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Ensino diferenciado para resgatar memória

O Povo-Fotaleza-CE
Autor: Débora Dias
04 de mar de 2002

Os índios pitaguarys estão recebendo uma escola diferenciada. Além do português e da matemática, as crianças indígenas também estudarão o meio ambiente, artesanato, danças indígenas e cultura do seu povo. O ano letivo dos pitaguarys tem início hoje

Os índios pitaguarys, em Maracanaú, Região Metropolitana de Fortaleza, podem contar com mais uma unidade de ensino diferenciado. A escola Municipal Santo Antônio de Pitaguary, que fazia parte da rede municipal, passou a ser Escola de Ensino Fundamental Diferenciado do Povo Pitaguary. Além das matérias tradicionais, como português e matemática, as 170 crianças atendidas irão aprender artesanato, danças indígenas, crenças e histórias dos pitaguarys.

''As crianças vão conhecer a natureza, a mata, suas raízes, histórias como a dos troncos velhos'', afirma o cacique da aldeia, Francisco Daniel Araújo da Silva. Cacique Daniel diz que as crianças não tinham a memória da cultura indígena e que a escola representa uma grande vitória da comunidade.

''A gente vê jovens com vergonha de sua origem, porque na escola convencional não tem professor para ensinar sua cultura'', concorda a professora da escola diferenciada e presidente do Conselho Local de Saúde Indígena, Maria Madalena Braga da Silva. Ela defende que o certo é a criança crescer dentro do seu costume. Madalena estima que 99% das crianças que estudavam na escola municipal, localizada na aldeia, eram índios. Ela diz que os outros alunos não reclamaram da mudança por conviverem com o grupo indígena.

Existem na comunidade mais duas escolas diferenciadas. A primeira que os Pitaguarys tiveram, a escola Cuaba, está desativada há mais de dois anos por risco de desabamento. Segundo o presidente do Conselho Indígena do Povo Pitaguary, Venâncio Rodrigues Ferreira, a escola foi construída com verba de uma ONG da Alemanha chamada Aliança Comunitária. O colégio, que não funcionou nem um ano, foi feito em cima de um formigueiro: ''baixou o piso todinho'', diz. As crianças da Cuaba foram transferidas para uma casa e agora também estudarão na nova escola indígena.

A outra escola, chamada Xuí, localizada no Orto Florestal, funciona de primeira a quarta série. As crianças freqüentavam um turno lá e outro em escola municipal. ''Desse jeito, nem 50% das crianças freqüentavam a escola diferenciada'', diz Madalena Braga. Hoje, será inaugurada outra unidade de ensino, na comunidade Pitaguary de Munguba (Pacatuba).

De acordo com a Fundação Nacional do Índio (Funai), existem 19 escolas diferenciadas nas comunidades indígenas reconhecidas. No ano passado, 1.673 crianças estudaram nessas unidades. Criadas por decreto da Secretaria de Educação Básica do Estado (Seduc), as escolas diferenciadas ainda estão sendo regulamentadas pelo Conselho Estadual de Educação (CEC).

A escola de Santo Antônio de Pitaguary foi entregue à comunidade no dia 23 de fevereiro pelo prefeito de Maracanaú, Júlio César Costa Lima. As aulas terão início hoje, quatro de março. Segundo Madalena Braga, o atraso do ano letivo dos índios é justificado pela reforma da escola e pela etapa de aulas do Magistério Indígena realizado no local. ''O bloqueio na estrada que leva à aldeia (feito pelos índios em dezembro do ano passado, para impedir o acesso de posseiros a uma churrascaria em território indígena) também contribuiu'', diz ela.

A escola, que era de primeira à sétima série, vai ter pré-escolar e uma turma de alfabetização de adultos este ano. ''Provavelmente será implantada a primeira turma de oitava série no ano que vem'', informa a Técnica em Educação da Funai do Ceará, Célia Maria da Silva Abreu. Os professores dos Pitaguary serão pagos pelo Governo do Estado. A Prefeitura de Maracanaú vai garantir a manutenção do local, com vigilantes, serventes e com a merenda.

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