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Especialista em locais inóspitos

OESP, Metrópole, p. C6
27 de set de 2009

Especialista em locais inóspitos
Depois de construir casa até na Antártida, Cristina Engel desenvolve ferramenta para medir sustentabilidade

Valéria França

Uma ferramenta nacional para avaliar a sustentabilidade dos prédios brasileiros está em desenvolvimento na Universidade Federal do Espírito Santo. Será uma espécie de guia, com uma lista dos impactos ambientais, sociais e econômicos provocados pelas construções, acompanhado de soluções. "Plantar árvore na porta de um edifício e captar água da chuva não são medidas suficientes para uma construção ser considerada sustentável", diz a coordenadora do projeto, Cristina Engel Alvarez, de 48 anos, diretora do Centro de Artes da Universidade Federal do Espírito Santo, faculdade que agrega de cursos de Arquitetura a Música.

Apesar de estar acostumada ao caos urbano de sua cidade natal, São Paulo, Cristina virou especialista em construções sustentáveis depois de passar duas décadas levantando casas em lugares inóspitos - como regiões propícias a abalos sísmicos e de situações climáticas extremas, como ventos de 200 km/h, e temperaturas congelantes - sem interferir no meio ambiente.

E o grande laboratório da pesquisadora é a Antártida. "Como lá o impacto é zero, conseguimos testar as consequências sem interferências externas no resultado", diz a arquiteta Ana Dieuzeide Santos Souza, de 27 anos, braço direito de Cristina na elaboração da nova ferramenta, uma das 30 pesquisadoras que trabalham com a arquiteta.

Cristina desembarcou no Polo Sul na década de 80, no início da Estação Comandante Ferraz. Depois da primeira fase, as pesquisas geográficas se expandiram para quatro outras ilhas. É aí que entrou Cristina, projetando o primeiro refúgio brasileiro, Emílio Goeldi, na Ilha Elefante.

"Foi minha primeira brincadeira de Lego", conta. "Eu tinha de dar abrigo para nove pessoas, sete homens e duas mulheres. Projetei uma espécie de trailer, uma caixinha de madeira com apenas 18 metros quadrados, no meio do nada, pintada de verde. "A estrutura de madeira era toda encaixada, formando uma espécie de sanduíche com um preenchimento interno de material isolante. Até hoje me lembro do tamanho de cada uma das peças, de tanto que foram exaustivamente desenhadas."

Como não havia computador, o projeto foi feito à mão. "O dimensionamento do material era um dos desafios. Tudo tinha de ser adaptado aos meios de transporte - no caso, navio e helicóptero. E, como depois seriam carregados nas costas, nada podia ser pesado." Os técnicos teriam apenas um dia para a construção da parte principal da casa, onde a equipe ficaria abrigada até o fim da obra. "A construção foi testada primeiro no continente. Não podemos correr o risco de esquecer um parafuso, pois a loja mais próxima fica a 1 mil quilômetros", diz Cristina. O material foi numerado, para que o helicóptero fizesse o transporte na ordem exata da construção.

Dois meses por ano Cristina praticamente se muda para a Antártida. Na volta, pilota programas espalhados em outras áreas protegidas ambientalmente, caso do Arquipélago São Pedro e São Paulo e do Atol das Rocas. "O atol está na boca de um vulcão com coral ao redor. Não há planos lisos. E o transporte do material da casa é feito por bote. Some isso a milhares de baratas, ratos e caranguejos que habitam a região."

Cristina construiu uma casa elevada, sobre pilotis de canos de PVC. "Eles são lisos e os ratos não conseguem subir", explica a pesquisadora. "Mas tive de colocar uma escada de acesso para os moradores. Para descobrir o tamanho dos degraus, eu e minha equipe testamos durante dias a distância e a altura que um rato típico da região consegue vencer." Cristina só não conseguiu dar jeito nas baratas. "A dica é não guardar lixo em casa."

Enquanto a pesquisadora cuida da construção, outros profissionais se dedicam a projetos de preservação das águas, à coleta de resíduos e à marcação das trilhas. No Atol das Rocas, a louça é lavada com água do mar e as panelas, limpas com areia.

"Quando existe um projeto, é possível construir até mesmo em morro e mangue." Em 2001, ela desenvolveu pesquisas em favelas de Vitória (ES). "Áreas consideradas de risco e de preservação podem abrigar casas seguras que não comprometam o meio ambiente."

Projeto comercial

Mesmo ainda sem uma ferramenta de impacto ambiental nas mãos, Cristina afirma que há muitas maneiras de construir prédios mais adequados ao meio urbano. "O primeiro passo seria projetar sobre pilotis, deixando o térreo livre para áreas verdes, aumentando a luminosidade das ruas e a visão panorâmica." Outras técnicas, como aquecimento solar e uso de energia fotovoltaica (abastecimento de baterias pelo sol), já existem e poderiam ser incluídas em projetos comerciais. "Há muita técnica disponível, mas, para que isso vire uma realidade, é preciso que ecologia e economia virem parceiros."

OESP, 27/09/2009, Metrópole, p. C6

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