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Engolindo o Cerrado

CB, Cidades, p. 23
04 de Fev de 2008

Engolindo o Cerrado
O DF conserva apenas 37% da vegetação original. Desde a construção de Brasília, uma área do tamanho de oito Planos Pilotos foi devastada

As cidades, as fazendas e os condomínios irregulares já comeram 362 mil hectares do cerrado brasiliense, de acordo com as mais recentes informações do relatório Probio (veja mapa nesta página). Apenas 37% da paisagem original de arbustos e árvores tortas continua intocada no Distrito Federal. Essas reservas de vida selvagem estão restritas às unidades de conservação e aos morros, onde o relevo acidentado dificulta a ocupação de pessoas e a introdução de culturas agrícolas.

"Estamos no limite de ocupação do território", reconhece Edson Sano, pesquisador da Embrapa Cerrados. Ele foi um dos responsáveis pelo relatório Probio, que usou imagens de satélite para avaliar os estragos causados à savana brasileira. "Na hipótese de aumento populacional, o DF teria de transformar áreas agrícolas em cidades", avalia o pesquisador. Na prática, isso já vem acontecendo, com os parcelamentos nas áreas rurais.

Projetada para abrigar 500 mil habitantes, a capital do país tem 2,4 milhões de moradores, segundo a última contagem populacional feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Desde a inauguração, devastou-se o equivalente a oito cidades do tamanho do Plano Piloto - o único núcleo urbano que estava pensado por Lucio Costa no projeto original.

Quando comparado a outros estados brasileiros em que o cerrado também está presente, o DF é, proporcionalmente, o quarto maior destruidor do ecossistema. Está atrás apenas de São Paulo, Paraná e Mato Grosso do Sul. "A velocidade da destruição preocupa, o DF ainda não completou cinco décadas", alerta o professor da Universidade de Brasília (UnB), Donald Sawyer.

Racionalização

Edson Sano é um desenvolvimentista.
Significa que, para ele, os recursos naturais devem ser aproveitados economicamente e de maneira racional.
"Não precisamos desmatar nenhum hectare de cerrado a mais. Basta aplicarmos as tecnologias existentes para aumentar a produtividade", defende o pesquisador. Donald Sawyer aposta no desenvolvimento com conservação. Na opinião dele, a vegetação precisa ser mantida para assegurar os serviços ambientais. "Não é por estética que as árvores devem estar de pé. É pela nossa sobrevivência", defende.

Serviços ambientais são favores que a natureza nos presta. A regulação da temperatura, o regime de chuvas, a absorção e a filtragem da água são exemplos de serviços ambientais. "Já temos fortes evidências de que o uso que estamos fazendo do planeta está desregulando as funções ecossistêmicas", explica Sawyer.

As árvores do cerrado arrancadas servem de exemplo para entender as mudanças provocadas pelo homem no meio ambiente. Quando substituímos árvores por cimento e asfalto, impermeabilizamos o solo. Com a impermeabilização a água da chuva não se infiltra e, conseqüentemente, não recarrega os lençóis freáticos. Ela escorre pela superfície, provocando as erosões e o assoreamento. O resultado disso podem ser futuros problemas no abastecimento de água ou no fornecimento de energia elétrica.

Ao desmatar para construir ou para plantar, o homem também influencia no ciclo do carbono, já que as raízes das espécies do cerrado são as principais fixadoras de dióxido de carbono da região. "Se a planta morre, o dióxido de carbono que ela fixava vai para a atmosfera. Quando a árvore é queimada, a emissão é imediata", conta Sawyer. O dióxido de carbono ou gás carbônico é um dos causadores do "efeito estufa", que está provocando alterações na temperatura e no regime de chuvas. "Não é só São Pedro que está mandando chuva. É o Seu Pedro também", completa o professor da Universidade de Brasília.

Poluição

Na região de São Sebastião, densamente povoada na última década, os danos ambientais são comprovados em um simples passeio de carro. Os condomínios irregulares avançaram até a beira dos córregos, provocando erosões e prejudicando a qualidade da água. A infra-estrutura é ineficiente, não há rede de captação de águas pluviais, tampouco esgoto ou coleta de lixo adequada. No final, toda sujeira acaba caindo dentro dos cursos d´água.

"Se a legislação ambiental tivesse sido respeitada, a mata ciliar estaria protegendo o córrego", detalha o engenheiro florestal Helmo Lopes Tavares, perito do Ministério Público do Distrito Federal (MPDFT). Por lei, a ocupação urbana ou agrícola deveria manter pelo menos 30m de distância em relação às margens dos córregos. A função dessa faixa de vegetação seria a de amortecer o impacto ambiental provocado pelo homem.

Outro problema relacionado ao desmatamento é a destruição dos corredores ecológicos. Importantes para a sobrevivência das espécies e para a manutenção da biodiversidade, os corredores são caminhos usados pelos animais para passar de uma área natural à outra. Os bichos transitam pelos corredores para buscar locais com comida mais farta e também para se reproduzirem.

"As margens dos cursos d´água são corredores ecológicos naturais. Ao destruí-las, estamos confinando as espécies nas áreas de conservação", detalha Helmo Lopes Tavares. No mapa da ProBio reproduzido nesta página, o leitor pode imaginar a pressão que os outros seres vivos que habitam o DF estão sentindo. Basta fazer de conta que ele vive em uma das áreas pintadas de verde, com a agravante de não ter ruas por onde transitar quando quiser dar um passeio.

CB, 04/02/2008, Cidades, p. 23

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