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Erros factuais, críticas e ideologia pontuam fala sobre meio ambiente

O Globo, Mundo, p. 38
25 de Set de 2019

Erros factuais, críticas e ideologia pontuam fala sobre meio ambiente
Especialista criticam abordagem do tema
Amazônia, soberania e indígenas: ambientalistas comentam discurso de Bolsonaro na ONU
Presidente citou dados errados e criticou ONGs, imprensa e 'governos estrangeiros' na abertura na Assembleia Geral

SERGIO MATSUURA, FLAVIA MARTIN, JULIANA VAZ E GABRIEL MORAIS *
sociedade@oglobo.com.br
(*Estagiário, sob orientação de Eduardo Graça)

Acrise internacional provocada pelo aumento das queimadas na Amazônia fez com que o tema ambiental dominasse boa parte do discurso do presidente Jair Bolsonaro na abertura da 74 ªAssembl eia Geralda ONU.

Frente a chefes de Estado de todo o mundo, Bolso narodiss eter"um compromissos o lene comap reservação domei o ambiente e do desenvolvimento sustentável" e criticou ONGs, a "mídia internacional" e "governos estrangeiros" que, segundo ele, travam uma "guerra informacional" sobre a Amazônia. Ambientalistas, indígenas e cientistas consideraram o discurso uma "farsa".

"Bolsonaro tentou convencer o mundo de que protege a Amazônia, quando, na verdade, promove o desmonte da área socioambiental, negocia terras indígenas com mineradoras estrangeiras e enfraquece o combate ao crime florestal ", afirmou em nota o coordenador de Políticas Públicas do Greenpeace, Marcio Astrini.

O presidente minimizou o aumento das queimadas na Amazônia, afirmando que "nesta época do ano, o clima seco e os ventos" favorecem o avanço dos incêndios florestais. Destacou ainda a ação de "índios e populações locais" que praticam queimadas "como parte de sua respectiva cultura e forma de sobrevivência". Para Bolsonaro, a comoção global foi resultado de "ataques sensacionalistas que sofremos por grande parte da mídia internacional".

- Novamente Bolsonaro diz que desmatamento, queimadas, violência contra os povos indígenas são mentiras criadas pela imprensa, por governos estrangeiros e sociedade civil. Para quem esperava uma busca por diálogo, ele acabou isolando o Brasil -disse Carlos Rittl, secretárioexecutivo do Observatório do Clima. -Infelizmente, é um discurso que pode funcionar muito bem com seguidores em mídias sociais, aqueles que querem ouvir um discurso divisionista.

Apesar de falar em favor da proteção ao meio ambiente, o presidente defendeu implicitamente a exploração econômica de Terras Indígenas, dizendo que "o índio não quer ser latifundiário pobre em cima de terras ricas".

-O que o Bolsonaro não menciona é que, nos últimos 20 anos, todas as pesquisas de opinião dizem que cerca de 90% dos brasileiros são contra o desmatamento. Pesquisa recente do Ibope apontou que 96% dos brasileiros são contra desmatar a Amazônia -afirmou o cientista Carlos Nobre, um dos maiores especialistas do país em clima.

Repetindo o discurso da campanha eleitoral, voltou a criticar a extensão das reservas indígenas e frisou,em um dos poucos dados citados, que "o Brasil não vai aumentar para 20% sua área já demarcada, como alguns chefes de Estado gostariam".

Diversos estudos nacionais e internacionais apontam os povos nativos como protetores das florestas. Dados do Sistema de Alerta de Desmatamento do Imazon mostram, por exemplo, que, dos 886 km² de florestas perdidas na Amazônia Legal em agosto, 48% foram registrados em áreas privadas, 23% em assentamentos, 20% em unidades de conservação e apenas 9% em Terras Indígenas.

-Eu discordo do presidente quando ele diz que há excesso de terra, e leci taos yanomami. É um equívoco. Foi através dos povos originários que nós conseguimos manter esse enorme patrimônio biológico e ambiental que o Brasil tem -diz Nobre.

Especialistas comentaram esses quatro pontos destacados pelo presidente durante seu discurso.

Indígenas
Os povos indígenas foram um dos principais temas do discurso de Bolsonaro, que citou nominalmente o cacique Raoni Metuktire, apontado por ele como uma "peça de manobra" usada por governos estrangeiros com interesses na Amazônia. Além de deslegitimar uma liderança reconhecida internamente e no exterior, o presidente apresentou liderança escolhida por ele próprio: Ysani Kalapalo.

No discurso na Assembleia da ONU, Bolsonaro leu carta assinada por um grupo de agricultores indígenas do Brasil, dizendo que "Ysani goza de confiança e prestígio das lideranças indígenas interessadas em desenvolvimento, empoderamento e protagonismo, estando apta a representar as etnias relacionadas".

- Acabou o monopólio do senhor Raoni - afirmou o presidente.

Para o antropólogo e ex-presidente da Funai (2003-2007) Mércio Gomes, Bolsonaro foi "indelicado" ao jogar "índio contra índio". Com experiência em políticas indigenistas, Gomes afirma que o governo deveria trabalhar para resolver problemas, não para criar conflitos.

- Ele tem que tomar iniciativas, reformular a Funai, dar mais representatividade aos indígenas, não jogar um contra o outro - criticou o antropólogo. - É preciso encontrar vocações internas dos povos indígenas,para gerar uma economia com o excedente, não colocar trator dentro das suas terras.

Coordenador da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, Dinaman Tuxá também criticou a apresentação de Ysani como uma representante legítima em detrimento de Raoni, além de destacar um erro nos números apresentados por Bolsonaro, o que demonstraria seu desinteresse pela questão.

- Quando ele tenta promover uma indígena que não tem representatividade, ele quer dividir para conquistar - afirmou Dinaman. - No discurso, Bolsonaro falou que somos 225 etnias. Nós somos 305 povos, falantes de 274 línguas, e todos estamos com Raoni.

Amazônia
Durante o discurso, Bolsonaro fez questão de defender a excelência do Brasil na preservação ambiental, destacando que a Amazônia brasileira é "maior que toda a Europa Ocidental e permanece praticamente intocada". Sobre o avanço das queimadas desde que assumiu o governo, voltou a minimizar o problema, culpando o clima seco e os ventos que "favorecem queimadas espontâneas e criminosas", o que foi criticado por ambientalistas.

- O fogo na Amazônia não é espontâneo. É raríssimo o fogo ter origem numa descarga elétrica, ao contrário do que ocorre no Cerrado. Na Amazônia, 100% desses incêndios são provocados pela espécie humana, e, neste ano, cresceram bastante em relação ao ano passado - afirmou Carlos Nobre, pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da Universidade Federal de São Paulo. - Outra coisa: os ventos são muito fracos na Amazônia, o que é bom, pois não torna o fogo incontrolável. O foco são as áreas derrubadas. Às vezes o fogo se propaga um pouco na beira da floresta, na mata ao lado da área derrubada. Eles querem o máximo de queima para que a área fique limpa para a pecuária.

Paulo Moutinho, do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia, também criticou a postura do presidente de sustentar a visão de que não há crise pelo aumento das queimadas, apesar de os dados científicos mostrarem o contrário.

- Se a Amazônia não está sendo devastada, o grupo de 10, 12 satélites ao redor do planeta está tirando fotografias de um outro planeta que não é o nosso - ironizou o cientista. - Foi impressionante insistir que os incêndios na Amazônia estão sendo causados de maneira espontânea. Vários estudos e dados do governo já dizem que estão relacionados ao desmatamento, e Bolsonaro perdeu a oportunidade de reconhecer isso. O próprio Ministro do Meio Ambiente já reconheceu que há avanço do desmatamento.

Soberania
A soberania brasileira sobre suas florestas foi ressaltada diversas vezes por Bolsonaro. Para o presidente, existem tentativas de "instrumentalizar" o debate sobre preservação do meio ambiente, em "prol de interesses políticos e econômicos externos". Mas essa retórica, segundo especialistas, não está embasada na realidade.

- A ameaça à soberania não tem respaldo na realidade. Há décadas, vem sendo apresentada como um risco iminente, a ponto de autoridades do governo dizerem recentemente que chineses invadiriam o Brasil pelo Norte da Amazônia - afirmou Carlos Rittl, secretário-executivo do Observatório do Clima. - A Amazônia não está sob ameaça de interesses estrangeiros, ela está indo abaixo por interesses privados, particulares, em detrimento dos interesses da maior parte da sociedade.

Sem citar nominalmente a França, Bolsonaro mencionou um país que "se portou de forma desrespeitosa, com espírito colonialista". "Questionaram aquilo que nos é mais sagrado: a nossa soberania! Um deles por ocasião do encontro do G7 ousou sugerir aplicar sanções ao Brasil, sem sequer nos ouvir", continuou o presidente, em referência às declarações do líder francês Emmanuel Macron. O brasileiro também disse que é "uma falácia dizer que a Amazônia é patrimônio da humanidade".

- Não me parece que tem um colonialismo internacional. Esse modelo de substituição da floresta por agropecuária é o modelo que nós, e vários países amazônicos copiaram, é um autocolonialismo - afirmou Carlos Nobre. - Esse modelo do colonialismo português é um modelo que nós, na década de 70, impusemos à Amazônia e do qual não nos livramos. Ele não levou ao desenvolvimento da população em sua grande maioria. Essa população não melhorou da vida. A substituição da floresta pela agropecuária não trouxe benefício para grande parte dos que migraram e seguiram esse modelo.

Ocupação da terra
Retomando seu discurso de campanha, Bolsonaro voltou a criticar a extensão das reservas indígenas no país, citando como exemplo a Terra Indígena Yanomami, que "conta com aproximadamente 95 mil quilômetros quadrados, o equivalente ao tamanho de Portugal ou da Hungria, embora apenas 15 mil índios vivam nessa área". E, em tom de críticas às restrições legais para a exploração econômica dessas áreas, citou a existência de "ouro, diamante, urânio, nióbio e terras raras".

- As terras são ricas porque os povos indígenas formam uma frente de proteção - afirmou Dinaman Tuxá. - Ele citou a mineração, mas esqueceu que boa parte do povo yanomami está contaminada por mercúrio por causa do garimpo na região. O mercúrio contamina a fauna e a flora muito rapidamente, e os índios que dependem desse ecossistema.

Como justificativa para ampliar as regiões para exploração econômica, Bolsonaro afirmou que "o mundo necessita ser alimentado". Lembrando que 61% do território brasileiro são protegidos, fez uma comparação com França e Alemanha, que "usam mais de 50% de seus territórios para a agricultura. Já o Brasil usa apenas 8% de terras para a produção de alimentos".

- Bolsonaro continua usando dados que distorcem a realidade. Ele fala que o Brasil usa apenas 8% de terras para a produção de alimentos, quando cerca de 33% são destinadas à agricultura e à pecuária. Ele fala que a Amazônia está praticamente intacta, mas já perdemos quase 20% da floresta original. Quando ele fala que o mundo precisa ser alimentado, não é o desmatamento que permite isso: 63% das áreas desmatadas viraram pastagens degradada ou de baixíssima produtividade, e 23% se encontram abandonadas, ou seja, o desmatamento não está gerando riqueza - criticou Carlos Rittl. - Prova disso é que no período em que reduzimos mais o desmatamento, entre 2004 e 2012, nossa economia cresceu, o PIB do agronegócio cresceu também.

O Globo, 25/09/2019, Mundo, p. 38

https://oglobo.globo.com/sociedade/amazonia-soberania-indigenas-ambient…

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