O Globo, Economia, p. 17
25 de Nov de 2013
Entre os maiores do gás
Brasil pode sair do 32o lugar para ficar entre os primeiros países do ranking após leilão
RAMONA ORDOÑEZ
ramona@oglobo.com.br
BRUNO ROSA
bruno.rosa@oglobo.com.br
O Brasil está prestes a dar os primeiros passos rumo ao desenvolvimento em grande escala da exploração de gás natural em terra, com o leilão que a Agência Nacional do Petróleo (ANP) realizará esta semana, de 240 blocos, em sete bacias sedimentares. Apesar do pouco conhecimento geológico das regiões, o potencial de gás natural convencional e não convencional (shale gas, ou gás de folhelho) indica a possibilidade da existência de um grande volume de recurso, maior até que os do pré-sal, e que pode levar o Brasil a ficar entre as seis maiores reservas do mundo.
Com base em estimativas da ANP, considerando fator de recuperação médio de 70%, em cinco das sete bacias que terão blocos ofertados no leilão, nesta quinta e sexta-feira, o volume de recursos a serem explorados tem um potencial de até 10,1 trilhões de metros cúbicos de gás natural. Número que só ficaria abaixo de países como Rússia, Irã, Qatar, Turcomenistão e Estados Unidos. Para se ter uma ideia do avanço, o Brasil tem a 32ª maior reserva provada de gás no mundo em 2012, com 434 bilhões de metros cúbicos, segundo dados da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep).
Poucos interessados
E parte desse aumento dos recursos está ligado ao famoso shale gas, hoje a principal coqueluche nos Estados Unidos. Segundo a ANP, das sete bacias que serão ofertadas, somente em três - Recôncavo, na Bahia, Sergipe, em Alagoas e São Francisco, em Minas Gerais - há possibilidade de conter esse gás natural não convencional, que se encontra em rochas geradoras, com baixa porosidade e permeabilidade. Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA, na sigla em inglês), só o gás não convencional no Brasil pode somar recursos de seis trilhões de metros cúbicos com potencial de recuperação.
Mas, apesar de todo esse potencial, especialistas não esperam muita euforia dos investidores no leilão. Para eles, os principais motivos são, de um lado, o pouco conhecimento geológico das bacias e, do outro, a falta de infraestrutura para escoamento desse gás. Os riscos ambientais, com os cuidados para evitar a contaminação de lençóis freáticos, também aparecem na lista de preocupações. Porém, eles destacam a importância do leilão, pois servirá como o primeiro passo para o desenvolvimento de uma gigante indústria de exploração e produção de gás natural.
Magda Chambriard, diretora-geral da ANP, em evento recente, afirmou que o Brasil está precisando "desesperadamente" desse gás. Ela lembrou que o gás é estruturante (fomentador de investimentos), que pode ser usado como matéria-prima para a indústria química, a fabricação de aço, alumínio e de alguns fertilizantes.
- Não podemos deixar de ir atrás do gás em terra no Brasil. Esse volume poder ser muito grande, pode ser maior que o pré-sal. E temos que separar um pouco dessa atenção que estamos dando ao mar para a exploração e produção de gás em terra no Brasil - disse Magda.
Gás
Falta política para o setor
Para a 12ª Rodada, estão habilitadas para participarem do leilão 21 empresas, das quais 11 são estrangeiras. O advogado especialista em petróleo e gás Leonardo Costa, do Tauil & Chequer Advogados, disse que, por ter áreas de novas fronteiras (áreas pouco conhecidas) sem infraestrutura para a exploração nem para o escoamento do gás, o governo deveria ter oferecido algum tipo de incentivo para atrair os investidores:
- O interesse está menor do que a gente esperava. É uma nova forma de explorar gás no Brasil e, por isso, a indústria esperava alguns incentivos (como redução dos royalties, ou redução dos índices de conteúdo local). Vai exigir investimentos pesados na infraestrutura para a exploração das áreas de fronteira que podem acabar não fazendo sentido econômico para o seu desenvolvimento por falta de sistemas para escoar o gás.
Magda admite que o interesse na 12ª rodada será menor do que na 11ª rodada, realizada em maio, quando 64 empresas arremataram 118 blocos, gerando R$ 2,8 bilhões em bônus de assinatura:
- Na 11ª rodada, havia oportunidades para todos os tipos de porte de empresas. Desses 118 contratos (assinados), 78 só tiveram um lance. (Em termos de arrecadação) Vai ser bem menos, né? A gente não pode comparar com essa rodada para terra, ancorada em novas fronteiras, com a 11ª rodada.
Pedro Dittrich, do TozziniFreire Advogados, destaca que o fato de o país ainda não ter uma infraestrutura de escoamento de gás em seu território afugentou investidores e atraiu várias empresas de energia. Seis empresas do setor elétrico estão habilitadas para o leilão. O advogado acredita que elas buscam aumentar sua independência energética.
- Essas empresas estão em busca de alternativas para geração térmica por meio do gás natural - explicou Dittrich.
Edmar Almeida, pesquisador do Grupo de Economia da Energia (GEE) do Instituto de Economia da UFRJ, lembra que, apesar do leilão abrir oportunidades de investimento no interior do país, o uso do gás é um desafio:
- A criação de térmicas, para gerar energia elétrica, depende das linhas de transmissão, construir rede de gasodutos é complexo e liquefazer esse gás é muito caro. Falta uma política de governo. Hoje não está claro qual é o futuro da indústria de gás no país.
O professor lembra ainda que, hoje, na prática, quem, determina o desenvolvimento do gás no Brasil é a Petrobras:
- A cadeia de gás está na mão da Petrobras, que é acionista ainda das empresas de distribuição de gás no país. Nesse cenário, é difícil conseguir investidores.
Para o advogado Carlos Maurício Ribeiro, da Vieira Rezende Advogados, as empresas de energia estão entrando no leilão para não dependerem do gás da Petrobras para seus projetos de térmicas. E neste primeiro leilão, com a falta de infraestrutura de escoamento do gás, a construção de térmicas apareceu como uma oportunidade de negócios.
- As futuras descobertas de reservas vão viabilizar o surgimento de uma infraestrutura para o seu escoamento, feita pelo setor privado independente da Petrobras.
Monica Souza, gerente da consultoria Gas Energy, destaca também a forte presença de empresas do setor elétrico,pode evidenciar um interesse maior pelos blocos na Bacia do Paraná próxima ao mercado consumidor.
- As companhias de lá podem estar olhando o mercado em 2020. A estratégia pode ser a geração de energia elétrica através de térmicas - disse Monica, destacando que o leilão envolve alto nível de risco exploratório e dilemas ambientais.
O presidente executivo da Abegás, Augusto Salomon, defende que o uso do gás seja voltado para o desenvolvimento da indústria:
- Os segmentos vidreiro, cerâmico e químico certamente demandarão muito mais gás e poderíamos expandir essas indústrias no lugar de gerar energia na boca do poço. Essa rodada inicia um novo momento do mercado brasileiro. Usando gás não convencional poderemos ter uma oferta próxima da do pré-sal.
O gás natural não convencional já é uma realidade para algumas empresas do país. É o caso da Petra, que identificou gás natural não convencional em 21 poços da Bacia do São Francisco. De acordo com a empresa, o principal tipo de gás na região é o "tight". Os trabalhos ainda estão na fase de exploração.
Em nota, a empresa disse que "ainda estão sendo feitos estudos sobre a origem e as características do gás descoberto". A Petra tem concessões de áreas nas bacias de Bacia de São Francisco e Parnaíba, por exemplo. Na 11ª Rodada, em maio deste ano, a companhia assinou com a Agência Nacional do Petróleo (ANP) contrato para explorar blocos nas bacias de Tucano Sul e Pernambuco-Paraíba.
Na 12ª Rodada de Licitações, as bacias de Parnaíba, Paraná, Parecis, São Francisco e Acre são classificadas como de novas fronteiras - ou seja, são inexploradas. Por outro lado, Recôncavo e Sergipe-Alagoas já são bacias maduras, já com atividades exploratórias.
Exploração ainda é restrita a campos marítimos
Especialista alerta: gás não convencional não é gás de xisto
Ramona Ordoñez
RIO - O gás natural no Brasil começou a ser explorado como um subproduto do petróleo por vir associado na maior parte das reservas descobertas em campos marítimos. Poucas reservas de gás em terra foram descobertas até o momento. É, por isso, que as reservas e a produção no país são de petróleo e gás natural convencional, encontrados em rochas porosas e permeáveis no subsolo, tais como arenitos e carbonatos.
O geólogo da ZAG Consultoria em Exploração de Petróleo, Pedro Zalán, explica que os chamados recursos petrolíferos não convencionais de gás e óleo são encontrados em rochas com baixíssimas porosidade e permeabilidade, tais como folhelhos e outras rochas cujos poros estão quase que totalmente fechados. A ANP compara o folhelho ao granito, para mostrar como a rocha é "fechada". O especialista explica que existem cinco tipos de recursos petrolíferos não convencionais, dos quais o mais famoso gás não convencional é o shale gas (ou gás de folhelho).
Esse gás é encontrado em folhelhos que tenham alcançado um razoável grau de maturação térmica. Outro tipo de gás não convencional é o tight gas sandstones (arenitos fechados), que são, conforme explicou Zalán, encontrados nos centros das bacias sedimentares com baixíssimas porosidades e portadores de gás. O terceiro tipo é o fractured reservoirs, reservatórios naturalmente fraturados. Neste caso, a rocha pode ser de qualquer tipo (folhelho, arenito, carbonato, vulcânica etc.). O quarto tipo de recurso não convencional é o shale oil (óleo de folhelho), que é o óleo natural encontrado em folhelhos que tenham alcançado um razoável grau de maturação térmica.
- O quinto tipo é o oil shale (folhelho betuminoso, também conhecido erroneamente como xisto betuminoso), que são folhelhos ricos em matéria orgânica, mas nos quais a natureza ainda não gerou o petróleo. Nos outros quatro tipos de recursos não convencionais de hidrocarbonetos, a natureza já maturou termicamente a matéria orgânica existente nas rochas e já a transformou em óleo ou gás. Lá se encontra o gás ou o óleo já formado. Eles apenas se encontram em rochas com baixíssimas porosidades. No caso do folhelho betuminoso é muito pior. O óleo não foi ainda nem gerado. A matéria orgânica ainda está sob a forma de betume - explicou Zalán.
Como produzir
O geólogo explica que, para produzir o gás convencional, basta perfurar um poço, atravessar o reservatório poroso e deixá-lo produzir normalmente através de sua grande pressão em subsuperfície. Já nos reservatórios não convencionais é preciso perfurar poços horizontais e fraturar o reservatório (rocha) através do bombeio de água (de cinco a dez milhões de litros são necessários para cada operação de fraturamento). Esse bombeio utiliza altas pressões a partir de uma série de equipamentos, como bombas ligadas em série.
- Uma vez fraturado o reservatório não convencional, é preciso injetar nas fraturas produtos sólidos (tais como areia e esferas de porcelana) e produtos químicos fluidos diversos (há mais de cinquenta tipos) para impedir o fechamento das fraturas artificiais. Com a rede de fraturas artificiais abertas, o gás ou o óleo fluirá para dentro dos poços horizontais por causa também de suas grandes pressões subterrâneas e daí para a superfície - explicou ele.
Segundo o geólogo, é o fraturamento (chamado de fracking) que provoca tanta discussão entre ambientalistas e produtores, que acusam o sistema de exploração de contaminar os lençóis freáticos e gerar pequenos tremores nos terrenos.
EUA são pioneiros
Zalán explica é errado chamar o shale gas de gás de xisto, que não existe em nenhum lugar do mundo. Para ele, o gás de xisto é a tradução errada de shale gas. O termo correto em português é gás de folhelho. Os Estados Unidos são pioneiros e líderes mundiais na produção do shale gas. Fora dos EUA, só há produção de gás de folhelho no Canadá, Austrália e Argentina, estes dois com produções iniciais muito pequenas. Os EUA também são pioneiros e líderes mundiais na produção de shale oil, isto é, o óleo de folhelhos.
O especialista explicou que não existe produção de shale gas no Brasil porque nunca se precisou pesquisar recursos não convencionais. O país ainda está na fase de esgotar seus recursos petrolíferos convencionais, que são mais fáceis de serem explorados e produzidos. Além disso, para o geólogo, no Brasil, a economicidade da exploração e produção de recursos convencionais é muito melhor do que seria a de não convencionais.
Apesar de o Brasil ainda não produzir shale gas, o país, de acordo com Zalán, é líder mundial na produção de folhelho betuminoso. Na usina da SIX, em São Mateus, no Paraná, por exemplo, a Petrobras minera a rocha, carregada para imensos moedores que a trituram. Só depois ela será misturada a catalizadores, tais como pneus velhos, aquecendo até que o betume se transforme em óleo (e em gás).
O Globo, 25/11/2013, Economia, p. 17
http://oglobo.globo.com/economia/entre-os-maiores-do-mundo-em-gas-10870…
http://oglobo.globo.com/economia/exploracao-ainda-restrita-campos-marit…
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