OESP, Geral, p. A11
08 de Abr de 2004
Espécies mais ameaçadas vivem fora de áreas de proteção, diz pesquisa
Maioria dos parques está em regiões frias ou desérticas, onde a biodiversidade não é rica
Mais de 300 das mais raras e exóticas criaturas do planeta podem desaparecer nas próximas décadas porque os esforços globais para preservá-las são inadequados. Das 3.896 espécies ameaçadas, 20% não têm nenhuma proteção. Entre elas, estão as raposas voadoras das ilhas Comoro, as araras-de-orelha-amarela dos Andes colombianos e as raríssimas aves-do-paraíso.
A pesquisa, publicada na edição desta semana da Nature, leva assinatura de cientistas de nove países, entre eles do Brasil. De acordo com eles, 11,5% da área do planeta é protegida, mas a maioria em países de clima desértico ou frio, onde a biodiversidade é bem menor que nas regiões tropicais. Para os pesquisadores, 12% das espécies ameaçadas vivem em áreas que não são parques nem reservas, onde poderiam ter alguma proteção contra atividades humanas tais como extração de madeira, mineração ou caça. "As áreas de proteção estão nos lugares errados. Há grandes parques nacionais no Alaska, mas poucos em áreas ricas como Flórida ou Havaí", exemplifica Sturt Pimm, professor de ecologia da Universidade de Duke, ao comentar o trabalho.
Risco nos trópicos - "O estudo demonstra que as áreas protegidas são incompletas", disse a pesquisadora Ana Rodrigues, da Conservation International e uma das autoras do estudo. As áreas sem cobertura são principalmente ilhas e regiões montanhosas da América Central e Caribe, África Ocidental e Oriental, Índia, Mianmar e a região do Pacífico. Cerca de 150 espécies ameaçadas de mamíferos, 411 de anfíbios, 232 de aves e 12 de tartarugas vivem nessas áreas. "A preservação nessas regiões precisa ser um projeto global", diz Ana.
Os pesquisadores usaram dados globais, coletados por milhares de cientistas, sobre áreas de proteção e espécies ameaçadas para identificar as falhas nas políticas de proteção e preservação. Ao todo, 11.633 espécies e 100 mil áreas de proteção foram analisadas. "Nós cruzamos os dados e nos concentramos apenas nas espécies sem nenhuma proteção. Mesmo assim, nosso número ainda subestima a gravidade da situação", afirma a pesquisadora.
A estratégia global de conservação, que previa uma cobertura de 10% até 2000, foi traçada em 1992, durante o Congresso Mundial de Parques. A meta foi superada, mas os conservacionistas acreditam que a análise fornece evidências de que são necessárias mais áreas de preservação. "Proteger mais de 10% da superfície da terra é uma conquista", diz o brasileiro Gustavo Fonseca, vice-presidente executivo da Conservation International. "Mas este estudo mostra que não importa o quão atraentes essas metas porcentuais podem parecer do ponto de vista político, devemos centrar nossos esforços naqueles locais onde se concentram as espécies ameaçadas", afirma.
Craig Hilton-Taylor, biólogo de Cambridge associado à World Conservation Union, classificou o estudo de "assustador". Isso porque ele nem sequer levou em conta milhares de espécies, como pequenos mamíferos, peixes de água doce, plantas e invertebrados. "Temos um longo caminho a percorrer antes que possamos dizer que realmente estamos preservando a biodiversidade do planeta", afirmou.
Se nada for feito, as cem aves-do-paraíso encontradas apenas na Ilha Sangihe, na Indonésia, e as 150 araras-de-orelha-amarela da Colômbia podem desaparecer. (Reuters e AP)
OESP, 08/04/2004, Geral, p. A11
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