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Esgoto e calor sufocam o Velho Chico em Minas

OESP, Vida, p. A30
28 de Out de 2007

Esgoto e calor sufocam o Velho Chico em Minas
Lançamento de material orgânico no rio provoca proliferação de algas e ameaça municípios do Estado

Eduardo Kattah

Há pelo menos dois meses a população ribeirinha do médio São Francisco, no norte de Minas Gerais, tenta se acostumar com a estranha coloração verde das águas e a proliferação de peixes mortos no encontro do Rio São Francisco com um de seus principais afluentes, o Rio das Velhas. O cenário é o reflexo mais visível da maior contaminação de que se tem notícia na bacia por cianobactérias, também conhecidas como algas azuis.

Resultado de uma combinação de poluição e estiagem prolongada, a concentração em níveis elevados das algas obrigou o governo mineiro a determinar, no dia 18, a proibição da atividade pesqueira num trecho de mais de 600 quilômetros dos rios, da região metropolitana de Belo Horizonte até a divisa com a Bahia.

As cianobactérias liberam toxinas que podem causar danos à saúde em caso de ingestão ou contato com as águas. Apesar do nome, quanto maior a contaminação, mais esverdeada fica a água, que também exala forte odor. O fenômeno é monitorado desde 1996, mas, neste ano, segundo a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad), atingiu níveis críticos.

As cianobactérias são microorganismos fotossintetizantes unicelulares, cuja proliferação está ligada ao excesso de luminosidade e aumento da matéria orgânica nos rios. O Rio das Velhas recebe boa parte do esgoto produzido na Grande Belo Horizonte e a seca no norte de Minas levou à redução da vazão dos rios.

O episódio fez recrudescer entre ambientalistas e autoridades do Estado as críticas ao projeto de transposição das águas do São Francisco - cujas obras foram iniciadas pelo governo federal - e a necessidade de enfrentamento do passivo ambiental acumulado no chamado rio "da união nacional".

Para o secretário-executivo do Comitê Gestor de Fiscalização Ambiental Integrada da Semad, Paulo Teodoro Carvalho, a gravidade do problema depende da freqüência de chuvas nas nascentes. "Estamos atravessando uma época em que tinha de estar chovendo e chovendo um bom volume de água. Com isso (a estiagem), a vazão dos rios atingiu níveis mínimos e propicia o aparecimento das algas."

OXIGÊNIO

Na comunidade de Barra do Guaicuí, distrito de Várzea da Palma, pescadores apontam desolados para curumatás, piaus e dourados boiando nas margens. "As cianobactérias, em grande quantidade, disputam o oxigênio com os peixes", explica o biólogo Marcelo de Oliveira Lima, que desenvolve com a população local um projeto de piscicultura em tanques de redes no São Francisco. "Temos agora de rezar, torcer para chover o quanto antes."

A confluência dos rios é a mais afetada. Antes mesmo da proibição da pesca, a Coordenadoria Estadual de Defesa Civil (Cedec) já havia recomendado a suspensão do uso da água dos rios e o consumo de peixes.

Na unidade de saúde local foram registrados quadros de diarréia, vômito e dor de cabeça. A ingestão de peixe contaminado pode ainda trazer complicações para o fígado, como hepatite tóxica. A água contaminada pode causar irritação na pele.

A proibição da pesca atinge 428 quilômetros do São Francisco e 200 quilômetros do Rio das Velhas, até 1o de novembro, quando começa a piracema (época de reprodução dos peixes). Amostras foram encaminhadas para a Universidade Federal do Rio de Janeiro, para avaliar a presença de toxinas. O resultado será divulgado nos próximos dias.

Análise recente da Companhia de Saneamento de Minas (Copasa) indica que a situação é de alerta, com oscilação na contagem de células das algas e alternância de espécies de cianobactérias nos dois rios.

O ponto mais crítico foi constatado no Rio das Velhas, entre os municípios de Jequitibá, Lassance e Várzea da Palma, ao norte de Belo Horizonte. Ali, a ocorrência das cianobactérias é superior ao limite máximo estipulado pelo Ministério da Saúde, de 10 mil células por mililitro de água.

Resultado semelhante foi identificado no Rio São Francisco, nas cidades de Ponto Chique, São Francisco, Januária e Manga, também no norte mineiro. Há alta concentração de cianobactérias, mas o nível de toxicidade é dez vezes menor. Indícios de contaminação também foram detectados na região de Bom Jesus da Lapa, na Bahia.

O governo mineiro afirma que tem feito investimentos significativos nos sistemas de esgotamento sanitário da região, incluindo a construção de uma Estações de Tratamento de Esgoto (ETE). Uma das metas é concluir, até 2010, a despoluição total do Rio das Velhas.

Contaminação muda a vida dos ribeirinhos
Uso da água e a pesca são diretamente afetados; população pede controle mais eficaz

Várzea da Palma

O pescador José Maria Gonçalves do Nascimento, de 39 anos, ainda surpreende-se com a situação em Barra do Guaicuí. Ele conta que, antes da proibição da pesca nos rios, era possível pegar os peixes com a mão. "Eles ficam tontos sem oxigênio e cegos. Catei muito dourado das águas com as mãos. O bicho subia devagar, com o olho branco."

A comunidade possui cerca de 200 pescadores, que exercem a atividade de forma regularizada ("com carteira") ou não ("sem carteira"). Apenas os pescadores regularizados têm direito ao seguro-desemprego de quatro salários mínimos pago pelo governo durante o período da piracema, quando a pesca é restrita para permitir a reprodução das espécies.

"Não está dando para sobreviver de pesca mais não, o peixe diminuiu muito", afirma Adão José Rocha, de 72 anos, que vive há quatro décadas na Barra do Guaicuí. Rocha, que se classifica como um ex-pescador, lembra da época em que o São Francisco e o Rio das Velhas eram "límpidos". "Mas, depois do início da construção de barragens, a coisa foi piorando", disse. "A água desse jeito é a primeira vez que eu vejo. Para mim, não explicaram nada."

O pescador Cosmo Gonçalves de Medeiros, de 46 anos, porém, tem a explicação na ponta da língua. "O certo é que isso é esgoto, não adianta querer esconder", afirmou, enquanto navegava em um pequeno barco pelas águas esverdeadas na confluência dos rios.

Para o "abastecimento humano emergencial", a prefeitura de Várzea da Palma passou a fornecer dois galões de água por família, com capacidade de 20 litros cada. Em duas ilhas do São Francisco, logo após o encontro com o Rio das Velhas, também foram instaladas cisternas com capacidade para 8 mil litros de água.

A aposentada Abigail dos Reis Rodrigues, de 63 anos, moradora da Ilha do Engenho, costumava captar água praticamente na porta de casa, diretamente no Velho Chico. Agora, para o consumo doméstico, ela e a comunidade da ilha dependem do tanque instalado no terreiro de sua casa simples.

"Está sendo um problema. Tem quarenta e tantos anos que eu moro aqui e nunca vi o rio assim. Agora, nem para tomar banho a água presta", reclama Abigail, enquanto retira o balde do tanque. Ela também se queixa que não pode mais "prosear à tardezinha" no terreiro com os vizinhos, como costumava fazer todos os dias. "A gente é obrigada a entrar em casa, mesmo com esse calor todo. O fedor (do rio) é demais."

As cerca de 60 famílias que residem nas Ilhas do Boi e do Engenho sobrevivem principalmente da pesca. Como ajuda, receberam no dia 10 cestas básicas da Cedec.

MANIFESTAÇÃO

As comunidades ribeirinhas da região temem pela manutenção da atividade pesqueira. No dia 19, aproximadamente 400 pessoas fizeram uma manifestação e espalharam peixes mortos numa ponte em Várzea da Palma, cobrando medidas mais eficazes para evitar a contaminação dos rios pelas algas azuis.

Apesar do alerta sobre os riscos que as cianobactérias oferecem à saúde, alguns insistem em desobedecer à proibição de pesca. Na quarta-feira, a reportagem do Estado flagrou dois pescadores em plena atividade na Barra do Guaicuí. "Até agora foi encontrada toxina na água, mas no pescado não está comprovado", argumentou um dos homens, que não quis se identificar.

OESP, 28/10/2007, Vida, p. A30

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