OESP, Metrópole, p. A20
19 de Jun de 2015
'Encíclica verde' une ecologia à justiça social
Em texto de 191 páginas, papa Francisco denuncia comportamento 'suicida' que ameaça futuro da humanidade
José Maria Mayrink
O papa Francisco publicou nesta quinta-feira, 18, a encíclica Laudato Si', um texto de 191 páginas, dividido em seis capítulos, dedicado ao meio ambiente, no qual ele denuncia o comportamento "suicida" de um sistema econômico que ameaça o futuro da humanidade.
"A Terra, nossa casa, parece transformar-se cada vez mais num imenso depósito de lixo", adverte Francisco, depois de afirmar que "anualmente se produzem centenas de milhões de toneladas de resíduos". O papa argentino, que é formado em Química, afirma que as mudanças climáticas são um problema global com graves implicações ambientais, sociais, econômicas, distributivas e políticas e, por isso, constituem um dos principais desafios atuais. "Provavelmente os impactos mais sérios recairão, nas próximas décadas, sobre os países em vias de desenvolvimento", afirma Francisco.
"Muitos pobres vivem em lugares particularmente afetados por fenômenos relacionados com o aquecimento, e os seus meios de subsistência dependem fortemente das reservas naturais e dos chamados serviços do ecossistema, como a agricultura, a pesca e os recursos florestais", diz o papa. Os pobres, observa, "não possuem outras disponibilidades econômicas nem outros recursos que lhes permitam adaptar-se aos impactos climáticos ou enfrentar situações catastróficas, e gozam de reduzido acesso a serviços sociais e de proteção".
Ao chamar a atenção para o esgotamento dos recursos naturais, Francisco aponta a falta crescente de água potável e limpa, "indispensável para a vida humana e para sustentar os ecossistemas terrestres e aquáticos". Observando que "em muitos lugares, a procura excede a oferta sustentável, com graves consequências a curto e longo prazo", o papa diz que "um problema particularmente sério é o da qualidade da água disponível para os pobres, que diariamente ceifa muitas vidas".
Biodiversidade. A encíclica adverte também para a destruição da biodiversidade como uma ameaça ao planeta: "Mencionemos, por exemplo, os pulmões do planeta repletos de biodiversidade que são a Amazônia e a bacia fluvial do Congo, ou os grandes lençóis freáticos e os glaciares. A importância destes lugares para o conjunto do planeta e para o futuro da humanidade não se pode ignorar. Os ecossistemas das florestas tropicais possuem uma biodiversidade de enorme complexidade, quase impossível de conhecer completamente, mas quando estas florestas são queimadas ou derrubadas para desenvolver cultivos, em poucos anos perdem-se inúmeras espécies, ou tais áreas transformam-se em áridos desertos".
Para o papa, "uma verdadeira abordagem ecológica sempre se torna uma abordagem social, que deve integrar a justiça nos debates sobre o meio ambiente, para ouvir tanto o clamor da terra como o clamor dos pobres". A desigualdade, diz Francisco, "não afeta apenas os indivíduos, mas países inteiros, e obriga a pensar numa ética das relações internacionais.
"Há uma verdadeira dívida ecológica, particularmente entre o Norte e o Sul, ligada a desequilíbrios comerciais com consequências no âmbito ecológico e com o uso desproporcionado dos recursos naturais efetuado historicamente por alguns países."
Obama. Líderes mundiais reagiram à encíclica. O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, disse que admira profundamente a decisão do papa de pedir "uma ação sobre a mudança climática de maneira clara e forte, com toda a autoridade moral que sua posição lhe confere". O presidente francês, François Hollande, cujo país acolherá a cúpula sobre mudanças climáticas, sugeriu que o apelo de Francisco seja ouvido em todos os continentes.
Para o secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-moon, a encíclica é um marco ao enfatizar a mudança climática, um dos maiores desafios da humanidade e tema moral que requer diálogo.
'É um alerta para o estilo consumista'
O presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), d. Sergio da Rocha, afirma que a encíclica será referência não apenas para a Igreja, mas para o mundo. "Ela alerta para o estilo consumista que adotamos, para o desperdício." D. Leonardo Steiner, secretário-geral da CNBB, ressalta o cuidado adotado no texto para mostrar os reflexos na área social. "É uma conversão ecológica. Isso é muito importante, porque pressupõe um ajuste da fé."
Para estudiosos da Igreja, a encíclica consolida o caráter pastoral de Francisco. "O segredo de sua liderança está no fato de que ele é espiritual e dá testemunho de sua vida profunda com Deus", diz o teólogo Francisco Catão. "Ele assume posição de quem fala como homem, como cristão, como pastor."
"As pessoas têm de entender que o objetivo da encíclica é apoiar os ecologistas em sua luta", afirma o biólogo e sociólogo Francisco Borba Ribeiro Neto, coordenador do Núcleo Fé e Cultura da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). "O papa coloca sua autoridade moral e da Igreja a serviço da causa ambiental."
"O papa acredita que o mesmo ser humano que não soube cuidar de sua casa é capaz de converter seu modo de pensar e agir para reconstruir o planeta, como Francisco reconstruiu a Igreja", afirma o jornalista Roberto Zanin, porta-voz da prelazia Opus Dei no Brasil.
Cardeais. O cardeal d. Cláudio Hummes, arcebispo emérito de São Paulo e presidente da Comissão Episcopal para a Amazônia, afirmou que as advertências e os apelos do texto se dirigem a todos, não só aqueles que ameaçam, mas também a quem já causou danos ao meio ambiente. Já o cardeal arcebispo do Rio, d. Orani Tempesta, pontua que o documento trata como indissociáveis a ecologia e as questões sociais. "Fala da ecologia integral e para todos. Estamos no mesmo barco."
O monsenhor Joel Portella, coordenador arquidiocesano de Pastoral do Rio, realçou o fato de o texto ser endereçado a "cada pessoa que habita esse planeta", e não a bispos e arcebispos. / José Maria Mayrink, Edison Veiga, Lígia Formenti e Roberta Pennafort
Amazônia: papa defende soberania
A encíclica Laudato Si' critica a ideia de internacionalização da Amazônia. Diz que não se pode ignorar os atentados às soberanias nacionais e alerta contra "propostas de internacionalização da Amazônia que só servem aos interesses econômicos das corporações internacionais". "É louvável a tarefa de organismos internacionais e organizações da sociedade civil que sensibilizam as populações e colaboram de forma crítica" para que cada governo cumpra "o dever próprio e não de legável de preservar o meio ambiente". /J.M.M
OESP, 19/06/2015, Metrópole, p. A20
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