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Emprego e renda, os maiores desafios

OESP, Especial, p. H5
03 de Dez de 2009

Emprego e renda, os maiores desafios
Especialistas discutem alternativas econômicas sustentáveis na região

Ana Conceição
Agência Estado

Como gerar emprego e renda na Amazônia e ao mesmo tempo preservar os recursos naturais da região? Embora as respostas a essa questão não sejam das mais fáceis, parece haver um consenso entre os formuladores de políticas para a área: desmatamento não cria emprego. Pelo menos não o emprego sustentável.

Quando a madeira acaba, ocorre um declínio forte da atividade econômica, provocando desemprego. Na sequência, cerca 75% da área desmatada é usada para a pecuária, atividade que gera poucos postos de trabalho e renda, afirma Paulo Barreto, diretor do Instituto Imazon. "Após a retirada da cobertura florestal, as pessoas passam a migrar para novas fronteiras. Assim, há uma expansão da ocupação do espaço, em vez da consolidação do crescimento econômico das áreas já desmatadas."

"O principal vetor do desmatamento é a fome e o desemprego", afirma o governador do Amazonas, Eduardo Braga (PMDB), para quem a ausência de políticas consistentes para a geração de emprego explica em grande parte o nível de destruição florestal na Amazônia. Ele exemplifica: "A Zona Franca de Manaus foi o maior e mais eficiente programa ambiental que o Brasil já produziu. Por isso, o Amazonas é muito mais preservado que os outros Estados", afirma.

O governador lembra que os Estados da região tiveram uma ocupação econômica dividida em ciclos, como o extrativismo vegetal, a mineração, a produção de itens agrícolas e semielaborados. Com exceção do Amazonas, onde se instalou a Zona Franca.

"Atiraram no que viram e acertaram no que não viram", comentou. Explicando a relação inversa entre destruição da floresta e crescimento, Braga ressalta que o desmatamento da Amazônia caiu de 24 mil quilômetros quadrados em 2004 para 7 mil em 2009. No mesmo período, a economia do Estado do Amazonas cresceu à taxa de 10% ao ano. "Dizer que o desenvolvimento é necessariamente predatório não é uma verdade inquestionável."

Dentre as iniciativas necessárias para a geração de empregos, o governador cita a melhoria da infraestrutura logística da região, o desenvolvimento do turismo e a remuneração adequada para os chamados produtos sustentáveis, além de praticas modernas de manejo florestal. "A agregação de valor é nosso maior desafio."

Para Henrique Villa da Costa Ferreira, secretário de Políticas de Desenvolvimento Regional, do Ministério da Integração Nacional, a equação é bem mais complicada, especialmente diante da grande extensão do território da Amazônia e de sua diversidade. "É preciso olhar para cada caso específico. A Amazônia é muito heterogênea", pondera.

Na sua visão, seria necessário trabalhar áreas em escala menor, identificando vocações econômicas em cada uma delas por meio dos chamados arranjos produtivos locais. "É um termo técnico que significa que, a partir de um sistema, podemos identificar a vocação de uma área a partir de políticas de inclusão social". Entre essas vocações podem estar uma grande variedade de iniciativas de produção, como turismo, artesanato indígena e outras. O importante, diz, é que as soluções sejam criadas das áreas que serão beneficiadas. "A diferença é que se enxerga do território para Brasília e não de Brasília para o território."

Entre as iniciativas que seguem essa cartilha, Ferreira cita os projetos de floricultura, fruticultura e artesanato indígena no Alto Solimões, onde há participação de governos municipais, iniciativa privada e diversas entidades. Ele diz não ser contra grandes projetos, mas acredita que o desenvolvimento regional deve incluir outros territórios que estão à margem dos grandes eixos de desenvolvimento no Brasil. O desafio, diz, é envolver a iniciativa privada, sob o risco de os projetos ficarem sob a tutela do governo federal.

Barreto, do Imazon, também chama a atenção para a heterogeneidade das áreas que compõem a região e observa que o grande desafio é fazer a transição para uma economia de maior sustentabilidade, ao mesmo tempo em que se cria empregos. "O PIB da Amazônia cresce desde 1970, mas quando vamos na escala de municípios essa curva de crescimento não é tão promissora. Há grande diversidade de uma região para outra". Segundo ele, é possível ter outra economia que supere as atividades ligadas ao desmatamento. "Há outras alternativas, como o aumento da produtividade da área desmatada e o manejo florestal."

Adalberto Luis Val, diretor do Instituto de Pesquisas da Amazônia (Inpa), chama a atenção para outro aspecto da equação emprego e renda: investimento em ciência, tecnologia e educação. É crucial, afirma, a formação de uma massa crítica que crie soluções regionalizadas, que pense a região com toda a sua diversidade. Nesse sentido, ele defende mais investimentos no sistema de ensino de terceiro grau, como forma de criar uma massa de técnicos e cientistas capazes de dar sustentação aos planos de desenvolvimento econômico com sustentabilidade ambiental.

"A Região Norte precisa de mais doutores", destaca. Ele calcula que as escolas superiores dos 9 estados da região formem, atualmente, 380 estudantes com grau de doutor a cada ano. "Mas precisamos de 3 a 4 mil doutores por ano, fixados na região, para a promoção do desenvolvimento sustentado."

OESP, 03/12/2009, Especial, p. H5

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