O Globo, Economia, p. 36
13 de Jan de 2013
Especialistas em energia criticam falta de planejamento do governo
Para professor, devido à escassez, redução de tarifa deveria ser revista
RAMONA ORDOÑEZ
ramona@oglobo.com.br
A escassez de energia no país, devido ao baixo nível dos reservatórios, mostra que faltou planejamento ao governo, dizem especialistas. Eles avaliam que o governo errou ao anunciar, no ano passado, que haveria uma redução média de 20% nas tarifas ao consumidor, pois, naquele momento, já havia sinais de que o país poderia ter dificuldades com o nível dos reservatórios das usinas hidrelétricas. O acionamento das térmicas pode fazer com que a diminuição tarifária este ano não seja tão grande quanto à prometida pela presidente Dilma Rousseff.
E num momento de escassez de energia, o governo não deveria estimular ainda mais o consumo com a redução nas tarifas. O alerta é do professor Edmilson Moutinho dos Santos, coordenador do programa de pós-graduação em Energia do Instituto de Eletrotécnica e Energia da USP. Para o especialista, apesar do alto preço político que isso representaria, Dilma deveria rever sua decisão. Ele destacou que, mesmo sem o estímulo de corte de tarifas, enquanto o Produto Interno Bruto (PIB) deve ter crescido cerca de 1% no ano passado, o consumo de energia subiu 4% (3,6% de janeiro a novembro).
- É um absurdo estimularmos o consumo que já vem crescendo a taxas tão altas numa economia a ritmo lento. A área de planejamento do governo já falhou lá atrás, quando já tinha indicações de que a hidrologia seria ruim e não alertou a presidente Dilma. Faltou planejamento energético - afirmou.
Usinas com reservatórios, uma saída
A advogada Adriana Coli Pedreira, especialista em energia do escritório Siqueira Castro Advogados e que é assessora técnica do Fórum de Meio Ambiente do Setor Elétrico, também criticou como o planejamento é feito no Brasil. Segundo ela, o planejamento hoje é indicativo do que é preciso fazer para o segmento. Mas deveria ser determinante para garantir a execução de projetos prioritários.
- Planejamento indicativo mostra apenas a possibilidade e não tem segurança alguma de os projetos serem feitos. Já no planejamento determinante o governo destinará recursos para aqueles projetos considerados prioritários.
O professor Moutinho disse estar preocupado com o abastecimento de energia já neste ano, pois apesar de o país dispor de cerca de 15 mil megawatts (MW) de energia termelétrica, que não existiam em 2001, quando houve o racionamento, a situação de alguns reservatórios está até pior do que naquela época, como é o caso da usina de Furnas, no Rio Grande, em Minas Gerais, cujo nível do reservatório está em apenas 12,7%.
- É uma loucura, uma irresponsabilidade reduzir em 20% as tarifas neste momento. É preciso ter coragem e assumir. Se não fizer isso, tem que rezar para chover muito pois a situação é muito preocupante - disse.
Para Moutinho, houve uma falha no planejamento, que não previu o problema com antecedência. Assim, apesar de todas as medidas adotadas após o racionamento de 2001, a situação atual está semelhante à daquela época.
A situação crítica do sistema elétrico mostra, também segundo o especialista, a necessidade de o país voltar a construir usinas hidrelétricas com reservatórios. Nas últimas duas décadas, principalmente, todas as novas hidrelétricas construídas são a fio d"água, ou seja, sem reservatório, para armazenar água, com menor impacto ambiental.
- Há inúmeras pequenas e médias usinas que poderiam ter reservatórios. Se o país tivesse mais reservatórios a situação estaria menos crítica apesar da seca - destacou Moutinho.
Adriana também considera essencial a discussão da volta de reservatórios em alguns casos, mas existe forte oposição no governo.
O Globo, 13/01/2013, Economia, p. 36
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