Promoverá a sensibilização de todos para a responsabilidade social
Sobre o que trata: Em final de construção, aborda questões como governança organizacional, direitos humanos, práticas do trabalho, meio ambiente, práticas de operação, questões do consumidor, envolvimento e desenvolvimento da comunidade

O que fazer para conseguir

Maior exigência: Estar de acordo com as normas internacionais de comportamento
Ética nos negócios: Adotar comportamento ético e transparente
Olhar para a cadeia: Não descuidar das expectativas de todos os públicos com os quais se relaciona
Responsabilidade ser responsável pelos impactos que suas atividades provocam na sociedade e no meio ambiente
Cuidados gerais: Contribuir com o desenvolvimento sustentável e com o bem-estar da sociedade

O Globo, 01/06/2010, Razão Social, p. 12-13

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