O Globo, Tema em discussão, p. 6
Autor: NEVES, Ivan Marcelo
20 de Out de 2008
Tema em discussão: Energia e ambiente
Nossa opinião
Responsabilidade
Com a vitória eleitoral de Lula em 2002, chegaram ao poder alguns grupos organizados, com visão ideológica e projeto político bem definidos. Entre eles, os ambientalistas - críticos, e com razão, dos desmandos cometidos no Brasil em nome do desenvolvimento a qualquer custo. Cabe lembrar que se chegou ao cúmulo, na ditadura militar, de autoridades se vangloriarem do fato de o país estar aberto à vinda de indústrias poluidoras.
Talvez pelos vícios adquiridos pela militância na longa experiência na oposição e a falta de traquejo na administração pública, a área de meio ambiente se converteu em um foco de tensão no governo. 0 desfecho foi a saída de Marina Silva do ministério, substituída por Carlos Minc, também de longa trajetória no ramo, porém com maior flexibilidade na negociação política. A dificuldade básica da execução de um projeto preservacionista radical num país como o Brasil é a própria realidade de um país desigual que precisa investir de forma pesada na geração de emprego e renda, para superar a pobreza. Isso significa usar o máximo possível de seus recursos naturais e outros, para produzir a energia requerida pelo desenvolvimento econômico - sem o qual persistirão a iniqüidade e a pobreza. Digamos, para simplificar, que é mais fácil ser militante ecológico na Alemanha, onde toda a infra-estrutura já foi construída, e os grandes crimes ambientais, cometidos.
Ao lado da questão da Amazônia, a aprovação de projetos de geração de energia se converteu numa zona de atrito entre setores do governo, principalmente por causa do excessivo atraso na definição sobre a construção das duas hidrelétricas previstas para o Rio Madeira (Jirau e Santo Antônio) e a retomada da usina nuclear de Angra 3. As resistências, enfim, foram superadas e os projetos, liberados. Mesmo assim, será o previsível desaquecimento da economia, determinado pela crise mundial, que deverá garantir o afastamento de qualquer risco de apagão até a entrada em operação das primeiras turbinas dos projetos do Madeira, a partir de 2012. Mantidas as previsões anteriores de expansão econômica, o fornecimento de energia sem sobressaltos ficaria na dependência do regime de chuvas. .
0 ponto-chave nessa discussão é definir uma política que seja responsável no meio ambiente, sem impedir o desenvolvimento. 0 preço do preservacionismo não pode ser a miséria.
Outra Opinião
O preço a pagar
Ivan Marcelo Neves
A sociedade brasileira precisa saber que nós, ambientalistas, somos a favor deste momento promissor que o país atravessa, após anos de estagnação nas áreas de desenvolvimento, crescimento e geração de trabalho e renda. Mas esse processo tem um preço! Não se pode impor viabilidade econômica para a construção de empreendimentos, fazendo chantagem sobre a ótica do medo, do apagão, de volta à época das cavernas e outros termos pejorativos.
0 pensamento único do setor elétrico sustenta que o país só utiliza 24,7% do potencial hídrico, como se todos os rios tivessem de ser barrados para servir a este modelo desenvolvimentista. Temos clareza das potencialidades existentes neste solo. Os vários empreendimentos em curso têm deixado todos muito entusiasmados, mas o preço num futuro próximo será amargo. Pois os erros e equívocos estão presentes nas principais decisões do setor desenvolvimentista.
A decisão do governo federal de construir Angra 3 e as usinas hidrelétricas do Rio Madeira, assim como barrar várias cachoeiras, demonstra que a prioridade não é só gerar energia e, sim, saciar um setor que não se cansa de explorar os recursos naturais do país de forma predatória e excludente, recorrendo, para isso, a pareceres e licenciamentos equivocados.
Nossa plataforma socioambiental para todos os setores da economia, principalmente na área de energia, visa a investir no que há de mais óbvio em abundância para a geração de energia neste país tropical, que são o sol e o vento, bem como na geração através da biomassa. É preciso investir em eficiência energética em toda a cadeia produtiva, repotencializar as hidrelétricas sem aumentar as áreas inundadas com mais de 20 anos, bem como diminuir as perdas técnicas na distribuição e transmissão de energia dos atuais 20% para os admissíveis internacionalmente 6%.
Feitos estes investimentos, a curto, médio e longo prazos teremos mais produção e sobra de energia para todo o sistema nacional interligado do que se pretende construir a toque de caixa neste país.
Ivan Marcelo Neves é secretário-executivo do Fórum Brasileiro de ONGs e Movimentos Sociais para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento Sustentável.
O Globo, 20/10/2008, Tema em discussão, p. 6
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