O Globo, Opinião, p. 6
08 de Abr de 2007
Esforço global
O novo relatório do painel da ONU sobre mudanças climáticas, divulgado sexta-feira, não traz, a rigor, novidades; apenas dá ênfase maior à gravidade da situação. É, aliás, o que acontece a cada vez que é divulgado um novo estudo sobre o aquecimento global.
Assim, os mais de dois mil cientistas que assinam o relatório, além de se referirem à já anunciada elevação do nível dos mares, à expectativa de inundação de cidades litorâneas, à desertificação, ao derretimento de geleiras e à mudança no padrão de chuvas, apresentam dados ainda mais alarmantes: as geleiras dos Andes podem desaparecer em apenas 15 anos; nos próximos anos serão extintas várias espécies em florestas tropicais, e as áreas semi-áridas do Brasil e do México estão ameaçadas de passarem a áridas, com todas as conseqüências de tal transformação.
Mas talvez as previsões mais assustadoras sejam as que dizem respeito à escassez de água. Segundo o IPCC (sigla, em inglês, do painel intergovernamental), dezenas de milhões de latino-americanos e centenas de milhões de africanos sofrerão com falta de água em 2020, e, até 2050, serão afetados um bilhão de asiáticos. Infecções podem contaminar milhões de pessoas. E até a Floresta Amazônica, no cenário mais pessimista, está sob ameaça.
No entanto, o relatório fala pouco do Brasil, concentrando-se nos países do Hemisfério Norte. Mas já temos conhecimento de sobra dos efeitos que deverão ser sentidos aqui, como foi exposto no Simpósio Brasileiro de Mudanças Ambientais Globais, em março. A informação mais preocupante é que a temperatura média no país já está cerca de 5 graus acima do que era há meio século, e a continuidade desse processo tem implicações imprevisíveis para a agricultura e para o abastecimento de energia.
A esta altura, já há muito de inevitável nesse drama. Mas suas dimensões ainda podem ser contidas se, o mais breve possível, países ricos e em desenvolvimento derem início a um esforço sério, a exemplo de iniciativas da Europa e de vários estados americanos, pela diminuição dos danos ambientais e redução da emissão de gases, pelo combate ao desmatamento e incentivo à reciclagem. O Brasil, quarto maior emissor de gases - principalmente devido às queimadas - não pode deixar, até em causa própria, de participar ativamente desse esforço.
O Globo, 08/04/2007, Opinião, p. 6
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