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Ensaio para o futuro

CB, Brasil, p.8
24 de mai de 2005

Ensaio para o futuro
Em 2050, de acordo com uma simulação científica, a floresta amazônica passará por intensa seca, resultado de fenômenos climáticos e da ação do homem, e poderá se transformar em grande savana
Ullisses Campbell
Enviado Especial
Duas experiências feitas por cientistas estrangeiros do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) conseguiram prever o que vai acontecer com a Amazônia em 2050, caso a devastação da floresta continue no mesmo ritmo da atualidade. As pesquisas começaram há seis anos e só agora surgiram os primeiros resultados. As conclusões são desanimadoras, especialmente depois da divulgação, na última semana, que a área desmatada na Amazônia, entre 2003-2004, foi de 26.130 quilômetros quadrados, bem maior que o estimado pelo governo federal. Em 2004, a previsão era de que a taxa de desmatamento seria de 2%. O índice registrado foi de 6%.
O primeiro experimento, apoiado e financiado por onze entidades, entre elas a Agência Espacial dos Estados Unidos (Nasa) e a LBA, uma espécie de CNPq norte-americano, teve resultados mais surpreendentes no meio científico. Os pesquisadores isolaram com painéis de plástico especial um hectare de floresta nativa, no município de Belterra, no Pará. Dentro da bolha gigante foram simulados climas que a mata enfrenta por conta das queimadas e do efeito estufa, que causam escassez de chuvas na região. Em algumas ocasiões, o índice pluviométrico (chuvas) foi reduzido em 50%, baixando a umidade do solo progressivamente durante cinco anos.
No primeiro resultado, revelado no seminário Cenários Futuros para a Amazônia, ocorrido na semana passada na Universidade Federal do Pará (UFPA), os pesquisadores revelaram que as árvores de menor porte resistem bem mais ao clima seco do que as espécies de maiores. Até então, os cientistas acreditavam que ocorreria o contrário”, diz o coordenador da pesquisa, o ecólogo Daniel Nepstad. Ele é um dos cientistas que mais têm publicações científicas sobre a Amazônia em todo o mundo.
Ao custo de US$ 1,2 milhão por ano, a experiência projeta para daqui a 45 anos um cenário de seca na floresta amazônica por conta de efeitos no clima provocados pela ação do homem, pelo efeito estufa e ainda pelo fenômeno climático conhecido como el niño. Já que as árvores maiores sofrem maior impacto com a mudança climática, o reflorestamento será mais complicado, uma vez que as plantas menores ficariam a céu aberto e morreriam com mais facilidade”, explica Nepstad, que também é doutor em ciências florestais pela Universidade Yale (EUA) e fundador do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam).
No cenário montado, os pés de louro (Octea ssp) foram os primeiros a morrer com a manipulação climática. A segunda espécie a secar foram os pés de Caraipé (Licania octandra), árvores de 30 metros de altura. Elas levaram apenas três anos para secar e tombar no chão, mortas. O curioso é que, antes de morrer, as árvores param de produzir folhas e raízes. Com isso, elas param de fornecer madeira, principal fonte econômica da floresta”, diz o pesquisador. Isso significa que, no futuro, faltará madeira na Amazônia.
No segundo cenário montado pelos pesquisadores, foi descoberto que a Amazônia sofre um processo intenso de savanização, que transforma a floresta densa em uma espécie de mata antrópica por causa do excesso de queimada. Nesse caso, a floresta nativa será substituída por uma savana empobrecida”, diz Nepstad.
A simulação da savanização foi feita por entidades internacionais na fazenda Tamburo, no Mato Grosso, cedida pela multinacional Maggi. Nesse experimento, os pesquisadores isolaram partes da mata e atearam fogo propositalmente para simular uma queimada, no ano passado. Os primeiros resultados mostraram que labaredas rasteiras de 30 centímetros causam estragos enormes ao ponto de matar, em poucas horas, até árvores de 30 metros de altura. Em agosto, a mesma equipe de pesquisadores vai atear fogo em mais 250 hectares de floresta nativa para aprofundar os resultados.
Efeitos na fauna
Os pesquisadores descobriram ainda que o fogo na floresta modificou o comportamento dos animais silvestres. A maioria dos mamíferos, por exemplo, consegue escapar dos incêndios porque desenvolveu habilidades para identificar as chamas e fugir com antecedência. No entanto, diversas espécies de macacos fazem o oposto: eles são atraídos pelas chamas para capturar os insetos que ficam perto do fogo. Esses macacos acabaram se adaptando aos incêndios.
Outra conclusão dos pesquisadores é que, mesmo com as combustões menores, a floresta fica seca e isso aumenta a possibilidade de ocorrência de incêndios maiores. E as árvores mortas pelo fogo ficam secas, o que aumenta o risco de novas combustões.
Segundo a pesquisa, o fogo de incêndios não-intencionais, em geral provocado por fagulhas de áreas agrícolas vizinhas, corre pelo chão da mata em ritmo relativamente lento, de dez a vinte metros por hora. Mas deixa cicatrizes que os satélites que registram o índice de desmatamento não conseguem captar: árvores com menos folhas, que caem no chão e ficam mais secas, são mais propícias a propagação de incêndios naturais”, diz Nepstad.

Europa cobra explicações
Da Redação
O comissário europeu de Comércio, Peter Mandelson, disse ontem que o Brasil tem que responder, na qualidade de país que aspira a um papel no cenário internacional”, pela grave destruição da floresta amazônica. Em resposta a uma pergunta feita por um eurodeputado, durante uma reunião da comissão de Comércio Internacional do Parlamento Europeu, Mandelson comentou que o Brasil tem que assumir suas responsabilidades, porque algo grave está ocorrendo”.
Mandelson reconheceu que não é fácil” saber a que órgãos é preciso recorrer para frear a destruição de um bem público mundial”, mas disse confiar em Pascal Lamy, único candidato à direção da Organização Mundial do Comércio (OMC), que já falou deste tema com as autoridades brasileiras.
O comissário relacionou ambos os assuntos ante a preocupação de alguns deputados, de que se esteja favorecendo o comércio de produtos brasileiros que algumas vezes são cultivados em áreas protegidas, como a floresta amazônica.
Preocupação
O aumento da destruição da floresta amazônica recebeu na semana passada enorme repercussão na União Européia, especialmente na Inglaterra. A imprensa britânica bateu pesado no governo brasileiro e indicou o governador do Mato Grosso, Blairo Maggi, como um dos responsáveis pelo cenário de devastação da floresta amazônica. O jornal inglês The Independent, um dos mais influentes da Europa, publicou reportagem de capa na sexta-feira, destacando o estupro da floresta amazônica”.
O jornal apontou Blairo Maggi (foto) como um fazendeiro milionário e político sem compromissos que preside o boom da produção de soja brasileira”. Conhecido no país como o Rei da Soja, Blairo Maggi é chamado por ambientalistas o Rei do Desflorestamento”. Em editorial, o jornal clama: Parem a destruição das florestas”. Outras publicações européias destacaram o fato no noticiário, inclusive a estatal inglesa BBC.

Toneladas de carbono no ar
A pesquisa que simulou situações futuras na fauna e flora da Amazônia mostrou ser alarmante a quantidade prevista de carbono a ser despejada na atmosfera com as queimadas. Nos incêndios simulados pelos pesquisadores, descobriu-se que, daqui a 45 anos, as labaredas jogarão anualmente 30 bilhões de toneladas desse elemento químico no ar. Para se ter uma noção, esse número é quatro vezes maior do que a quantidade que o mundo todo joga de carbono na atmosfera.
Com excesso de carbono nos ares, a primeira conseqüência seria a falta de chuvas na Amazônia, o que aumentaria o processo de desertificação, que os especialistas profetizam para a maior floresta do mundo. O elemento químico retardaria a precipitação das nuvens, comprometendo o reflorestamento e a vida animal na selva.
Para o pesquisador Marcos Ximenes, da Universidade Federal do Pará (UFPA), o desmatamento da Amazônia já está comprometendo mananciais de rios importantes. A perda da vegetação faz com que as águas fiquem paradas em determinados locais, facilitando a evaporação. A alteração no ciclo das águas dos rios compromete todo o tipo de vida na floresta, inclusive dos homens que dependem dela para sobreviver”, ressalta.
Para o autor dos estudos que simulam cenários para a Amazônia, Daniel Nepstad, somente o cumprimento à risca do código florestal brasileiro salvaria a floresta amazônica do processo de desertificação. A legislação não é respeitada integralmente em nenhum estado da Amazônia Legal. O governo, por sua vez, não o fiscaliza com eficiência”, critica.
Segundo determina o código florestal (Lei 9.985), a reserva natural das propriedades privadas deveria ser de 80%. Mas ninguém cumpre esse percentual. Se cumprisse, a Amazônia não estaria em franco processo de destruição”, diz Nepstad. Ximenes ressalta ainda que estudo feito na Amazônia revela ser altamente lucrativo para os empresários da região não respeitar a lei, quando se trata de preservação ambiental. Os madeireiros atuam em terras griladas, retiram a quantidade de madeiras que bem entendem, fazem acordo com índios, sonegam impostos e não manejam a floresta. Se eles atuassem dentro da lei, as margens de lucro seriam bem menores. Levando em consideração que o poder público na Amazônia é rarefeito, é muito melhor atuar for a da lei”, ressalta Ximenes. (UC)

CB, 24/05/2005, p. 8

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