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Energia que vem do lixo

O Globo, Economia, p. 23
18 de fev de 2007

Energia que vem do lixo
Usina produz eletricidade suficiente para atender a 2 mil residências

Ramona Ordoñez

"Sai do lixo a nobreza", dizia samba-enredo histórico da Beija-Flor em 1989. E isso não é uma mera poesia de carnaval: do lixo pode sair a energia. Já está pronta para ser usada em escala industrial a tecnologia que permite utilizar o lixo urbano, do qual são retirados todos os materiais recicláveis como latas de alumínio, papéis, vidros e plásticos para geração de energia elétrica. O grupo privado nacional Usinaverde acaba de concluir o desenvolvimento da tecnologia em uma usina protótipo construída na Ilha do Fundão, no Rio. A usina consome 30 toneladas diárias de lixo urbano para produzir 450 quilowatts/hora de energia, suficientes para atender a duas mil residências.
O diretor da Usinaverde, Luís Carlos Malta, explicou que, em um primeiro projeto em escala comercial, a usina poderá ter 3 megawatts (MW) de capacidade, consumindo 150 toneladas por dia de lixo por dia.
Essa usina exigiria investimentos da ordem de R$ 30 milhões para atender a cerca de 13 mil residências. Com essa capacidade, evitaria a emissão de 60 mil toneladas/ano de gás carbônico.
- A geração de energia é pequena, mas o importante é sumir com 150 toneladas por dia de lixo - afirmou Luís Malta.
O executivo, que participou do desenvolvimento do projeto em 2001, disse que o Brasil está atrasado quase 20 anos em relação ao uso do lixo pra geração de energia. Segundo ele, já existem no mundo cerca de 700 usinas em vários países da Europa e da Ásia que usam o lixo para gerar, ao todo, 12.500MW, o equivalente à hidrelétrica de Itaipu. A Usinaverde desenvolveu a tecnologia junto com a Fundação Coordenação de Projetos, Pesquisa e Estudos Tecnológicos (Coopetec), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
O diretor da Usinaverde destacou que o projeto é uma solução importante para o meio ambiente neste momento em que se discute o aquecimento do planeta.
Ao usar o lixo orgânico, a usina elimina as emissões de gases altamente tóxicos que contribuem para o efeito estufa e afetam a camada de ozônio, principalmente o metano e o gás carbônico. A usina ainda elimina outro produto altamente nocivo à natureza: o chorume, líquido escuro gerado nos lixões, que penetra no subsolo e contamina as águas.
Luís Malta destacou outros benefícios de uma usina desse tipo. Por exemplo, ela impede que apareçam graves doenças nas populações mais pobres que convivem com os lixões: - É possível, assim, dar mais dignidade às pessoas que hoje vivem catando lixo.
No caso da usina protótipo, cerca de 20 trabalhadores da Coopama, uma cooperativa de catadores de lixo do bairro do Jacarezinho, fazem a seleção do lixo, que vem por caminhão da central de triagem da Comlurb, no Caju.
Eles separam o lixo reciclável e o vendem. O lixo orgânico não-reciclável é jogado dentro de um forno
onde as temperaturas superam mil graus Celsius. O calor do forno gerado pelos próprios gases do lixo passa para uma caldeira chamada de recuperação. O vapor então aquece a água que se encontra nas tubulações e movimenta as turbinas que vão gerar energia.
A Petrobras Distribuidora (BR), juntamente com a Odebrecht, estão em negociações com a Usinaverde para a possível construção de uma primeira usina em escala industrial de 600 toneladas de lixo por dia e capacidade para geração de 12 MW de energia.
As prefeituras terão de fazer a sua parte e dar a concessão para permitir a construção de uma usina com uso de lixo.

O Globo, 18/02/2007, Economia, p. 23

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