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Enquanto as abelhas somem, povos indígenas fortalecem saberes para protegê-las

O Globo - oglobo.globo.com
Autor: Sophia Lyrio
25 de Mar de 2026

No mesmo tempo em que as abelhas desaparecem, pressionadas pelo avanço do desmatamento, pelo uso de agrotóxicos e pelos efeitos da crise climática, alguns povos indígenas aprofundam o conhecimento sobre esses insetos e trabalham para preservá-los.

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Neste mês, na Aldeia Sapukaí, em Angra dos Reis (RJ), aconteceu o lançamento de um livro que reúne os saberes do povo Wajãpi sobre 36 espécies de abelhas presentes em seu território, localizado no coração da floresta amazônica. O evento contou com roda de conversa, apresentação cultural e visita às abelhas criadas pelos Guarani Mbyá, com apoio da Fundação Heinrich Böll.

A publicação registra conhecimentos tradicionais sobre abelhas, reunindo desde características das espécies até formas de manejo, uso do mel e regras culturais que orientam a relação com esses seres. O material é resultado de um processo coletivo de pesquisa conduzido por jovens, agentes socioambientais, professores e conhecedores indígenas.

Para Regine Schoenenberg, diretora da Fundação Heinrich Böll no Brasil, a obra evidencia a relação entre diversidade ambiental e protagonismo indígena.

- Neste livro, os Wajãpi nos apresentam 36 tipos de abelhas que vivem em seu território. Essa diversidade é um símbolo da riqueza da Amazônia e da importância dos povos indígenas na sua proteção. Reconhecer esses saberes é também reconhecer que existem muitas formas legítimas de produzir conhecimento e que precisamos aprender com elas para garantir o futuro da floresta e da vida - afirma Regine Schoenenberg.

Além de catalogar as espécies, os Wajãpi também colocam esses saberes em prática. Desde 2023, com apoio do Instituto Iepé, o povo passou a criar algumas espécies de abelhas sem ferrão como parte de ações de gestão territorial e ambiental.

Segundo Kumare Waiapi, uma das lideranças que representou seu povo no lançamento, o objetivo do manejo vai além da produção de mel.

- A abelha traz o mel, mas também fortalece a nossa associação. Assim, dependemos menos dos parceiros no futuro - explica.

Durante o encontro, Waiapi e sua mulher, Sigau Waiapi, trocaram experiências com os Guarani Mbyá sobre o manejo das abelhas, promovendo o diálogo entre territórios, gerações e modos de vida distintos. Para os dois povos, a criação desses insetos também está ligada ao fortalecimento cultural, à educação da juventude e ao bem-estar comunitário.

- Eu venho lá do Amapá e consegui chegar aqui na aldeia do meu parente, o que para mim é muito impressionante. Estou aprendendo a capturar abelhas, fazer armadilhas. E, quando chegar à comunidade Wajãpi, na minha aldeia, também vou repassar essa capacitação. Por isso o intercâmbio é tão importante para a gente - reforça o líder.

Para Lucas Miri, liderança indígena do povo Guarani Mbyá que coordena o manejo das abelhas na comunidade, o encontro também foi uma experiência marcante.

- Nunca fizemos um intercâmbio, a primeira vez foi com os Wajãpi. Os parentes vieram de longe, lá da Amazônia. É uma experiência única, porque fortalece o nosso aprendizado por meio da espiritualidade. A partir do momento que eles saem daqui, a nossa energia continua circulando - afirma.

Ele explica ainda que a produção de mel, para os Guarani Mbyá, é fundamental para cerimônias tradicionais de batismo.

- O povo Guarani precisa de mel sem ferrão para cerimônia cultural. A maior parte das outras aldeias compra o mel da cidade. Mas eu fiquei pensando: temos essas abelhas no nosso território. Criá-las perto de casa, trazer para perto, é muito mais importante - pontua.

Conhecimento como proteção

Do ponto de vista antropológico, a publicação surge como resposta a transformações recentes na forma como o conhecimento tradicional é transmitido entre os Wajãpi. Antropólogo que acompanha o povo há 24 anos, Igor Scaramuzzi explica que, embora a coleta de mel faça parte da subsistência wajãpi há gerações, os jovens vêm perdendo, nas últimas décadas, o contato direto com esses saberes.

- Os Wajãpi ficaram muito preocupados com o fato de os jovens deixarem de conhecer as espécies de abelhas e os conhecimentos associados a elas. A ideia do livro foi também catalogar essas espécies para incentivar os jovens a continuarem andando na floresta, se interessarem pelas abelhas e aprenderem o que só se aprende na prática - afirma.

Segundo Scaramuzzi, experiências de criação de abelhas já haviam sido tentadas no passado, mas ganharam novo fôlego a partir de 2023, focadas em espécies sem ferrão presentes no território.

- O interesse da criação tem duas razões principais: trazer o recurso para perto das casas e, com isso, possibilitar que as comunidades se interessem mais e aprofundem seus conhecimentos sobre as abelhas - explica.

Para os Wajãpi, acrescenta o antropólogo, a presença das abelhas está diretamente ligada à riqueza da floresta. Uma floresta com abelhas é uma floresta mais diversa, mais viva. Nesse sentido, o livro também dialoga com leitores não indígenas.

- A importância é mostrar que existem modos de vida que oferecem condições para a biodiversidade existir de forma mais plena e abundante dentro da floresta, especialmente no bioma amazônico - diz.

Cofundadora do Instituto Iepé e coordenadora do Programa Wajãpi, Lúcia Szmrecsányi ressalta que a obra é fruto de uma escolha metodológica: colocar os próprios indígenas no centro da produção do conhecimento.

- O livro não é uma produção do antropólogo. O antropólogo ensina como fazer pesquisa, mas quem pesquisa são os próprios jovens. A ideia é fortalecer o protagonismo indígena - afirma.

Segundo ela, enquanto os Guarani mantêm contato com a sociedade não indígena há séculos e aprenderam a resistir em territórios cada vez mais reduzidos, os Wajãpi passaram a conviver de forma mais intensa com os não indígenas apenas recentemente, o que impõe desafios distintos à preservação de seus modos de vida.

- Para os Wajãpi, é muito forte conhecer a forma como os Guarani resistem há tanto tempo, mesmo vivendo em terras pequenas, cercadas por cidades. Eles conseguem manter a língua, as crenças e os conhecimentos, apesar de séculos de contato e pressão. Já os povos da Amazônia, como os Wajãpi, tiveram seus territórios reconhecidos antes de uma ocupação tão intensa, o que cria uma realidade muito diferente - diz.

A antropóloga observa que essas diferenças ajudam a dimensionar a importância da demarcação de terras indígenas para a preservação cultural e ambiental. Enquanto na Amazônia os territórios ainda são extensos e permitem circulação, manejo da floresta e produção de alimentos, em muitas regiões do Sul e Sudeste os povos indígenas vivem em áreas pequenas, com pouca possibilidade de realizar práticas tradicionais.

Lúcia ressalta ainda que o trabalho do Instituto Iepé se apoia justamente na troca entre povos e no fortalecimento das organizações indígenas, tanto dentro dos territórios quanto na relação com a sociedade envolvente.

- A gente atua para dentro, fortalecendo as organizações indígenas, e para fora, criando alianças e incidência política. Sem essas alianças externas, o trabalho interno se fragiliza. E sem o fortalecimento interno, não há como sustentar a luta pelos territórios e pelos modos de vida - afirma.

Para ela, o livro sobre as abelhas segue essa mesma lógica: não é apenas um registro de saberes, mas uma ferramenta para fortalecer a transmissão do conhecimento entre gerações e reafirmar o papel dos povos indígenas na proteção da biodiversidade.

https://oglobo.globo.com/um-so-planeta/noticia/2026/03/25/enquanto-as-a…

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